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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

16
Jul21

Paraísos

Maria do Rosário Pedreira

Hoje vou levar finalmente a segunda dose da vacina (levei a Astrazeneca, daí que, mesmo com a antecipação de quatro semanas, tive de esperar até hoje); e, porque da outra vez fiquei completamente KO durante mais ou menos um dia e meio, deixo-vos um post leve e bonito do qual não espero comentários que exijam uma resposta da minha parte. Ora, se foi Jorge Luis Borges quem disse que o lugar mais próximo do Paraíso só podia ser uma biblioteca, pois muitos arquitectos por esse mundo deram-lhe seguramente ouvidos, tratando de fazer das bibliotecas locais realmente belos, confortáveis, incríveis. O jornal The Guardian mostra-nos então cinco obras-primas culturais entre todas as guardadoras de livros. Ficam na Austrália, na Bélgica, na Noruega, na Holanda e na China. São as finalistas do prémio anual atribuído a uma biblioteca pública, que tem em conta não apenas o funcionalidade do projecto arquitectónico, mas também o catálogo, a ligação à comunidade e, claro, a tecnologia da informação disponível. Veja estas beldades no link abaixo. Eu cá não queria estar no lugar do júri, mas talvez a biblioteca australiana seja a minha preferida. Até segunda!

https://www.theguardian.com/books/gallery/2021/jul/07/a-cultural-masterpiece-the-worlds-best-new-public-libraries-in-pictures?CMP=Share_iOSApp_Other&fbclid=IwAR3bJptTeUID3UyAxCnAGQHZI2dxr9H5Ie18mbRBqgUWQu0sa20Hn6hki6s

 

15
Jul21

Tarrafal

Maria do Rosário Pedreira

Leio algures que existe um memorando de entendimento entre Portugal e Cabo Verde para propor o campo de concentração do Tarrafal, a que alguém chamou «o campo da morte lenta», a Património da UNESCO. Não só é uma forma de fazer com que não se esqueça, e assim não se repita, o horror, mas também um modo de convocar visitantes para o arquipélago sem ser apenas pelo clima e a paisagem. Conheço o Tarrafal, com as suas montanhas altas que parecem ter rostos desenhados na pedra, e com as suas praias de água transparente e coqueiros. Quando ali estive, da primeira vez que fui em trabalho à cidade da Praia (depois disso já fui mais três) levaram-me também a ver o Campo de Prisioneiros e, apesar de então estar bastante destruído e abandonado, deu para perceber as provações por que passaram os presos políticos que ali foram encerrados. Publiquei dois romances que evocam o Tarrafal: Que Importa a Fúria do Mar, de Ana Margarida de Carvalho, e O Diabo Foi Meu Padeiro, de Mário Lúcio Sousa. O primeiro insere na ficção um velho sobrevivente português, o outro faz-se homenagem a todos os que, na realidade, estiveram presos no campo em épocas distintas: portugueses, angolanos, guineenses e cabo-verdianos. Ambos os livros devem ser lidos para que não esqueçamos, enquanto o Tarrafal não se torna Património da Humanidade por direito próprio.

14
Jul21

Revelações

Maria do Rosário Pedreira

Há cerca de dez anos, o escritor Mário Cláudio, que completou pouco antes da pandemia 50 anos de actividade literária, publicaria a exaustiva biografia de um bisneto de Camilo Castelo Branco, Tiago Veiga, poeta que a maioria dos portugueses desconhecia até então, embora o mesmo Mário Cláudio já tivesse ajudado a dar à estampa dois ou três pequenos poemários da sua autoria. Tiago Veiga, apesar de ter privado com confrades e gente ilustre de vários países, ser letrado e cosmopolita, escolheu viver retirado no Alto Minho e no anonimato, razão pela qual, quando Mário Cláudio publicou a biografia, muita gente pensou tratar-se de um heterónimo ou de mera invenção... Mas, descontando os milagres do Photoshop, um dos cadernos de imagens inserido no volume Tiago Veiga: Uma Biografia inclui uma foto do poeta com Mário Cláudio tirada, creio eu, nos anos setenta, quando se conheceram. Pois bem, depois de publicada a biografia, apareceram novos elementos sobre Veiga, entre eles um interessantíssimo diário da segunda mulher, uma pintora irlandesa, e o escritor Mário Cláudio teve de se despedir da figura com mais um pequeno volume dividido em três partes, intitulado Embora Eu Seja Um Velho Errante. É sobre essa nova obra que o autor conversará logo à tarde com o jornalista Valdemar Cruz numa sessão virtual que será transmitida na página de Facebook da Dom Quixote às 18h30. Faça-nos companhia e ficará a saber certamente uns quantos segredos.

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13
Jul21

Viajar e ficar

Maria do Rosário Pedreira

Agora, que em Portugal se vacina a população a uma velocidade estonteante (devemos ser dos mais rápidos da Europa, tentando compensar a irresponsabilidade das pessoas), faço fé em que as férias de Verão, mesmo com umas pequenas multidões a banhos, sejam mais tranquilas e menos contagiosas. Por enquanto, porém, estamos mais ou menos proibidos de viajar, e quando digo isto refiro-me ao facto de termos de fazer um teste com resultado negativo para podermos entrar num hotel ou num restaurante se a localidade for de risco elevado. Mesmo assim, se tivermos de ficar «em terra», há sempre a consolação da leitura, e podemos até ler sobre viagens, de preferência um especialista como Paul Theroux, do qual acaba de sair na Quetzal um conjunto de ensaios que dá pelo nome de Figuras numa Paisagem, no qual, sempre com os lugares como centro, o grande viajante revela enigmas pessoais e literários e facetas desconhecidas encontradas na obra de várias personalidades, desde Henry David Thoreau a Graham Greene, passando por Georges Simenon ou Joseph Conrad. Neste livro, desenham-se ainda perfis, sempre ligados à ideia de viagem, como o de Elizabeth Taylor durante uma viagem de avião ou o de Robin Williams numa visita à cidade da maçã. Parafraseando o Museu da Farmácia, a quem roubei a imagem abaixo, a melhor cura é a cultura.

Medicina.png

 

12
Jul21

Um mapa literário

Maria do Rosário Pedreira

Os mais velhos entre os leitores deste blogue lembrar-se-ão talvez de Bernard Pivot, um intelectual francês que ficou conhecido sobretudo pelo seu programa de televisão chamado Bouillon de Culture. O talento e a cultura abrangente de Pivot tornaram o seu programa um dos mais vistos e duradouros de sempre e até houve um episódio dedicado especialmente à literatura portuguesa que foi filmado no Palácio Fronteira, em Lisboa. Mais tarde, Pivot publicou um livro no qual destaca, com gradações de cinzento, os 100, 50 e 10 livros essenciais para ficar a conhecer a literatura de determinado país (são  muitos os países, mas já não me lembro quantos; e não sei onde o arrumei, senão dir-vos-ia que livros portugueses escolheu, mas recordo-me de que o último mencionado era O Memorial do Convento). Ora, um pouco na mesma senda, Backforward 24, pseudónimo de um leitor experimentado que, pelos vistos, publicou um livro com a lista dos romances que crê serem representativos de cada país (um apenas por país), criou agora um mapa literário, pondo imagens dos títulos e capas desses romances nos espaços ocupados pelos países. Claro que um só romance em cada país é manifestamente insuficiente e redutor, mas diz quem sabe que o autor do mapa não incluiu apenas clássicos, mas também obras contemporâneas. Eu adoraria saber que livro escolheu para Portugal, mas estou farta de olhar para o mapa e não consegui descortinar. Pode ser que alguém lá chegue antes de mim. Mas desde já acho tremendamente discutível que os Estados Unidos estejam representados por Não Matem a Cotovia, ainda que concorde com a escolha de Ulisses para a Irlanda. Aí está o link, se quiserem ver. Calculo que a tradução do texto tenha sido automática pois em vez de «Ernesto Sabato», aparece «Ernesto de sábado». Dêem o devido desconto.

https://www.pensarcontemporaneo.com/o-mapa-literario-do-mundo-os-romances-mais-representativos-de-cada-pais/?fbclid=IwAR2H1PIB2YRmJsaRIN6f2GNXYbLUmUd-OKjKewhMMvyKaHBPaqx-xnOXmtA

 

P. S. Afinal, descobri o pedacinho da Europa e o nosso livro é Memorial do Convento.

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09
Jul21

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

Portanto, o mestre disse: «Se dos troncos

    colheres um raminho a qualquer planta,

    os pensamentos teus se farão broncos.»

Então, junto a um silvado, se adianta

    a colher um raminho este meu punho;

    e o seu tronco gritou: «Quem me quebranta?»

E feito em sangue escuro testemunho,

    recomeçou: «Assim me dilaceras?

    Piedade a teu espírito não dá cunho?

Homens fomos e eis-nos silvas meras:

    bem deverias ter a mão mais pia,

    se em nós almas de serpes supuseras.»

E como em tição verde em que arderia

    uma das pontas, já a outra geme

    e range pelo vento que assobia,

assim juntos o lenho roto espreme

    sangue e palavra; e o ramo então de cima

    deixo cair, e quedo tal quem teme.

 

Dante Alighieri, A Divina Comédia, «Inferno», Canto XIII (versos 28 a 45),

tradução de Vasco Graça Moura, Quetzal Editores

08
Jul21

Doações

Maria do Rosário Pedreira

Muitas vezes falamos aqui no blogue (e uso o plural não de forma majestática mas porque muitos dos que aqui vêm também comentam) sobre o que vai acontecer às nossas bibliotecas no futuro, quando morrermos, sobretudo nos casos em que a geração seguinte não é leitora e não aprecia sequer o livro como objecto. Eu, que nem filhos pari, tenho a suspeita de que, se não oferecer os meus livros ainda em vida a quem goste de ler em papel, eles serão provavelmente vendidos a peso ou entregues para reciclagem por quem cá fique. Um escritor que conheço fez há pouco tempo uma coisa bonita: começou a esvaziar as suas prateleiras e a dá-las aos jovens investigadores que estudam a sua obra nas universidades e não teriam de outro modo possibilidade de adquirir todos esses volumes. Outros autores vendem-nos por junto a um alfarrabista e deixam o que a venda rende na conta bancária, assumindo que aos herdeiros faz mais falta o dinheiro do que a «papelada». António Lobo Antunes, que tem três filhas, decidiu recentemente doar o seu espólio à Câmara de Lisboa, que o instalará em Benfica numa nova biblioteca com o nome do escritor. Além de cerca de 20 000 livros, muitos deles dedicados por confrades portugueses e estrangeiros, e das primeiras edições da sua própria obra, haverá medalhas, certificados de prémios e manuscritos, bem como, por certo, estudos de outros autores sobre a obra lobo-antuniana. A partir de 2022 já poderá ser visitada a nova biblioteca. Em casa de Lobo Antunes, ficarão muitas paredes vazias...

07
Jul21

Kafka e a boneca viajante

Maria do Rosário Pedreira

Leio que Dora Diamant (ou Dwojra Diamen), que foi amante de Franz Kafka, contou uma história do escritor, passada um ano antes da sua morte, que terá inspirado o livro infantil chamado Kafka e a Boneca Viajante, de Jordi Sierra. Mas a história é bonita (e, mesmo que não seja verdadeira, vale a pena contar). Ao que parece, num parque onde costumava passear diariamente, Kafka encontrou uma criança lavada em lágrimas por ter perdido a sua boneca; e, como ficou realmente impressionado com tão fundo desgosto, ofereceu-se para a ajudar a procurar a dita boneca no parque, mas nem ele nem ninguém a encontraram. Então, teve uma ideia: ausentou-se numa pretensa nova busca e escreveu uma carta que depois entregou à menina como sendo da sua boneca, na qual esta pedia à «dona» que não se preocupasse com ela, pois tinha ido de viagem, estava bem, e depois escreveria de novo a contar as suas aventuras. A  criança parou de chorar, ficou mais consolada e, ao que parece, voltou a encontrar-se com o escritor checo, que acabou por oferecer-lhe uma outra boneca mais tarde (diferente da perdida, claro) com um bilhete que dizia: «As minhas viagens mudaram-me.» Verdade ou lenda, não importa muito; o que interessa é que originou um livro  que dá a conhecer Kafka aos mais novos. Mas saberão eles o que é uma carta em tempo de SMS e e-mails?

06
Jul21

Censura

Maria do Rosário Pedreira

Aqui há tempos, escrevi neste mesmo blogue um post sobre o problema da opressão sobre os intelectuais anti-regime em Hong Kong e a circunstância de alguns jornalistas e escritores estarem desaparecidos, suspeitando-se de que o Governo os teria mandado «sequestrar» para os afastar da intervenção política. Aconteceu a alguns, de facto, que depois foram obrigados a dizer para a televisão que estavam bem e que tinham preferido retirar-se... Por muito que a China tenha mudado, a verdade é que não deixou de ser um regime ditatorial e, portanto, não seria de esperar que se deixasse criticar continuamente pelos meios de comunicação de Macau e Hong Kong. E, assim, depois de «raptos» e avisos, fez tudo para que que se fechassem as portas, ao fim de vinte e seis anos de actividade, de um dos últimos jornais que ainda levantava a voz contra o Governo, detendo colunistas e membros da sua direcção e congelando as respectivas contas bancárias. Com o aviso aos leitores de que a última edição sairia no dia 24 de Junho e se publicaria um caderno sobre as ditas detenções, os leitores foram em massa comprá-la em papel e a tiragem subiu dos 80.000 na véspera para os 500.000 exemplares. Quem apanhou um exemplar terá em casa uma preciosidade, pois não só o Apple Daily deixou de imprimir-se como deixou de estar sequer acessível online. A China não brinca, mesmo nos territórios de Macau e Hong Kong...

05
Jul21

O senhor Pires

Maria do Rosário Pedreira

Quando conheci pessoalmente o senhor Pires (leia-se: José Cardoso Pires), ele já tinha infelizmente sofrido um AVC e, portanto, já não teria a energia de que todos os que lhe foram próximos fazem alarde (escreveu, de resto, um livro intitulado De Profundis sobre o buraco negro que viveu na sequência do derrame e que li oportunamente). Na Feira de Frankfurt de 1997, quando Portugal era país convidado, tentou subir na escada rolante que era de descer e deu cabo de um pé, mas já ninguém se lembra se tinha bebido um whisky a mais ou estava apenas distraído. Em novo, era dado ao soco e não se coibia de pregar uns murros num crítico que desdenhasse dos seus romances. Escreveu uma obra-prima chamada O Delfim, que recebi de presente de anos quando atingi a maioridade e foi adaptada ao cinema por Fernando Lopes, bem como muitos outros livros importantes (eu comecei por Dinossauro Excelentíssimo). Diz quem privou com ele que era uma personagem fascinante, e quem queira saber porquê tem agora ao dispor uma biografia exaustiva pela pena de um dos mais elogiados escritores contemporâneos, Bruno Vieira Amaral (Prémio Literário José Saramago com o romance As Pequenas Coisas). Chama-se Integrado Marginal (um grande título) e está a fazer furor. O senhor Pires devia gostar de a ler.

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