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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

29
Out21

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

Três minutos mais tarde, os convidados agrupam-se no salão e na sala de estar e os doces são servidos. O pastor Pringsheim, do alto da sua golilha engomada, envergando uma sotaina comprida de onde espreitam as botas largas e engraxadas, está sentado entre os convivas, beberricando as natas frias que coroam o chocolate quente e conversando, com o rosto transfigurado, de uma maneira muito natural e espontânea, o que, ao contrário do seu discurso clerical, surte um efeito notável nos seus interlocutores. Cada um dos seus gestos parece querer dizer: Vejam, também eu posso esquecer o sacerdote que há em mim e ser um homem mundano, alegre e inofensivo!

 

Os Buddenbrook, de Thomas Mann, numa tradução de Gilda Lopes Encarnação

28
Out21

Fim de mês

Maria do Rosário Pedreira

Depois de tanto tempo sem eventos presenciais e desejosos de pôr o pé na rua, largar os ecrãs falantes dos computadores e ver a carinha das pessoas ao vivo, as actividades multiplicaram-se desde final de Agosto; e, digo-o por experiência própria, nem houve tempo para tanta coisa. Mas, mesmo com Outubro a fechar portas, eis que o jornalista João Morales anuncia Braço das Artes, na Fábrica de Braço de Prata, em Lisboa, para acabar o mês em beleza. As actividades, entre dia 29 e dia 31, dividem-se entre a literatura e a música, mas, além da presença de escritores (Luísa Costa Gomes, que completa 40 anos de carreira literária, Paulo Moura, Ana Cássia Rebelo e muitos outros), haverá espaço para os livreiros falarem da sua rotina e também da sua vertente como editores (a Snob ou a Tigre de Papel, por exemplo) e para ouvirmos opiniões sobre o mundo dos livros pela voz de quem pensa essas e muitas outras coisas (Nuno Nabais, Luís Osório...). Os concertos vão trazer-nos artistas como Júlio Resende e Marco Oliveira e haverá ainda um recital de poesia. Vai ser bom poder dar o braço às artes neste fim-de-semana.

27
Out21

Viajar com os livros

Maria do Rosário Pedreira

Alguns visitantes e aficionados deste blogue lembram-se seguramente de eu aqui ter falado de um livro da jornalista Isabel Lucas intitulado Viagem ao Sonho Americano, que reunia as suas reportagens sobre literatura norte-americana depois de visitar a um enorme número de Estados de norte a sul e de leste a oeste. A sua leitura é uma forma excelente de conhecer a América pelos livros; e de tal modo agradou aos leitores que a jornalista recebeu um convite para repetir a experiência com a literatura brasileira. Temos aí, portanto, ao nosso dispor Viagem ao País do Futuro (este «país do futuro» foi o nome que Stefan Zweig deu ao Brasil, onde se exilou e, paradoxalmente, acabaria por se suicidar) para ler e chorar por mais. Mas este país do futuro é mesmo um país do futuro? Não será antes um país onde muitas regiões ainda têm imensa gente a viver no passado (remeto-vos, por exemplo, para Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, livro incluído nesta viagem de Isabel Lucas)? Diverso, desigual, cheio de uma beleza que não acaba mas também de tantas contradições, o Brasil mostra-se aqui em todo o seu esplendor literário; Clarice Lispector, Érico Veríssimo, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa, Jorge Amado, o grande Machado de Assis, Mário de Andrade, Milton Hatoum, Raduan Nassar, são alguns dos autores que fazem o mosaico brasileiro que Isabel Lucas agora nos oferece. O lançamento é mais logo, com apresentação de Abel Barros Baptista na Livraria Palavra de Viajante, em Lisboa. Não faltem.

26
Out21

Eça viajante

Maria do Rosário Pedreira

Quando pensamos em Eça de Queiroz, pensamos imediatamente na sua veia de romancista, no seu humor, na sua crítica social, no seu apurado sentido de observação. Não nos vem imediatamente à cabeça o Eça que viveu noutros países, foi diplomata e olhou para Portugal lá de fora, embora, claro, conheçamos essas circunstâncias. Vale, porém, a pena olhar para um Eça diferente: o que viaja e escreve sobre o que vê. Entre os seus escritos, há muitas impressões de viagem (já aqui partilhei algumas sobre os horrores que achou de Havana), mas nos próprios romances, como A Cidade e as Serras ou A Relíquia, há dezenas de passagens que se referem a locais de viagem, como tão bem recordamos o 202 dos Champs Elysées em Paris. O livro muito recentemente publicado na colecção Terra Incógnita, da Quetzal, intitulado Outras Paragens, é uma antologia de textos publicados na imprensa pelo escritor maior das nossas letras e também de excertos retirados da sua obra romanesca. Deixo-vos, a finalizar o meu post, para fazer água na boca, uma citação que alegra a newsletter que anuncia este livro:

«Antigamente contava-se a viagem quando se tinha viajado.
Hoje empreende-se a viagem unicamente para se escrever o livro.»
Eça de Queirós, Cartas de Inglaterra

Outras Paragens.jpg

 

25
Out21

Humanidade

Maria do Rosário Pedreira

Às vezes, fico deprimida com a forma como o mundo está a funcionar. Um dia destes fiquei parada numa rua à espera de que um automóvel, três lugares à frente do meu, descarregasse uma série de coisas (a segunda faixa foi substituída por uma ciclovia e todos tivemos de esperar pacientmente) e, enquanto ali estive, só vi pessoas a olharem para os telemóveis encostadas a prédios ou na paragem do autocarro. Estamos a criar seres mecânicos... Para recuperarmos a humanidade, leiamos então o magnífico e comovente e belíssimo Notas sobre Um Naufrágio, de Davide Enia, um livro que parte da experiência pessoal do autor na ilha de Lampedusa – aquela que antes da separação das placas tectónicas pertencia ao continente africano (é por isso que ainda é mais significativa a tentativa de chegar à ilha por tantos africanos) e que se tornou local de desembarques sucessivos – e ouçamos o escritor italiano, também actor e dramaturgo, conversar hoje à tarde com o encenador e grande leitor que é Jorge Silva Melo. Depois da mesa-redonda em Óbidos, moderada por Cândida Pinto, está na hora de ouvir falar o belo italiano (com tradução consecutiva) nesta sessão apoiada pelo Instituto Italiano de Cultura em Lisboa. Apareçam!

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22
Out21

Autor do mês

Maria do Rosário Pedreira

A Livraria Lello, no Porto, tem, entre outras iniciativas, a de «Autor do Mês». O escritor eleito tem, no seu mês, direito a um grande destaque da sua obra literária nas mesas e estantes, mas também pequenos objectos (entre eles, habitualmente, alguns manuscritos) expostos ao longo do espaço da livraria e, mais importante ainda!, um encontro presencial em que conversa sobre a sua vida e a sua escrita (presumo que nos tempos da pandemia terá sido impossível realizá-lo, mas graças a Deus as iniciativas deste tipo, mesmo que com a obrigação de inscrição prévia, estão de volta). O autor deste mês na Livraria Lello é o multifacetado Afonso Cruz, que estará logo às 21h00 a conversar com o jornalista Sérgio Almeida, também ele autor. Afonso Cruz é, para além de músico, cineasta, ilustrador e produtor de cerveja, aquele escritor que se pode dizer ter caído logo no início da carreira no goto do público e, como tal, ser um autor de sucesso; é também bastante versátil no que à literatura diz respeito, pois, entre os seus mais de trinta livros, podemos encontrar romances, contos, literatura infanto-juvenil, ensaios, poesia, teatro e até umas enciclopédias belíssimas que não sei como classificar. Ganhou vários prémios nacionais e internacionais e  tem certamente muito para contar às gentes do Porto que possam ir ouvi-lo mais logo.

21
Out21

De pequenino

Maria do Rosário Pedreira

Falei aqui há tempos no blogue de uma iniciativa do Museu de Lamego e da Rede de Bibliotecas da mesma cidade que me pareceu muitíssimo meritória: a de envolver a população escolar na criação de textos literários, fosse em verso ou em prosa, a partir do património artístico da cidade. Numa primeira edição, os alunos tinham visitado o museu para escrever exclusivamente sobre peças do seu acervo. Mas agora o projecto das Estórias (Im)prováveis foi um pouco mais longe na desejável combinação de Escrita e Arte e passou a incluir os monumentos de Lamego, estendendo o património potencialmente inspirador e, com isso, aumentando também o número de concorrentes e a variedade dos textos a concurso. Estas histórias e poemas, que celebram a aproximação dos mais novos ao objecto artístico e as sensibilizam para o património da sua região, estão agora disponíveis para download gratuito no link abaixo. Que haja mais ideias destas pelo País fora é o que desejo!

https://bit.ly/Publicacao_EstoriasImprovaveis2020-2021

20
Out21

As crónicas

Maria do Rosário Pedreira

Na capa, a rapariga bonita com um bebé loirinho ao colo chama logo por nós. Trata-se, de facto, uma fotografia belíssima dos anos 1940 de uma mãe com o seu primeiro filho, uma criança que ainda não sabia que viria a tornar-se um grande escritor. Falo de António Lobo Antunes, já de olhos notoriamente azuis, mesmo que a fotografia seja a preto e branco, e de um livro recentemente dado à estampa que não devemos evitar. Chama-se simplesmente As Crónicas e é uma colecção das melhores crónicas de Lobo Antunes organizada pela sua editora, Maria da Piedade Ferreira, que reuniu textos publicados na imprensa e ainda nove crónicas inéditas. O trabalho de Lobo Antunes cronista, ainda que durante muito tempo ele o tenha diminuído (chamando-lhe «prositas» e «coisinhas»), é genial e marcante, além de chegar a muitíssimo mais gente do que os seus romances que, como cita a crítica literária Teresa Carvalho no i, serão a sua «catedral de palavras». No entanto, às igrejinhas e capelas não se pode deixar de ir (é mesmo preciso fazer a peregrinação!) até porque, apesar de falarem fundamentalmente da vida do autor, remetem para hábitos e idiossincrasias de um país que é o de todos nós e para a nossa memória colectiva, tenhamos a idade que tivermos. Impossível não nos identificarmos e empatizarmos com estes textos. Obrigada ao escritor e à editora por este volume, prefaciado pelo nosso Presidente da República.

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19
Out21

RG ou GR (Georges Remi)?

Maria do Rosário Pedreira

Hoje venho sugerir uma exposição que está patente até ao dia 10 de Janeiro na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Chama-se HERGÉ e leva o nome do autor de Banda Desenhada que inventou uma das personagens mais fantásticas de sempre: Tintim – o jovem repórter sem idade, de calças à golfe, cabelo louro com remoinho e cão sempre atrás, que fez as delícias de uma multidão de portugueses dos 7 aos 77 anos e com cujas aventuras eu aprendi as minhas primeiras palavras em francês nos álbuns de capa dura que pertenciam ao meu irmão mais velho. Mas a exposição mostra-nos também o Hergé que existiu antes e depois de Tintim: o pintor talentoso, o coleccionador de arte contemporânea, o designer e publicitário – enfim, as variadíssimas facetas que o tornaram um dos mais importantes artistas do século XX. A exposição, que é itinerante e tem origem num museu em Louvain-la-Neuve, na Bélgica, onde nasceu Georges Remi, que é o verdadeiro nome de Hergé (serão as iniciais ao contrário?), contou em Portugal com uma adaptação de Ana Vasconcelos. Tem ainda a vantagem de ser um programa ideal para adultos e crianças!

P. S. Sobre Tintim e pais que põem os filhos a ler, vale muito a pena ler a crónica de Miguel Esteves Cardoso do jornal Público de dia 13 deste mês.

18
Out21

Memórias

Maria do Rosário Pedreira

É natural que, ao chegar a determinada idade, quem tenha tido uma vida cheia e conhecido muita gente interessante tenha vontade de escrever as suas memórias. Vários editores estrangeiros já o fizeram, sobretudo aqueles que viveram a edição em tempos mais íntimos e afáveis e sofreram o embate da concentração, dos grandes grupos, do primado dos marketeers, da iliteracia dos leitores que só compram lixo... Um dos mais conceituados editores brasileiros que conheço, embora não pessoalmente, fê-lo também. Trata-se de Luiz Schwarcz, o homem que fundou a grande editora Companhia das Letras, hoje pertença da Penguin Random House, na qual publica, por exemplo, João Tordo no Brasil. A editora sempre foi estupenda e certamente Schwarcz muito teria a contar sobre ela; mas, curiosamente, O Ar Que Me Falta (que tem por subtítulo História de Uma Curta Infância e de Uma Longa Depressão) não parece falar exclusivamente da sua vida nos livros, referindo-se antes à sua história familiar que é, creio, desconhecida de todos, e à sua luta contra a depressão. Espero que os livros o tenham salvo. O lançamento é hoje às 18h30,  na Fundação Saramago, e traduz-se numa conversa entre Schwarcz e a jornalista Isabel Lucas.

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