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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

14
Jun21

Ausência

Maria do Rosário Pedreira

Desculpem, queria ter deixado posts prontos para os três dias que vou estar na Galiza a dizer poemas, mas não consegui. Imprevistos e mais imprevistos roubaram-me o tempo todo e agora só posso voltar aqui na quinta. Entretanto, leiam por favor o novo romance de Mário Cláudio, Embora Eu Seja Um Velho Errante. É o livro que sela a relação do escritor com o poeta Tiago Veiga de quem, no passado, editou alguns livros de poesia e sobre o qual teceu uma longuíssima biografia que o arrancou do esquecimento. Muitos desconfiam de que Tiago Veiga é uma invenção, mais um heterónimo do autor. Mas como explicar que os dois apareçam juntos numa fotografia de um velho jornal pouco antes da morte do biografado? O presente livro, dividido em três partes, toma como ponto de partida documentos encontrados depois já de publicada a biografia, um dos quais é um diário da segunda mulher de Tiago Veiga, a pintora irlandesa Ellen Rasmunssen, que, indo fotografar os tuberculosos num sanatório, acabou por contrair a doença e apagar-se no Caramulo. Uma obra, como sempre, a não perder!

11
Jun21

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

Se antes eu era um pessimista, depois de comprar a bengala passei a ser um cínico. Um homem novo com uma bengala podia dar-se ao luxo de desprezar o mundo e, assim sendo, eu tencionava aproveitar a oportunidade para ajustar contas com a realidade. Havia alguma coisa naquele objecto – e na dor constante que sentia na perna, e na firme crença de que, dentro de mim, algo apodrecia – que transformava todo o cepticismo da minha juventude no mais puro fel. Não conseguia andar sem coxear e, no entanto, todos me observavam com o mesmo olhar incrédulo do médico, como se eu fosse maluco e imitasse um inválido por puro prazer. O médico tivera razão numa coisa: um homem de trinta e tal anos com uma bengala não lembra ao diabo; era preciso mais atrevimento para que o diabo se lembrasse de nós.

João Tordo, O Bom Inverno, Publicações Dom Quixote, 2010

09
Jun21

Medo do escuro?

Maria do Rosário Pedreira

É verdade que a escuridão pode ser um bicho de sete cabeças e que a noite é uma inimiga da calma e da ponderação, sobretudo se estivermos num ambiente desconhecido. O que frequentemente ganha proporções disparatadas num quarto escuro de uma casa isolada (um estalo de um móvel, um ladrar de um cão, um zumbido de um mosquito...) de manhã já não tem qualquer significado e até nos faz rir. Mas não ver (é isso o problema do escuro) assusta desde a mais tenra idade. E é sobre isto que fala o mais recente livro infantil de David Machado, Viagem ao Centro do Escuro, que conta com ilustrações (escuras, claro!) da talentosa Madalena Moniz. Esta viagem ao longo de uma noite é a de dois irmãos, ele dois anos mais velho do que ela (7 e 5 anos) e cheio de vontade de a proteger dos perigos, mas, curiosamente, um bocado mais medroso do que a irmãzinha (embora não o possa confessar, bem entendido, e tenha de se fazer de forte). E a história é tão boa que todos os adultos deveriam lê-la (e não só os que têm filhos com medo de apagar a luz à noite, entenda-se), porque a ideia é belíssima e, além disso, a aventura fala dos terrores nocturnos  e dos pesadelos com todas as letras, sem pedagogia barata, e de uma forma com que até eu, que já tenho idade para não temer o escuro, me identifiquei. Bravo: um grande livro para todas as idades. Sigam o monstro e dormirão que nem uns anjinhos!

 

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08
Jun21

Cá e lá

Maria do Rosário Pedreira

Apesar de falarmos em ambos os lados do oceano Atlântico a mesma língua (o português), nem sempre é fácil a literatura brasileira vingar em Portugal e a portuguesa no Brasil. Falo, claro, da literatura que se está a fazer hoje, porque, apesar de tudo, Machado de Assis, Jorge Amado e Guimarães Rosa (bem como os poetas Drummond de Andrade, Manuel Bandeira ou João Cabral) são lidos e apreciados pela minoria leitora portuguesa; e acredito que o nosso Eça de Queiroz, Lobo Antunes e Saramago o sejam no Brasil (pela minoria de lá). Mas existe agora um clube de leitura mensal para cobrir algumas destas lacunas, organizado simultaneamente pelos jornais Público (cá) e Folha de S. Paulo (lá) que cruza conversas e nos faz descobrir livros (ora portugueses, ora brasileiros) publicados dos dois lados do mar. É um clube orientado pelas jornalistas Úrsula Passos (da Folha) e Isabel Coutinho (do Público) e esta noite, pelas 22h00, terá como tema o romance Pão de Açúcar, de Afonso Reis Cabral, vencedor do Prémio Literário José Saramago em 2018 e publicado no Brasil pela HarperCollins. A sessão pode ser acompanhada por Zoom (as especificações vão numa das imagens abaixo) e o público pode intervir. Um evento ao vivo para abraçar a literatura dos países irmãos.

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07
Jun21

Cruzamentos

Maria do Rosário Pedreira

Uma vez, quando andava na faculdade, pediram-nos que fizéssemos um trabalho para a cadeira de Estudos Literários que se debruçasse sobre um método de análise de texto (psicanalítico, formalista, o que fosse...). Eu resolvi falar de uma análise mais criativa, aquela que gera um novo texto literário ou objecto de arte por alusão, por glosa, por referência. Dei-me até ao trabalho de rescrever um soneto da Florbela e fotografar a partir de Cesariny... O professor achou original mas depois disse que não era bem o que se pretendia (deve ter achado que inventar era mais preguiçoso do que estudar a fundo, e tinha alguma razão). De qualquer modo, isso nunca me afastou de apreciar a criação de arte a partir de arte, e já aqui falei de um projecto de cinco fotógrafas que se dedicaram a uns versos meus recentemente para criarem objectos artísticos muitíssimo interessantes. E agora é a vez de uma artista plástica, Sílvia Mota Lopes, pintar a partir de poemas de vários autores e construir uma exposição que se insere nas comemorações dos 25 anos da Biblioteca Municipal Professor Machado Vilela e dos 150 anos do nascimento do seu patrono. A exposição está patente nesta biblioteca do município de Vila Verde e o catálogo é muito bonito, pois inclui sempre o par poema-pintura além de alguns dados sobre os autores. Aproveitem para lá ir. Parabéns, Sílvia Mota Lopes!

02
Jun21

Irmãos de sangue

Maria do Rosário Pedreira

Gosto muito de um programa da TSF da jornalista Teresa Dias Mendes chamado Uma Questão de ADN. Trata-se de uma conversa com duas ou mais pessoas da mesma família. Lembro-me de muitas das emissões que ouvi ao fim da tarde, quando ia de carro para casa e o programa era a essa hora, entre elas, por exemplo, uma conversa muito boa entre três primos direitos (a cantora Capicua, o ministro João Pedro Matos Fernandes e o actor Pepê Rapazote). Sempre pensei que, se um dia me convidassem, queria ir com o meu irmão Jorge, e foi isso que aconteceu ontem, em que fomos gravar o programa (que passará na próxima quarta às 13h). Este meu irmão é o mais próximo, cerca de um ano e meio mais velho, e logicamente é aquele ao lado de quem vivi a infância e a adolescência (temos amigos comuns), aquele com quem estudei à noite quando andava na faculdade (andávamos na mesma instituição, embora em cursos diferentes), uma das pessoas que mais coisas me ensinaram e uma das pessoas de quem mais gosto. Ele também escreve poesia mas acabou por nunca publicar. Falámos disso no programa. Se ele se tivesse estreado antes de mim, ter-me-ia eu atrevido a dar o passo?... E a crítica, se ambos tivéssemos publicado, conseguiria resistir a não nos comparar? Ao pensar nisto, faço-me várias perguntas: Que terá sentido Gonçalo M. Tavares quando José Gardezabal começou a escrever e publicar livros que (ouvi dizer, não li) são parecidos com os seus? As irmãs Brontë teriam ciúmes umas das outras? E Gerard e Lawrence Durrell? Mais do que os irmãos Grimm, imagino... Mário de Carvalho e as duas filhas (Ana Margarida de Carvalho e Rita Taborda Duarte) serão um trio pacífico? Alguém se lembra de mais irmãos escritores?

P. S. Na sexta não há post, vou aproveitar o feriado para tirar uns dias e acabar um texto. Até para a semana.

01
Jun21

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Pedi este livro por correio a uma livraria independente quando ainda estava a trabalhar em casa. Tinha lido uma excelente crítica, já tinha visto outros elogios a esta autora mexicana que vive nos EUA e escreve em inglês, estava, em suma, curiosa. Porque houve muita gente a ler a mesma crítica, o stock esgotou e, por isso, a tal livraria avisou-me que Deserto Sonoro, de Valeria Luiselli, levaria tempo a chegar (e essa é, no fundo, a razão por que só o comecei muito depois de o comprar). Estou a lê-lo muito dividida: percebo-lhe uma bem-vinda originalidade na mecânica e gosto da tensão. É também sobre um tema importante: a separação das crianças dos pais quando os migrantes mexicanos entram ilegalmente na América. Sim o romance fala de um casal que trabalha com sons, que grava maneiras de falar, ruídos do ambiente, cantos de pássaro, palavras, dialectos, gritos... com vista a documentar trabalhos de investigação. Conheceram-se enquanto captadores de sons numa tarefa que lhes correu bem e acabaram por apaixonar-se e ir viver juntos: ela é mexicana, ele norte-americano; ele tem um filho de dez anos, ela uma filha de cinco. São os quatro uma família porque não existe outra mãe nem outro pai por perto. Mas eis que um dia ela se interessa por umas crianças mexicanas perdidas que atravessaram a fronteira para ir ter com a mãe e nunca mais se soube delas; e, ao mesmo tempo, ele se interessa por documentar as vozes emudecidas dos índios apaches, os sons de Geronimo, Cochise e outros índios mortos... É o trabalho dele que vence. Têm então de atravessar a América de carro com as crianças, e essa viagem vai sem querer distanciando o casal e tornando claro qual é o objectivo de vida de cada um. Ainda me falta bastante para terminar este Deserto Sonoro, mas, confesso, está a custar-me avançar. É muito provavelmente uma questão de gosto pessoal, uma vez que há mesmo muito pouco tempo este Lost Children Archive (o título original) ganhou o Dublin Literary Award e já tinha sido nomeado para uma data de prémios. Leiam-no se o apanharem e depois dêem-me a vossa opinião.

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