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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

14
Mai21

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

Tive saudades deste livro que li no fim do século passado; e esta cena, particularmente, foi-me evocada pela leitura do livro de Marieke Lucas Rijneveld, O Desassossego da Noite, vencedor do Man Booker International Prize, que sai daqui por quatro dias. Uns católicos, outros protestantes, a mesma tristeza em ambos.

Falta pouco para o padre nos vir fazer o exame de Catecismo. O professor tem de nos ensinar como é que se recebe a Sagrada Comunhão. Manda-nos juntar à volta dele. Enche o chapéu de bocadinhos de papel de jornal. Entrega o chapéu ao Paddy, ajoelha-se, diz-lhe para tirar um bocadinho de papel e lho pôr na língua. Mostra como se deve fazer: pôr a língua de fora, receber o bocadinho de papel, esperar um momento, meter a língua para dentro, pôr as mãos, levantar os olhos para o céu, fechar os olhos em adoração, esperar que o papel se derreta na boca, engoli-lo e agradecer a Deus aquela dádiva de receber a paz da Graça Santíssima. No momento em que ele põe a língua de fora, temos de fazer um esforço para não nos rirmos, porque nunca nenhum de nós viu uma língua tão grande e tão vermelha. Ele abre muito os olhos para ver quem é que está na risota, mas não pode dizer nada porque ainda tem Deus na língua e é um momento sagrado. Levanta-se e manda-nos ajoelhar à volta da sala para treinarmos a Sagrada Comunhão. Dá a volta à sala, a pôr-nos bocadinhos de papel na língua e a dizer umas coisas em latim. Alguns dos rapazes riem-se, e ele grita-lhes que, se não pararem com a risota, não é a Sagrada Comunhão que vão receber, mas os Últimos Sacramentos...

 

Frank McCourt, As Cinzas de Angela, tradução de Maria do Carmo Figueira

13
Mai21

Todo um mundo novo para aprender

Maria do Rosário Pedreira

Durante o primeiro confinamento, recebi o convite de uma escritora romena que vive no Reino Unido para colaborar num poema colectivo no qual terão participado, creio, mais de cem poetas do mundo inteiro, sobre o isolamento em pandemia. Aqui em Portugal, lembro-me de terem contribuído Ana Luísa Amaral e Nuno Júdice, por exemplo, mas havia poetas de todos os continentes, uns mais conhecidos do que outros. Quando chegava a nossa vez, tínhamos de ler o que até ali os nossos confrades tinham escrito e tentar que os nossos versos tivessem uma sequência lógica. Era também obrigatório escrever em inglês (uma espécie de língua que serve para todos) e, mais tarde, mandar um pequeno vídeo lendo os versos ao pé da janela da casa onde estivéramos em recolhimento obrigatório para, depois de montado, o poema surgir completo nas vozes de todos os autores. Era um poema no formato «Renga» japonês e a mentora chamou-lhe Poem of Self-Isolation. Depois de publicado numa revista romena, este poema longo vai agora ser traduzido e publicado numa revista literária no Japão. Avisaram-me ontem, pedindo autorização para a reprodução dos meus versos e uma curtíssima biografia. Até aí, tudo normal. Porém, logo a seguir perguntavam se tinha interesse em ser tratada por outro pronome que não o derivado da «cisgeneridade». Confesso a minha ignorância, tive de ir ver de que se tratava, e aprendi que a palavra se aplica quando a identidade corresponde ao sexo com que se nasceu (no meu caso, o pronome seria «ela», mas há quem se refira a si mesmo como «eles» ou de outras formas). De caminho, li uma data de coisas sobre cisgeneridade, trans, homenidade, não-binaridade, etc., e senti que estou a ficar um bocado velha para este mundo novo. Interroguei-me sobre se doravante tenho de inquirir os meus autores sobre se querem ser referidos nas badanas dos seus livros com pronomes diferentes dos «ele» e «ela» que lá estão, junto das suas fotografias que podem, pelos vistos, induzir em erro.

12
Mai21

Às cegas

Maria do Rosário Pedreira

Quando eu era miúda, os adolescentes apaixonados faziam de tudo para jogar ao «Pirilampo» (outros chamavam-lhe «Quarto Escuro»), uma brincadeira às escuras em que era suposto agarrar e identificar alguém e, de caminho, se calhasse ser um par de namorados, dar um beijinho sem os pais verem. Os pais, claro, odiavam a brincadeira e tentavam evitá-la a todo o custo nas festas de anos e outras reuniões que reunissem um número considerável de jovens nas suas casas. Hoje, porém, há uns blind dates menos do que platónicos, que acontecem, vejam lá, com livros (que é, de resto, o assunto que me traz sempre a este blogue). Pois bem: o Teatro Viriato quer fomentar a leitura e, para isso, com o apoio de livrarias, convidou artistas (Pedro Sousa Loureiro, Tiago Lima, Tânia Carvalho, Patrícia Portela ou Dr. Changuito) para aconselharem livros de que gostam e redigirem no site do teatro uma espécie de enigma que levará à descoberta da obra literária escolhida ou, pelo menos, a uma grande curiosidade sobre qual será. Num tempo em que a leitura está a ficar para trás, saúdo esta iniciativa de Susana Cardoso e espero sinceramente que, atrás da graça do jogo, alguns mais jovens se entusiasmem por determinado tema ou estilo e vão à procura do livro em causa. O Blind Book Date ocorre até ao fim do mês, e os pais podem ficar sossegados...

11
Mai21

História e ficção

Maria do Rosário Pedreira

No último fim-de-semana assisti (embora não presencialmente) a um excelente painel do festival cultural alfacinha 5L, conduzido pela excelente jornalista (e também escritora) Isabel Lucas e com a presença dos autores Lídia Jorge, Isabel Rio Novo e Itamar Vieira Júnior. O assunto era, no fundo, a relação entre a história e a ficção, sendo que todos os intervenientes no debate têm livros publicados que tocam de perto factos ou episódios históricos, desde a Guerra Colonial, o 25 de Abril, a escravatura, a reforma agrária, a vaga de tuberculose no início do século passado, o surgimento do impressionismo ou a biografia do pintor e mecenas Gustave Caillebotte. Sob o nome Tecido da História, poderíamos esperar nessa sessão escritores realmente vocacionados para o romance histórico enquanto retrato de época ou registo de acontecimento épico. Curiosamente, foram autores que não estão minimamente associados a este género literário os convidados a debruçar-se sobre a questão. E que delícia ouvi-los, cada um à sua maneira! Pois ficou claro que, ao contrário da História, que celebra o colectivo e o universal, a Ficção vai à procura do indivíduo, do pessoal, do herói tantas vezes anónimo, para tratar as sujectividades de todos aqueles que nos manuais de História desaparecem sob o manto das mais «objectivas» multidões. Foi tão boa aquela hora de sábado no Museu da Farmácia vista e ouvida aqui de casa... Sabe mesmo bem escutar quem tem realmente coisas para dizer. Obrigada aos quatro. (Para quem queira conhecer alguns dos livros referidos: A Costa dos Murmúrios e os Memoráveis (Lídia Jorge); Rua de Paris em Dia de Chuva e A Febre das Almas Sensíveis (Isabel Rio Novo); Torto Arado (Itamar Vieira Junior).

10
Mai21

Livros a Oeste

Maria do Rosário Pedreira

Amanhã começa mais uma edição de Livros a Oeste, o festival literário que ocorre anualmente na Lourinhã e que tem como curador o jornalista e animador cultural João Morales, homem de sete ofícios que também faz rádio e podcasts e escreve nos jornais. A iniciativa, que já tem uns aninhos e se prolonga este ano até ao dia 15, traduz-se por manifestações culturais e artísticas de diversas áreas, mas, como não podia deixar de ser, privilegia o livro e a leitura e tem uma importante componente escolar em todo o concelho. Muitas dessas sessões pensadas para o público juvenil terão, de resto, lugar nas escolas, aonde os escritores já vão há algum tempo, reservando-se então as apresentações e mesas-redondas vocacionadas para o público adulto à versão digital (que remédio), como vem sendo hábito desde que o vírus se imiscuiu na nossa vida  e mudou os hábitos e rotinas de todos nós. O programa completo pode ser consultado aqui:

https://portaldomunicipe.cm-lourinha.pt/menu/1270/programahttps://www.facebook.com/events/189577986109945/?acontext=%7B%22source%22%3A%2229%22%2C%22ref_notif_type%22%3A%22plan_user_invited%22%2C%22action_history%22%3A%22null%22%7D&notif_id=1617809662173723&notif_t=plan_user_invited&ref=notif

07
Mai21

Milfolhas de volta

Maria do Rosário Pedreira

Toda a gente gulosa sabe, creio eu, o que é um milfolhas; e em Portugal, por acaso, os milfolhas são geralmente achatados e massudos, enquanto em França são leves, estaladiços e com um leve toque de álcool que lhes cai lindamente. Muita gente se há-de lembrar que o jornal Público teve um suplemento literário chamado «Milfolhas» que durou muitos anos, teve vários directores e ficou  associado a uma colecção de ficção que levava o mesmo nome (Milfolhas) e, se não me engano, teve cem títulos. Estes incluíam o melhor que se escreveu no século XX, de Virginia Woolf a Cesare Pavese, de Gore Vidal a Vargas Llosa, e compuseram as estantes de muitos jovens leitores desse tempo, pois os mais velhos já tinham em casa muitos dos clássicos modernos dessa longa lista. Mas a Milfolhas voltou agora de cara lavada para mostrar mais doze títulos do novo século, desde Os Interessantes, de Meg Wolizer, a Perguntem a Sarah Gross, de João Pinto Coelho, desde Némesis, de Roth, a O Pianista de Hotel, de Rodrigo Guedes de Carvalho, desde A Gorda, de Isabela Figueiredo (este já está à venda) até Correcções, de Jonathan Franzen. Os lançamentos são mensais e o preço pouco passa dos 10 euros. Tudo junto, são mais de mil folhas por uma bagatela. Não perca!

06
Mai21

Novas Cartas Portuguesas

Maria do Rosário Pedreira

Este é um daqueles títulos que vêm sempre à tona quando se pensa em livros censurados durante a ditadura, em feminismo, em liberdade e em mulheres de coragem. E a verdade é que as Novas Cartas Portuguesas já têm... 50 anos! O livro foi escrito por três mulheres notáveis (Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta), as duas primeiras infelizmente já desaparecidas (mas presentes nos muitos livros que escreveram), e tem uma edição nas Publicações Dom Quixote com a organização e o comentário avisado da poetisa e professora universitária (e também feminista) Ana Luísa Amaral. Ora, é justamente sobre este livro-marco que hoje se inaugura uma exposição no Museu do Aljube Resistência e Liberdade (no edifício que foi ourora uma prisão política). Chama-se Mulheres e Resistência, Novas Cartas Portuguesas e Outras Lutas e pretende homenagear as mulheres que, ao longo de 48 anos, foram determinantes na luta antifascista e na conquista da liberdade. A exposição ficará aberta até ao final do ano. Entre outras coisas certamente mais interessantes que tem para ver, está um poema meu. Foi um desafio que gostei muito de aceitar.

Teresa02.png

 

05
Mai21

Extraordinário

Maria do Rosário Pedreira

Ora bem, isto é que foi aproveitar a data para não ter de pensar muito no que dizer... Então não é que o Dia Mundial da Língua Portuguesa, que hoje se comemora, é também o dia do aniversário (já o décimo primeiro, calculem!) deste blogue? Não tinha feito a associação, mas é uma bonita coincidência terem escolhido para celebrar a nossa língua (sem o saber, bem entendido) a mesma data em que eu comecei timidamente estas Horas Extraordinárias, não sonhando que ainda as estaria a alimentar quase diariamente tantos anos volvidos. Já houve momentos em que me senti cansada, momentos em que o teor de certos comentários me levou a pensar se não seria melhor acabar com o blogue ou as vozes à volta dele, alturas em que (sobretudo em pandemia, pois nada se passava) me desunhei para encontrar assunto para cinco dias úteis de textos, mas, enfim, resisti a tudo isso e hoje olho para esta primeira capicua sabendo que estes pequenos textos sobre livros e edição também me ajudaram a reflectir, a manter-me informada, a treinar a mão para a crónica, a desenvolver o meu poder de síntese, a aprender a ouvir os outros e a organizar o tempo. Aos que estão desse lado, sobretudo os que acompanham o blogue desde o começo, obrigada pela companhia. Venham mais onze anos, se a cabeça e o corpo deixarem! Seria extraordinário.

04
Mai21

Lisboa literária

Maria do Rosário Pedreira

Amanhã comemora-se o Dia da Língua Portuguesa e, simultaneamente, inaugura-se um festival literário na capital que, tendo tido a sua primeira edição no ano passado, foi muito afectado pela pandemia e, por isso, pouco se deu por ele. Chama-se 5L este festival alfacinha (e os cinco L correspondem, tanto quanto me parece, às palavras Língua, Livros, Literatura, Leitura, Livrarias) e tem uma extensa programação entre amanhã e domingo, que inclui debates, entrevistas, leituras, cinema, exposições, itinerários e muito mais, com especial destaque para encontros dos escritores com os seus leitores (ainda virtuais, porque o vírus a isso obriga, mas no futuro espera-se que possam ser ao vivo) mediados pela jornalista Raquel Marinho (José Luís Peixoto, José Eduardo Agualusa, Afonso Cruz e Matilde Campilho são os escolhidos). A sessão inaugural acontece no Teatro São Luiz com a entrega do Prémio Literário da UCCLA e o fecho no Capitólio com um concerto de Sérgio Godinho e a participação do grande pianista Filipe Raposo. Poderá acompanhar tudo pelo link que lhe deixo abaixo e até descarregar o programa para se orientar. De Lisboa para o mundo!

Agenda – Lisboa 5L

 

03
Mai21

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Nem sei explicar bem porque adiei tanto tempo a leitura de um livro que, mal saiu lá fora, me chamou a atenção: não pelo título (O Ano do Pensamento Mágico) que, assim a seco, até pode conduzir a uma ideia errada, mas porque tratava da morte e da saudade de alguém muito próximo e cúmplice (na verdade, o marido da autora, a jornalista e escritora Joan Didion, ao fim de 40 anos juntos!) e da quase impossível superação dessa ausência. Mas, além dessa temática, sobre a qual gosto mesmo de ler (e por isso adoro alguns livros do querido Julian Barnes), sabia que este belo livro não tinha ponta de lamechice (como acho que tem, por exemplo, Paula, de Isabell Allende, que li há mais de vinte anos e fala da morte da sua filha) e era até um livro culto e com bastantes referências literárias. Bem, a minha irmã emprestou-mo e finalmente devorei-o. E é também muito útil para nos mostrar que a vida pode ser sempre pior (quando começa o texto, a filha de Joan Didion está nos Cuidados Intensivos com uma infecção generalizada em coma e, portanto, a escritora precisaria ao seu lado mais do que nunca do marido quando este, inesperadamente, sucumbe a um enfarte). Aconselho vivamente. Uma lição de vida e um objecto literário bastante raro.

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