Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

14
Fev22

Novos romances

Maria do Rosário Pedreira

Amanhã sairá para os escaparates o novo romance de Isabel Rio Novo, Madalena, que é o primeiro livro que lanço este ano. O romance recebeu o Prémio Literário João Gaspar Simões, concedido pela Câmara Municipal da Figueira da Foz, e é um texto notável sobre a doença e os seus efeitos no indivíduo, bem como sobre a família e  o que, em cada um de nós, é construído pelos que vieram antes. Enquanto se submete a tratamentos para um tumor, uma jovem professora ocupa os longos dias a examinar papéis, retratos e cartas dos bisavós, encontrados num velho armário de livros que outrora lhes pertenceu. É assim que vai desvelando a história dos dois, envolta em mistério, na qual a traição, o ciúme e a tragédia são os ingredientes principais. Álvaro Amândio, o bisavô culto e ensimesmado, mas sobretudo Madalena Brízida, a bisavó sedutora, enigmática e talvez cruel, vão ganhando contornos diante da jovem mulher, à medida que ela própria se vai descobrindo, nos seus amores do passado, nos seus sofrimentos recalcados, talvez até nas razões para ser como é. Assinado por uma das grandes vozes da ficção portuguesa contemporânea, aqui está então Madalena, para quem o queira descobrir.

Capa frente.jpg

 

11
Fev22

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

O meu irmão teria precisamente nove anos aquando da morte de Jorge VI (eu tinha seis e andava na mesma escola, mas não me lembro nada do discurso de Mr. Ebbets nem dos fumos pretos). O meu abandono final do que restava, ou da possibilidade, de uma religião aconteceu depois, com outra idade. Adolescente, curvado sobre um livro ou uma revista na casa de banho familiar, dizia de mim para mim que Deus não podia certamente existir, pois a ideia de Ele me observar enquanto eu me masturbava era absurda; ainda mais absurda era a noção de que todos os meus antepassados mortos também podiam estar na fila a ver. Eu tinha outros argumentos mais racionais, mas o que acabou com Ele foi esse sentimento poderosamente convincente e também egoísta, é claro. A ideia da avó e do avô a observarem o que eu fazia ter-me-ia desencorajado seriamente.

Julian Barnes, Nada a temer, tradução de Helena Cardoso

10
Fev22

Café Literário

Maria do Rosário Pedreira

Agora, que o vírus se vai acalmando ligeiramente, seja em número de casos, seja em intensidade, regressam algumas actividades presenciais que estiveram muito tempo interrompidas, ainda que, claro, com a obrigatoriedade de ter em dia o certificado de vacinação da COVID. Vejo com agrado que hoje, por exemplo, no Teatro do Campo Alegre, voltou o Café Literário no Foyer, o primeiro do ano de 2022, ao fim da tarde. E que belos participantes temos para falar da poesia! Dois divulgadores que não param há anos de nos mostrar o que se anda a escrever por esse País fora: Raquel Marinho, a responsável por «O Poema Ensina a Cair», com milhares de seguidores (tantos que até já lhe roubaram o domínio uma vez); e João Gesta, o programador das famosas Quintas de Leitura há mais de vinte anos. Pegando num verso de António Ramos Rosa, «Tudo dizer em evidências brancas», os dois vão falar dos seus respectivos destinos e motivações, da vida e do amor à poesia, ajudados por muitos cúmplices que a dizem como ninguém: António Domingos, Carlota Castro, Cristiana Sabino, Graça Ribeiro e outros. O público do Porto está cheio de sorte.

09
Fev22

Lídia Jorge nos EUA

Maria do Rosário Pedreira

Uma vez, há muitos anos, a educadíssima Lídia Jorge fez-me um telefonema só para perguntar se eu via inconveniente em que chamasse a um seu romance O Vento Assobiando nas Gruas, porque eu tinha publicado um livro de poesia intitulado O Canto do Vento nos Ciprestes e alguém teria encontrado ali alguma ressonância. Fiquei parvinha de todo, pois quem era eu ao pé da grande Lídia Jorge (e, além disso, não havia mesmo confusão possível entre as duas coisas)? Soube que o romance objecto da nossa conversa acaba de sair nos Estados Unidos, não só em versão em papel, mas também em audiolivro, com a voz da actriz Cassandra Campbell. E fico feliz, porque é sempre tão difícil a literatura portuguesa chegar a países de língua inglesa que é especialmente gratificante que isso aconteça justamente com Lídia Jorge, não apenas pela qualidade do romance propriamente dito (que ganhou, entre outros, o Grande Prémio de Romance e Novela da APE), mas porque a escritora é das poucas que em Portugal levantam a voz contra a falta de políticas culturais e os tempos difíceis que vivemos em todo o mundo em termos de liberdade de expressão, além de, evidentemente, ser uma pessoa que pensa no Outro e é extremamente educada. Parabéns!

08
Fev22

Más contas ou mau português

Maria do Rosário Pedreira

A escritora Margaret Atwood, a quem perguntaram se era feminista, respondeu que sim, que se não fosse ela a defender os próprios direitos, quem o faria? Concordo completamente com esta visão, a de as mulheres quererem ter os mesmíssimos direitos dos homens, mas infelizmente há um radicalismo impossível de aturar nos tempos que correm (do tipo: bom ou mau, homem é para liquidar). Um dia destes, um jornal trazia uma notícia sobre os números do ano passado da violência doméstica e aparecia em título: «A violência doméstica fez em 2021 23 mortes: 16 mulheres e duas crianças.» Ora, como até sei fazer contas, aqueles dois pontos irritaram-me, porque 16 + 2 não é igual a 23. Os que faltam são, obviamente, homens; e, só por serem homens, não estão no título. Presumo (mas, reparem, a notícia nunca o diz) que estes homens não mencionados sejam, na sua maioria, os perpetradores que matam as mulheres e depois se suicidam. Mesmo assim, não deixam de ser mortes, pois não? Ou se diz que a violência doméstica fez 18 vítimas (e até podemos aceitar a exclusão dos homens autores dos crimes e vítimas de si próprios), ou se fala em mortes e tem de se incluir os mortos todos, independentemente do sexo. Ou então, tiram-se os dois pontos, põe-se ponto final e escreve-se uma segunda frase a dizer «Destas [mortes], 16 são de mulheres e duas de crianças.» Até pode ter havido alguma mulher que matou o respectivo companheiro, nunca se sabe, mas eu tenho a secreta suspeita de que esta desvalorização imediata do masculino é deliberada e pertence ao ar do tempo. Ora, isso não serve a ninguém.

07
Fev22

Lugar para Dois (ou mais)

Maria do Rosário Pedreira

Publiquei no Verão de 2020 um romance que tinha sido finalista do Prémio LeYa no ano anterior, chamado Lugar para Dois e assinado pelo escritor e músico Miguel Jesus (também conhecido por Miguel Gizzas). Era um texto muito bonito sobre um homem que se exila no meio do mato, em Moçambique, nos anos sessenta, na sequência de uma tragédia familiar; e que acaba por se tornar uma espécie de pai (que não quer ser) de uma menina que um dia desaparece e de um rapaz que viu o que se passou. Este romance tinha, nas suas páginas, uma espécie de bónus: uma canção por cada capítulo, escrita e composta pelo autor, que podia ser ouvida no telemóvel através da leitura de um código inscrito na página onde estava escrita a letra. Era suposto haver, porém, ainda mais bónus: a história ser tornada um cine-concerto; mas a pandemia trocou as voltas a Miguel e ficou tudo adiado... Saiu o CD com todas as canções, mas só amanhã, passado mais de um ano, vamos finalmente ter direito a ouvir as canções pela boca do escritor e ver o pequeno filme no cinema São Jorge, em Lisboa, numa ante-estreia dos espectáculos já agendados por esse país fora. Miguel Jesus vai também estar no dia 10 a falar deste seu livro na Biblioteca da Figueira da Foz, depois do jantar, na minha companhia. Apareçam, leiam, oiçam.

cartaz_10FEV.png

 

04
Fev22

Boas notícias

Maria do Rosário Pedreira

Quando Itamar Vieira Junior recebeu o Prémio LeYa pelo romance Torto Arado, nenhum de nós suspeitava de que isso viraria a sua vida para sempre. Enquanto o livro vendia timidamente em Portugal, como acontece geralmente com a literatura brasileira, arrebatava no Brasil os principais prémios literários, Jabuti e Oceanos, era elogiado pela crítica e, mais do que isso, aparecia nas mãos de cantores famosos ou mesmo nas sugestões de políticos como Lula da Silva. Por aí chegou mais longe, e os editores de outros países começaram a pedir o livro e a querer comprar os direitos, estando Torto Arado vendido neste momento  em dezasseis línguas, incluindo o chinês, o inglês e o catalão. Depois, vieram os pedidos de adaptação cinematográfica e teatral, não apenas para o Brasil, mas para espectáculos na Europa, como o que em breve estreará pela mão de Christiane Jatahy, que na segunda-feira passada ganhou o Leão de Ouro na Bienal de Veneza pelo seu trabalho no teatro, que alia o político ao poético. Foi uma felicidade saber que esta carioca que é uma «observadora impiedosa da crueldade do mundo» tem nas suas mãos um livro como Torto Arado. E ainda há-de vir aí o filme ou a série, esperemos para ver, que fará chegar o romance ainda a mais público. Caramba, nunca o júri do Prémio LeYa, ao votar em 2018, tinha ideia desta fantástica bola de neve.

03
Fev22

Liberdade de expressão

Maria do Rosário Pedreira

Há uns dias, o Facebook enchia-se de partilhas de um vídeo com a canção de Chico Buarque Com Açúcar, com Afecto, cantada por Nara Leão, Maria Bethânia e tantas outras grandes vozes do Brasil, quando não pelo próprio Chico, claro, a solo ou em dueto. Foi, aliás, esta enorme figura a responsável pela partilha em massa da canção ao declarar que não voltaria a cantá-la (e provocando o efeito contrário). E porquê? Porque os grupos radicais feministas, sobretudo um deles, chamado WOKE, acham que se trata de uma canção que apela ao machismo e à submissão das mulheres e não pára de se manifestar publicamente contra o cantor, que certamente perdeu a paciência e prefere poupar-se a isso. Não sabem, porém, esses grupos  que foi a própria Nara Leão quem pediu a Chico aquela canção do doce predilecto que aguarda o marido infiel em casa, e não sabem também que escamotear é a melhor maneira de fazer com que o erro perdure. Paradoxalmente, querem liberdade e esquecem-se da liberdade de expressão... Sobre este assunto, aliás, saiu um muitíssimo interessante pequeno ensaio, Todos os Lugares São de Fala, de Paulo Nogueira, que é um manifesto pela liberdade de expressão num tempo em que as redes sociais estão cheias de polícias, em que começámos a censurar os nossos textos quase sem dar por isso, em que umas luminárias quaisquer decidiram que um escritor heterossexual não pode escrever um romance com um protagonista gay e uma poestisa branca não pode traduzir os textos de uma negra. Leiam-no e dêem-no a ler. E ponham a tocar a canção de Chico Buarque, não podemos deixar que nos calem, ainda por cima, sem açúcar e sem afecto.

02
Fev22

Saber e ignorância

Maria do Rosário Pedreira

Lembro-me de na juventude ter vergonha do que não sabia e de, com a idade, ter a sensação de que, quanto mais lia e consultava, mais noção tinha do que me faltava saber. Porém, de há uns anos para cá desvalorizou-se o conhecimento, e há até quem se orgulhe arrogantemente de ser ignorante. Já aqui contei, creio, que Richard Zimler disse uma vez num festival literário que, na maioria dos Estados dos Estados Unidos (desculpem a frase coxa), «intelectual» é um insulto. Bem, é claro que é cómodo para um preguiçoso contentinho com a sua vacuidade (estou a pensar em certos americanos que vemos em filmes) dizer que a cultura não serve para nada; mas também é um facto que muitos governantes em muitos países prefeririam decerto ter só ignorantes como «súbditos», pois desse modo ser-lhes-ia muito mais fácil dominar a população e fazer a seu gosto. Felizmente que a cultura e o saber ainda são valorizados em certos sítios, sobretudo naqueles que contribuem decisivamente para que o nosso conhecimento aumente, como por exemplo, as bibliotecas. Nelas,  o alimento deve ser intelectual e espiritual e a aquisição de conhecimentos claramente vista como algo que contribui para o crescimento individual. Daí que não resista a partilhar esta imagem que encontrei no Facebook (perdoem não traduzir). Uma pérola.

272676558_10224394278235972_302068960264018339_n.j

 

01
Fev22

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Já me tinham falado várias vezes de uma jovem escritora irlandesa, Sally Rooney, creio que sobretudo a propósito de um romance chamado Gente Normal, a partir do qual fizeram uma série televisiva de grande sucesso que, por acaso, até vi e achei interessante, na medida em que de uma história em que se passa muito pouca coisa se consegue criar uma cumplicidade electrizante com o espectador. Não querendo ir a esse livro enquanto não me esquecer do que vi (na minha idade, as coisas evaporam-se rapidamente e assim leio esse romance mais virginalmente), escolhi um outro da mesma autora chamado Conversas entre Amigos que, para ser completamente sincera, ao princípio me pareceu bastante banal, mas, lá está, ao fim de umas cinquenta páginas começou a densificar-se e, sobretudo nesta segunda parte que estou a terminar, a tornar-se muito mais aliciante (vem aí dor e mais dor, quase de certeza...). O título não engana e o romance trata das relações de um grupo de amigos (sobretudo duas raparigas na casa dos vinte, universitárias, e um casal um pouco mais velho e bem na vida) que parecem muito permissivos e abertos até ao dia em que uma paixão de uma das raparigas, a narradora, pelo marido da amiga mais velha vem chocalhar um pouco as ligações entre todos. É uma aprendizagem também sobre como as novas gerações olham para os relacionamentos amorosos e os casamentos, sobre a mentira, a traição, o amor, o ciúme e a inteligência como forma de atracção. Espreite-se, espreite-se.

Pág. 2/2

A autora

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2022
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2021
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2020
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2019
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2018
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2017
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2016
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2015
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2014
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2013
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2012
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2011
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2010
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D