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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

31
Mai21

Belas histórias

Maria do Rosário Pedreira

Li a correr algures (num jornal inglês, acho), mas depois, como já não sabia onde, não voltei a encontrar o texto, pelo que já não consigo dizer se foi exactamente assim que as coisas se passaram; mas, tendo-se passado algo de muito parecido com isto, não tem no caso grande importância se o rigor não for o maior. A história é bela: numa livraria, está um senhor leitor que ouve um rapazinho a discutir acaloradamente com a mãe sobre livros, e sobre os livros todos que queria levar. Os livros são caros, já se sabe (embora as pessoas paguem o preço de três livros por um bilhete para um concerto e nunca piem sobre isto, apesar de o concerto só demorar hora e meia, enquanto o livro está na estante para a vida e pode ser emprestado a dezenas de leitores); e o miúdo tem um orçamento, ou seja, só pode escolher só um título, mas, ainda que o saiba, está a apresentar argumentos para convencer a mãe a comprar-lhe dois e está a surpreender o leitor adulto que o ouve à socapa porque não é lá muito comum um menino tão novo perceber tanto do que tem dentro um livro e querer tão desesperadamente levar livros para casa sem ser por imposição da mãe. Resultado: o leitor mais velho comove-se com isto, vai à caixa e compra um cheque-livro, pedindo duas coisas ao livreiro: que o ofereça ao grande futuro leitor e que, sobretudo, não diga que foi ele que lhe deixou aquele presente. Sai da livraria e não chega a ver, claro, o contentamento incrível do miúdo, nem a cara de surpresa da mãe. Só dá presentes anónimos destes quem dá mesmo importância ao futuro da leitura. Abençoado grande leitor.

28
Mai21

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

Aos sábados, o jantar era sempre o mesmo em Pencey. Era considerado uma coisa do caraças, por ser bife. Apostava mil palhaços em como só o faziam porque havia uma data de pais de alunos que aos domingos iam visitar os filhos, e o velho Thurmer às tantas achava que as mães todas iam perguntar aos seus queridinhos o que tinham comido ao jantar e eles respondiam: «Bife.» Não me lixem. Haviam de ver os bifes. Umas coisas ínfimas e duríssimas que mal se podiam cortar. Davam-nos sempre aquele puré cheio de grumos na noite do bife e à sobremesa um Brown Betty, que ninguém comia, a não ser talvez os miuditos dos primeiros anos- que não percebiam nada de nada - e tipos como o Ackley, que comiam tudo e mais alguma coisa.

Mas quando saímos do refeitório estava bonito. Havia uns dez centímetros de neve no chão e ainda continuava a cair que era uma loucura. Era bonito como o raio, e começámos todos a atirar bolas de neve e a fazer macacadas por ali à toa. Era uma coisa de putos, mas era um gozo bestial para toda a gente.

Eu não ia sair com ninguém nem coisa que se parecesse, por isso, eu e um amigo que pertencia à equipa de luta livre, o Mal Brossard, decidimos apanhar o autocarro e ir até Agherstown comer um hamburguer e talvez ir ver um filme merdoso [...]

 

J. D. Salinger, À espera no Centeio, tradução de José Lima

27
Mai21

Leipzig extraordinária

Maria do Rosário Pedreira

A partir de hoje, Portugal, que será o país convidado da Feira do Livro de Leipzig, na Alemanha, em 2022 (deveria ter sido este ano, mas a pandemia não deixou), vai apresentar-se num pequeno festival extraordinário através de vários eventos online até ao dia 30, nomeadamente conversas com autores, algumas delas em inglês, outras em português com tradução simultânea. Estarão presentes, entre outros, a historiadora Irene Pimentel, especialista no tema do Holocausto, os escritores africanos de língua portuguesa Germano Almeida, Ondjaki e Mia Couto, o autor do extremamente bem-sucedido Almoço de Domingo, José Luís Peixoto, e também Patrícia Portela, Isabela Figueiredo e Afonso Reis Cabral, que acaba de publicar na excelente editora Hanser a tradução do seu livro que venceu o prémio Literário José Saramago Pão de Açúcar. Participará ainda a poetisa Ana Luísa Amaral e António Lobo Antunes, um dos escritores mais apreciados na Alemanha. Se está interessado em saber mais e assistir a alguma das sessões, subscreva o canal Youtube do Camões Berlim em Camões Berlim - YouTube.

26
Mai21

Revisor privado

Maria do Rosário Pedreira

Estive recentemente no programa Encontros Imediatos, de João Gobern e Margarida Pinto Correia (para ser mais precisa, no sábado passado), a falar basicamente de mim e do meu trabalho; e, entre outras coisas, referi que com quem mais aprendi até chegar a editora foi com as pessoas que na altura era suposto chefiar, uma vez que o editor estava ausente e me cabia essa função interinamente: os revisores, os paginadores, as pessoas ligadas à produção dos livros. Penso que é fundamental passarmos por todos esses departamentos para percebermos realmente como se faz um livro, e ainda hoje estou grata por ter aprendido tanto. Outra coisa que mencionei é que, como autora, nunca dispensei um editor e um revisor (sobretudo antes de os computadores detectarem erros e gralhas); nem sempre foi o editor que me publicou os livros, porque antes dele já eu tinha consultado leitores «profissionais», nomeadamente o meu «mentor» (José Afonso Furtado) e dado os textos a rever a alguém de confiança. No blogue, para o qual escrevo sempre a correr, não me preocupo exageradamente, confesso, mas é só porque todas as manhãs sei que o meu querido Paulo Moreiras (autor de romances pícaros formidáveis) está a ler-me para os lados de Leiria e a detectar as gralhas e erros que deixei passar. Quando ligo o computador e vejo os e-mails, tenho quase sempre uma mensagem dele a avisar-me dessas distracções. É um luxo. Hoje presto-lhe homenagem, Paulo. Muito obrigada. É tão bom trocar de lugar com os autores de vez em quando.

25
Mai21

Moral e dinheiro

Maria do Rosário Pedreira

Escrevi há tempos aqui no blogue um post sobre o facto de a editora norte-americana da biografia de Philip Roth ter suspendido as vendas e retirado os exemplares do mercado por causa de o seu autor, Blake Bailey, ter sido acusado de ter assediado sexualmente raparigas que tinham sido suas alunas cerca de trinta anos antes. Não foi o único livro a sofrer o mesmo destino (vejam o que aconteceu com o livro de Woody Allen quando a editora desistiu da publicação depois de ter assinado um contrato e até pago um adiantamento chorudo pelo livro). Já aqui comentámos a diferença entre a obra e o autor, defendendo que não podemos confundir as duas coisas e que os leitores não deveriam ser privados da biografia de Roth (os portugueses não o serão) por factos que dizem respeito à vida do seu autor. Mas, segundo um artigo do Público não assinado, concluo que a razão para a retenção dos exemplares nos armazéns da editora não foi, afinal, como aqui pensámos, moral, nem um gesto de solidariedade para com as supostas vítimas de Blake Bailey. A questão é, segundo uma especialista, puramente financeira: a editora não quer ter de pagar balúrdios por veicular uma obra que, de certa forma, possa ofender a moral puritana da América (sim, os ofendidos podem processar a editora por publicar um livro que relate os comportamentos «imorais» de Roth com base no argumento de que estes podem constituir maus exemplos para os mais jovens e levar à repetição de comportamentos). Ao que parece, os autores norte-americanos são hoje obrigados a assinar cláusulas de moralidade muito abrangentes nos contratos com as editoras que, segundo o PEN e outras organizações do mesmo tipo, lhes limitam enormemente a liberdade de expressão e implicam até a devolução dos adiantamentos se o escritor for acusado de algum comportamento indigno nas redes sociais, mesmo que por uma única pessoa, pois isso basta para o livro deixar de se vender e causar um enorme prejuízo à editora. Mesmo nos países moralistas, é sempre o dinheiro a mandar.

24
Mai21

Segredos de família

Maria do Rosário Pedreira

Quando há trinta anos escrevi um romance, estava a fazer o luto da minha avó e foi a forma que encontrei na altura de sarar a ferida. Sei que muito do que lá está aconteceu com a minha família e comigo e não pensei um instante que isso seria um problema (e não foi). A minha jovem autora holandesa Marieke Lucas Rijneveld, cujo O Desassossego da Noite publiquei recentemente, disse, porém, numa entrevista ao The Guardian que a família não tinha querido ler o seu romance e que ela entendia porquê. (O livro começa com a morte do irmão da narradora, e a verdade é que Marieke perdeu um irmão num acidente, pelo que a história pode ter ressonâncias familiares). O norueguês Knausgard, ao falar da mulher e de toda a família em A Minha Luta, perdeu o casamento e a amizade de muitos parentes próximos. Já o escritor Eduardo Halfon, que há muito recupera nos seus romances histórias de família, especialmente aquelas de que ninguém falava em casa, contou uma história bonita a este respeito. Quando acabou Luto, que trata da morte misteriosa de um tio seu quando era criança, recebeu a visita do pai. Este, ao saber que Eduardo dedicara um livro a um assunto «probido», ficou tremendamente desapontado e disse que ninguém devia tornar público o que era privado. Mas o filho convenceu-o de que não era de modo nenhum um devassa da cena familiar, deu ao pai a possibilidade de ler o rascunho e dizer o que não gostava e ele leu-o e adorou. (Com outros romances sobre outras histórias que a família mantinha em segredo, a coisa já não correu tão bem, e há tios que até hoje não lhe falam.) Há famílias que dariam tudo para aparecerem imortalizadas num romance, mas também há sempre quem se zangue e não queira ser personagem de livro...

21
Mai21

Erros de ortografia

Maria do Rosário Pedreira

Comentava há uns tempos com uma escritora portuguesa a quantidade de erros ortográficos que se vêem escarrapachados em todo o lado: no Facebook, nos blogues, nos rodapés dos noticiários da televisão, nos livros daquela editora a quem os autores pagam, até em alguns jornais (há uns anos, um artigo de um jornalista acima de qualquer suspeita tinha como destaque uma frase em que aparecia a palavra «enchame», que ferroada!). No melhor pano cai a nódoa, e é possível que eu própria, apesar de mil cuidados, já tenha cometido algum erro deste tipo. Devemos corrigir as pessoas que conhecemos (sempre em privado, claro!) e tentar que não repitam os erros. Mas que fazer se a própria universidade (em Inglaterra, pelo menos) está a aceitar, perdoar e desvalorizar os erros de ortografia dos estudantes numa tentativa de compensar os alunos que não puderam gozar de uma educação de excelência e frequentaram escolas sem condições? Percebo que tem mais hipóteses de não dar erros quem foi bem ensinado; mas não deveriam ser dadas condições a todas as escolas para ensinarem bem a língua em vez de borrifar para isso e depois desculpar com base no infortúnio? Ainda que as intenções sejam boas, um professor de Inglês que dá erros de ortografia devia ser professor, mesmo de uma escola com alunos difíceis? Um aluno que dá imensos erros na sua própria língua desde pequeno deveria passar de ano? Devemos deixar arrastar estas situações de desconhecimento da língua até à universidade e depois retirar-lhe importância e dizer que não podemos prejudicar mais os que já foram prejudicados pelo ensino anterior? Enfim, parece que tudo redunda sempre no mesmo: a educação. E tem de haver coragem para nivelar por cima, escrutinar e gastar dinheiro a sério com ela. Mais nela do que nos bancos.

20
Mai21

O que não muda

Maria do Rosário Pedreira

Sabemos pelas notícias de há uma semana para cá que existe uma coisa que não muda: a intolerância religiosa. O conflito israelo-palestiniano, que esteve meio adormecido por uns tempos, está agora ao rubro. Judeus e muçulmanos não se entendem e, no passado, foram os cristãos que expulsaram e perseguiram os judeus. É disso que fala o livro que hoje vos trago, Um Coração Convertido, de Stefan Hertmans (o autor flamengo do maravilhoso Guerra e Terebintina), a história de uma rapariga cristã de famílias nobres que, no século XI, se apaixona (e é correspondida) por um jovem judeu de uma escola rabínica. É por ele, de resto, que foge, muda de nome para Hamoutal e se converte ao judaísmo, embora nunca aprenda exactamente os ritos e orações da nova religião. Mas acaba por casar-se com o seu amado judeu, ter filhos e andar de terra em terra com cartas de recomendação de rabinos para rabinos, pois o pai cristão nunca deixa de oferecer uma recompensa a quem lhe traga a filha de volta num tempo em que os cruzados atravessam a França rumo ao Norte de África. Hamoutal perderá, de resto, o marido num massacre de judeus (e é este o mote que leva Hertmans a escrever esta história)  e também o rasto dos três filhos, que nunca desistirá de procurar, viajando completamente sozinha até ao Egipto, uma proeza quase impossível para uma mulher do seu tempo. A par desta aventura louca, conta-se também a busca do autor pelos documentos que provam como tudo aconteceu.

 

um_coracao_convertido_20.png

 

19
Mai21

Prémio Europeu

Maria do Rosário Pedreira

Existe um Prémio da União Europeia para a Literatura (EUPL) que, no passado, já foi ganho em Portugal por Dulce Maria Cardoso, Afonso Cruz e David Machado, entre outros. Não contempla todos os anos os mesmos países (alguns dos quais não pertencem sequer à União Europeia, como a Albânia ou a Arménia), mas 2021 era ano de premiar de novo um escritor de Portugal. Cada país concorrente tem o seu próprio júri, que também muda de vez para vez; escolhe entre os candidatos, geralmente poucos, que têm de obedecer a regras apertadas, como, por exemplo, ter entre dois e quatro livros (nem mais, nem menos) e estar pouco traduzidos no espaço europeu. No ano em que ganhou David Machado (2015, creio), o júri nacional comunicava a sua decisão à Europa e a Europa comunicava-a ao vencedor, chamava-o a Bruxelas, gravava um vídeo com ele a apresentar o livro, traduzia excertos do seu romance para o promover noutros países, enfim, um trabalho que era bastante produtivo e que acabou por conseguir uma dúzia de traduções do romance. Mas depois do diabo da pandemia as coisas já não se passaram assim: introduziram finalistas (quatro), quiçá para criar suspense e notícias, e organizaram o anúncio... pelo Facebook, que é onde hoje as pessoas mais tempo estão. Entre os quatro finalistas portugueses, estavam dois romances que publiquei no ano passado, um romance de uma autora de quem já fui editora e um romance de um escritor que tem o meu apelido, mas não me é nada: Frederico Pedreira. Foi ele o vencedor com o romance A Lição do Sonâmbulo, publicado pela Companhia das Ilhas. Conheço-o sobretudo como poeta. Parabéns.

18
Mai21

Soeiro Pereira Gomes

Maria do Rosário Pedreira

Nos tempos em que fui professora de Português, encontrava-se entre as leituras obrigatórias para os alunos, creio, do 9.º ano a obra Os Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes. O romance marcaria várias gerações de leitores (até porque os seus heróis eram também miúdos, os «filhos dos homens que nunca foram meninos») e a primeira edição, com capa de Álvaro Cunhal,  acaba de comemorar oitenta anos. A Quetzal teve, pois, a belíssima ideia de republicar agora este romance neo-realista numa edição muito bonita, para nos trazer de volta (ou apresentar) as personagens Gaitinhas, Guedelhas, Maquineta ou Gineto e mostrar a solidariedade e a coragem por eles vivida nesses anos escuros e tão tremendamente pobres que antecederam o 25 de Abril. A efeméride foi também assinalada pela publicação de uma biografia do escritor, da autoria de Giovanni Ricciardi (Soeiro Pereira Gomes: Uma Biografia Literária) recentemente dada à estampa pela editora Página a Página e apresentada no Museu do Neo-Realismo, em cuja sessão esteve presente o filho de Alves Redol, outro dos expoentes da literatura neo-realista portuguesa. Às vezes, é bom que estes livros retirados das listas de leituras curriculares sejam devolvidos aos leitores para que os mais novos os possam ler e não ignorem aquilo por que passaram os seus avós nem esqueçam que a liberdade de que hoje gozam era então praticamente inexistente.

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