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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

22
Out21

Autor do mês

Maria do Rosário Pedreira

A Livraria Lello, no Porto, tem, entre outras iniciativas, a de «Autor do Mês». O escritor eleito tem, no seu mês, direito a um grande destaque da sua obra literária nas mesas e estantes, mas também pequenos objectos (entre eles, habitualmente, alguns manuscritos) expostos ao longo do espaço da livraria e, mais importante ainda!, um encontro presencial em que conversa sobre a sua vida e a sua escrita (presumo que nos tempos da pandemia terá sido impossível realizá-lo, mas graças a Deus as iniciativas deste tipo, mesmo que com a obrigação de inscrição prévia, estão de volta). O autor deste mês na Livraria Lello é o multifacetado Afonso Cruz, que estará logo às 21h00 a conversar com o jornalista Sérgio Almeida, também ele autor. Afonso Cruz é, para além de músico, cineasta, ilustrador e produtor de cerveja, aquele escritor que se pode dizer ter caído logo no início da carreira no goto do público e, como tal, ser um autor de sucesso; é também bastante versátil no que à literatura diz respeito, pois, entre os seus mais de trinta livros, podemos encontrar romances, contos, literatura infanto-juvenil, ensaios, poesia, teatro e até umas enciclopédias belíssimas que não sei como classificar. Ganhou vários prémios nacionais e internacionais e  tem certamente muito para contar às gentes do Porto que possam ir ouvi-lo mais logo.

21
Out21

De pequenino

Maria do Rosário Pedreira

Falei aqui há tempos no blogue de uma iniciativa do Museu de Lamego e da Rede de Bibliotecas da mesma cidade que me pareceu muitíssimo meritória: a de envolver a população escolar na criação de textos literários, fosse em verso ou em prosa, a partir do património artístico da cidade. Numa primeira edição, os alunos tinham visitado o museu para escrever exclusivamente sobre peças do seu acervo. Mas agora o projecto das Estórias (Im)prováveis foi um pouco mais longe na desejável combinação de Escrita e Arte e passou a incluir os monumentos de Lamego, estendendo o património potencialmente inspirador e, com isso, aumentando também o número de concorrentes e a variedade dos textos a concurso. Estas histórias e poemas, que celebram a aproximação dos mais novos ao objecto artístico e as sensibilizam para o património da sua região, estão agora disponíveis para download gratuito no link abaixo. Que haja mais ideias destas pelo País fora é o que desejo!

https://bit.ly/Publicacao_EstoriasImprovaveis2020-2021

20
Out21

As crónicas

Maria do Rosário Pedreira

Na capa, a rapariga bonita com um bebé loirinho ao colo chama logo por nós. Trata-se, de facto, uma fotografia belíssima dos anos 1940 de uma mãe com o seu primeiro filho, uma criança que ainda não sabia que viria a tornar-se um grande escritor. Falo de António Lobo Antunes, já de olhos notoriamente azuis, mesmo que a fotografia seja a preto e branco, e de um livro recentemente dado à estampa que não devemos evitar. Chama-se simplesmente As Crónicas e é uma colecção das melhores crónicas de Lobo Antunes organizada pela sua editora, Maria da Piedade Ferreira, que reuniu textos publicados na imprensa e ainda nove crónicas inéditas. O trabalho de Lobo Antunes cronista, ainda que durante muito tempo ele o tenha diminuído (chamando-lhe «prositas» e «coisinhas»), é genial e marcante, além de chegar a muitíssimo mais gente do que os seus romances que, como cita a crítica literária Teresa Carvalho no i, serão a sua «catedral de palavras». No entanto, às igrejinhas e capelas não se pode deixar de ir (é mesmo preciso fazer a peregrinação!) até porque, apesar de falarem fundamentalmente da vida do autor, remetem para hábitos e idiossincrasias de um país que é o de todos nós e para a nossa memória colectiva, tenhamos a idade que tivermos. Impossível não nos identificarmos e empatizarmos com estes textos. Obrigada ao escritor e à editora por este volume, prefaciado pelo nosso Presidente da República.

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19
Out21

RG ou GR (Georges Remi)?

Maria do Rosário Pedreira

Hoje venho sugerir uma exposição que está patente até ao dia 10 de Janeiro na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Chama-se HERGÉ e leva o nome do autor de Banda Desenhada que inventou uma das personagens mais fantásticas de sempre: Tintim – o jovem repórter sem idade, de calças à golfe, cabelo louro com remoinho e cão sempre atrás, que fez as delícias de uma multidão de portugueses dos 7 aos 77 anos e com cujas aventuras eu aprendi as minhas primeiras palavras em francês nos álbuns de capa dura que pertenciam ao meu irmão mais velho. Mas a exposição mostra-nos também o Hergé que existiu antes e depois de Tintim: o pintor talentoso, o coleccionador de arte contemporânea, o designer e publicitário – enfim, as variadíssimas facetas que o tornaram um dos mais importantes artistas do século XX. A exposição, que é itinerante e tem origem num museu em Louvain-la-Neuve, na Bélgica, onde nasceu Georges Remi, que é o verdadeiro nome de Hergé (serão as iniciais ao contrário?), contou em Portugal com uma adaptação de Ana Vasconcelos. Tem ainda a vantagem de ser um programa ideal para adultos e crianças!

P. S. Sobre Tintim e pais que põem os filhos a ler, vale muito a pena ler a crónica de Miguel Esteves Cardoso do jornal Público de dia 13 deste mês.

18
Out21

Memórias

Maria do Rosário Pedreira

É natural que, ao chegar a determinada idade, quem tenha tido uma vida cheia e conhecido muita gente interessante tenha vontade de escrever as suas memórias. Vários editores estrangeiros já o fizeram, sobretudo aqueles que viveram a edição em tempos mais íntimos e afáveis e sofreram o embate da concentração, dos grandes grupos, do primado dos marketeers, da iliteracia dos leitores que só compram lixo... Um dos mais conceituados editores brasileiros que conheço, embora não pessoalmente, fê-lo também. Trata-se de Luiz Schwarcz, o homem que fundou a grande editora Companhia das Letras, hoje pertença da Penguin Random House, na qual publica, por exemplo, João Tordo no Brasil. A editora sempre foi estupenda e certamente Schwarcz muito teria a contar sobre ela; mas, curiosamente, O Ar Que Me Falta (que tem por subtítulo História de Uma Curta Infância e de Uma Longa Depressão) não parece falar exclusivamente da sua vida nos livros, referindo-se antes à sua história familiar que é, creio, desconhecida de todos, e à sua luta contra a depressão. Espero que os livros o tenham salvo. O lançamento é hoje às 18h30,  na Fundação Saramago, e traduz-se numa conversa entre Schwarcz e a jornalista Isabel Lucas.

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15
Out21

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

«Uma vez em que o avô me mandou comprar um pacote de esparguete [à loja do senhor Júlio], foi a mulher dele quem apareceu. Não tinha acabado de mastigar e de vez em quando uma espinha aflorava-lhe aos lábios e voltava para dentro, como um priosioneiro a fazer o que podia para se ver em liberdade. Tinha os olhos muito abertos. Sem mais, avançou para mim.

– Diz ao teu avô que são horas de comer – vociferou.

E disse ainda, aos gritos, que era preciso parar com aquela palhaçada. Que era todos os dias a mesma coisa. Queria comer em paz. Não me voltava a abrir a porta nem que estivesse a noite inteira a bater.

Quando acabou, as espinhas não estavam lá: tinha-as mastigado no meio dos insultos.»

Hugo Mezena, Gente Séria, Planeta, 2018

14
Out21

Estranhos encontros

Maria do Rosário Pedreira

Lembro-me de há muitos anos, ainda eu estava na Temas e Debates, ter surgido um jovem romancista colombiano (nessa altura, ele morava em Barcelona) muito aplaudido na sua estreia. Tive mais tarde a oportunidade de o conhecer pessoalmente em Bogotá, já com sucesso firmado, pai de duas gémeas, com vários livros publicados e a conquistar um lugar maior na literatura colombiana. Chamava-se (chama-se) Juan Gabriel Vásquez e tornou-se um caso sério da literatura em castelhano, havendo até quem diga (talvez por ser ele também elegante e bonito) que vai ocupar o lugar de Vargas Llosa. Pois bem, Juan Gabriel Vásquez já esteve várias vezes em Portugal, numa delas para receber o Prémio das Correntes, noutra para uma conversa com o Primeiro-Ministro António Costa, que aprecia bastante a sua obra. Mas não é o único político a lê-lo, porque no próximo dia 19, às 18h30, o romancista volta a Portugal e, desta feita, vai «contracenar» na Casa da América Latina com... preparem-se... Paulo Portas. E eu que achava que os políticos tinham pouco tempo para ler... Curiosos? Pois inscrevam-se, que os lugares são contados. A sessão será moderada pela jornalista do Expresso, Luciana Leiderfarb.

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13
Out21

Óbidos

Maria do Rosário Pedreira

Óbidos é uma cidade literária por excelência, cheia de livrarias que tanto podem funcionar em igrejas como em mercearias, e tem todos os anos o seu festival FOLIO. Pois o deste ano começa já amanhã. Com a curadoria de Ana Sousa Dias e Pedro Sousa, é dedicado ao tema do Outro nas suas mais variadas acepções: o estranho, o estrangeiro, o louco, o migrante, o turista, o adversário... e eu sei lá que mais. Vai valer a pena porque vêm muitos autores estrangeiros para apresentar e discutir as mais variadas perspectivas do tema, como Itamar Vieira Junior, Leila Slimani, Juan Gabriel Vásquez, Ilya Leonard Pfeijffer, além de muitos escritores portugueses, como Isabel Lucas, José Luís Peixoto, Ana Bárbara Pedrosa e muitos outros. No dia 17 à noite, o músico e escritor caboverdiano Mário Lúcio Sousa dará um espectáculo com Teresa Salgueiro e, já no final do encontro, o italiano Davide Enia, de quem publiquei muito recentemente Notas sobre Um Naufrágio, vai estar numa mesa com o autor de Grand Hotel Europa para falarem de migrantes e viajantes sob a batuta da repórter Cândida Pinto. Mas há muito mais: sessões nas escolas, contadores de histórias, exposições, leituras de poesia e muito mais. De 14 a 24, um nunca acabar de boas razões para irmos a Óbidos. O programa no link abaixo:

http://foliofestival.com/download/FOLIO2021-programa.pdf

 

12
Out21

Olive veio para ficar

Maria do Rosário Pedreira

No Verão falei-vos do primeiro romance que li de Elizabeth Strout (O Meu Nome É Lucy Barton) e no Outono falo-vos de Olive Kitteridge, romance da mesma autora que, com ele, venceu muito justamente o prémio Pulitzer. O livro tem, antes de tudo, uma protagonista inesquecível: ao contrário da maioria das personagens femininas que hoje se passeiam pela ficção premiada, Olive é sincera, cáustica, incorrecta, bruta, enfim, autêntica e, como todas as pessoas reais, com várias atitudes infelizes ao longo da vida (de que nem por isso se arrepende muito). Já a puseram numa série que ganhou um Emmy, mas não sei dizer se é boa ou má nem se podemos vê-la em Portugal. Do livro, sim, posso dizer muita coisa: que é profundamente original, com uma estrutura montada a partir de histórias independentes nas quais Olive às vezes não se demora mais de uns segundos (muitas foram, aliás, publicadas autonomamente em revistas); que é incrivelmente humano numa época em que a literatura está cheia de exemplos de plástico onde só há vítimas ou pessoas politicamente correctas e bem-comportadas (aqui há sangue e carne, para o bem e para o mal); que é um retrato de uma certa América com muita gente ignorante que tem o crime à distância de um gesto ou de um pensamento (matar à facada, pôr fogo...), deprimidos, traumatizados, burros, e bons também (Henry, o marido de Olive, é tão bom que o adoramos logo nas primeiras páginas); que é uma leitura nada óbvia que nos enriquece e que puxa por nós, como já raramente encontramos quando lemos livros há cinquenta e tal anos. Uma boa notícia: Olive veio para ficar e existe um segundo livro recentemente publicado em Portugal chamado A Segunda Vida de Olive Kitteridge. Não vos posso contar como acaba a primeira, mas também não vou perder a nova. Façam o mesmo, vale muito a pena.

11
Out21

Do bom e do bonito

Maria do Rosário Pedreira

José Carlos Barros, de quem há uns anos publiquei o romance Um Amigo para o Inverno, finalista do Prémio LeYa (leiam-no, por favor!), é quanto a mim um dos mais interessantes poetas da actualidade. Não só os seus livros de poesia são bons, como são cada vez melhores. E têm uma coisa que eu adoro em livros de poesia: não são meras colecções de poemas, são projectos unos, com uma ideia agregadora. Estes de que hoje falo pertencem ao livro Penélope Escreve a Ulisses e congregam uma série de textos dactilografados numa velhinha máquina de escrever. O editor, Guilherme Pires, da Caixa Alta, fez do conjunto um livro quase demasiado belo para ser verdade (talvez até pela sua sensibilidade às velhas máquinas de escrever, que colecciona e repara): um objecto bonito que merece o que tem dentro, ou vice versa. Sei que aqui no blogue está tudo mais virado para a prosa, mas por favor não percam esta pérola, juntem-na ao vosso colar de leituras e, garanto, ficarão mais ricos. Um pequeno exemplo (infelizmente aqui não posso respeitar o tipo de letra de máquina porque as definições do blogue não o permitem), mas há tantos poemas tão simplesmente lindos neste livro que podia ser qualquer outro:

 

Manhã

 

A manhã chegava

com os cabelos ainda

desatados

 

que sabíamos nós do mundo

senão fazer-lhe

uma trança?

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