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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

31
Mar22

Os anos maus

Maria do Rosário Pedreira

A pandemia causou demasiadas mortes, mas muitas delas também aconteceram por razões que nada tiveram que ver com o mortífero vírus; e desde 2020 que estamos a perder, na nossa cultura, uma série de vultos insubstituíveis, ainda por cima a uma velocidade estonteante. Este ano já ficámos sem Jorge Silva Melo e o poeta Gastão Cruz, por exemplo, e o ano de 2021 tinha acabado pessimamente, com as mortes de Leonor Xavier e do músico Pedro Gonçalves, dos Dead Combo, tão jovem ainda e com tanto para nos dar. Mas perdemos muito mais artistas e escritores de nomeada desde 2020, incluindo o nosso maior e mais amado filósofo, Eduardo Lourenço, a ficcionista Maria Velho da Costa (Prémio Camões), os poetas Fernando Echevarria (e o seu bigode), António Osório e Pedro Tamen (tão delicados que eram!), o músico José Mário Branco ou o fadista Carlos do Carmo (que perdas tão grandes, caramba!), o historiador de arte José-Augusto França ou a enorme actriz e declamadora Carmen Dolores, que conheci em criança, pois o marido era colega do meu pai e os dois casais chegaram a viajar juntos. Também ficámos sem a deliciosa Isabel da Nóbrega (a quem uma vez pus as pilhas no aparelho auditivo para ela não estragar as unhas, e que cheirava sempre maravilhosamente), o homem da dança Gil Mendo, o actor Rogério Samora e o editor, escritor e muito mais que era João Paulo Cotrim. Às vezes penso, parafraseando o comediante Jô Soares: «Que mais nos irá acontecer?» Cuidem-se muito, sim?

30
Mar22

Pessoa e as suas mil facetas

Maria do Rosário Pedreira

Ainda um dia alguém vai inventar uma máquina que permita que vejamos o que existe dentro da cabeça de uma pessoa. Digo isto a brincar, mas que seria interessante poder visitar o cérebro de uma figura como a de Fernando Pessoa é absolutamente inegável. Com toda a pinta de ser absolutamente inábil para as coisas mais banais do quotidiano, a sua criatividade fervilhante e a sua capacidade imaginativa deviam ocupar todos os cantinhos da sua massa cinzenta. E agora, para nos dar a conhecer uma sua faceta que a mim me diz muito (falo do seu trabalho como editor), a Casa Fernando Pessoa promove hoje, pelas 18h00, por Zoom, uma sessão com a duração de uma hora em que conheceremos os vários projectos em que o poeta esteve envolvido, como o da tipografia Íbis ou da editora Olisipo, e certamente descobriremos não só o que deu à estampa mas também os autores que tencionava publicar. Mande as suas perguntas, dúvidas e questões e receberá o link para assistir às respostas e explicações. Com Ricardo Belo de Morais e Cátia Figueira, conheça a pessoa inesgotável  que é o nosso Fernando. Também no Facebook da Casa Fernando Pessoa.

29
Mar22

O Campo das Pereiras

Maria do Rosário Pedreira

Nos arredores de Tbilisi, fica uma casa apalaçada onde funciona uma instituição que acolhe órfãos e crianças com deficiência mental. É conhecida por Escola dos Idiotas, ainda que a maioria dos que hoje ali vivem – como o pequeno Irakli – tenham sido simplesmente abandonados pelas mães por desespero. Porém, em lugar de serem acarinhadas e educadas, as crianças recebem dos professores sobretudo lições de negligência e abuso. Com dezoito anos feitos, Lela já tem idade para poder deixar o estabelecimento, mas está lá há tanto tempo que não se lembra sequer de ter tido família. E, não sabendo para onde ir, aceita um trabalho na instituição para poder planear à vontade a sua vingança suprema e, ao mesmo tempo, preparar a adopção de Irakli por um casal norte-americano. Onde as Peras Caem, da georgiana Nana Ekvtimishvili, romance nomeado para o Man Booker International Prize, é um retrato poderoso, mas sem sentimentalismos, de um grupo de jovens que se defendem mutuamente da crueldade do mundo dos adultos. Leiam-no à confiança, fica na memória de todos os leitores.

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28
Mar22

Oportunismos

Maria do Rosário Pedreira

De há uns doze anos a esta parte dedico-me quase exclusivamente à edição de literatura em língua portuguesa, a que acrescento, esporadicamente, livros estrangeiros de jovens autores promissores, especialmente de países com línguas menos procuradas pelos meus colegas (catalão, coreano, neerlandês, alemão...); mas quando comecei a carreira, e ao longo de quase de vinte anos, publiquei muitíssimos livros traduzidos, de ficção e não-ficção, de biografias a testemunhos, ensaios ou aquilo a que os ingleses chamam «não-ficção narrativa». Já há séculos, porém, que não era contactada por esses editores e agentes com quem trabalhei muito no passado. Mas eis que eles de repente aparecem a propor obras com um denominador comum: o facto de serem de autores ucranianos ou dizerem mal da Rússia e lhe apontarem os defeitos e os podres. E, reparem, nem tem nada que ver com a Rússia de Putin, muitas vezes são livros já esquecidos de dissidentes da União Soviética, que deviam estar parados nos catálogos; mas, em cenário de guerra, ressuscitam e são potenciais sucessos de vendas. Se alguma vez pensei que as terríveis circunstâncias que vivemos ainda se haveriam de tornar motivo para uns negócios em livros que pareciam obsoletos... Ele há coisas.

25
Mar22

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

[...] Pousou as mãos no corpo dela e procurou desajeitadamente os botões. Ela afastou-o, impassível; tinha os olhos fechados na penumbra e os lábios tensos. Virou-lhe as costas e, com um movimento rápido, desapertou o vestido, que lhe caiu, amarrotado, aos pés. Os braços e os ombros ficaram nus; ela estremeceu de frio e, numa voz inexpressiva, disse:

– Vai para a sala. Eu despacho-me num minuto.

Ele tocou-lhe nos braços e encostou-lhe os lábios ao ombro, mas ela não se virou.

Na sala, William observou as velas que tremeluziam sobre os restos do jantar, entre os quais se encontrava a garrafa de champanhe, ainda quase cheia. Serviu-se de uma taça e provou a bebida; estava quente e adocicada.

Quando voltou para o quarto, Edith estava na cama com as cobertas puxadas até ao queixo, o rosto virado para o tecto, os olhos fechados, uma ruga fina na testa. Silenciosamente, como se ela estivesse a dormir, Stoner despiu-se e enfiou-se na cama ao lado dela. Durante um tempo, ficou deitado com o seu desejo, que se tornara uma coisa impessoal, que lhe pertencia exclusivamente. Falou com Edith, como que para arranjar um porto de abrigo para o que sentia; ela não respondeu. Pousou a mão no corpo dela e, por baixo do tecido fino da camisa de noite, sentiu a carne por que tanto ansiara. Moveu a mão; ela não se mexeu e a sua ruga tornou-se mais funda. Ele falou novamente, dizendo o nome dela no silêncio. Depois, moveu o corpo para cima do dela, suavemente, apesar da falta de jeito. Quando lhe tocou na macieza das coxas, Edith virou a cabeça abruptamente para o lado e levantou o braço para cobrir os olhos, reduzida a uma mudez total.

Stoner, John Williams, tradução de Tânia Ganho

24
Mar22

Sim? Pois não?

Maria do Rosário Pedreira

Há muitos anos, quando eu ainda ia em Outubro à Feira do Livro de Frankfurt, irritava-me quando queria comprar certo livro para publicar em Portugal e me diziam que os direitos mundiais da língua portuguesa já estavam vendidos a uma editora brasileira. Todos sabemos que, embora o português seja a língua dos dois países, as variantes são distintas em léxico, sintaxe e ortografia, e que nenhum dos países está acostumado a ler traduções de livros estrangeiros feitas pelo outro. Eu, para exemplificar as diferenças em Frankfurt, até explicava que, enquanto atendemos frequentemente o telefone em Portugal com um "Sim?", no Brasil o faziam com um "Pois não?". A verdade é que, por termos assistido ao longo de décadas a telenovelas brasileiras, muitas expressões e palavras do país-irmão entraram na nossa linguagem quotidiana quase sem nos apercebermos; e há hoje de certeza mais gente a cumprimentar com um "Tudo bem?" do que com um "Como vai?" ou "Como está?", e menos ainda com um "Como passou?", típicos da geração dos meus pais. Mas quem sabe e conhece a problemática, e sobre ela escreve agora em livro, é o linguista Fernando Venâncio, que já nos tinha brindado com outra obra sobre as origens do português chamada Assim Nasceu Uma Língua, e agora nos brinda com O Português à descoberta do Brasileiro, obra que parte de uma série de artigos publicados no Jornal de Letras, mas não se esgota aí. Eu, que fico de cabelos em pé quando os meus autores escrevem expressões como "chamar de",  mas passei a infância a ler o Tio Patinhas em português do Brasil sem qualquer problema, estou mesmo muito interessada em ler este livro que, de certeza, me vai espicaçar... e ensinar muita coisa.

23
Mar22

A ama que ama demais

Maria do Rosário Pedreira

Quando leio determinado autor que não conheço, costumo começar pelo primeiro livro, sobretudo se se trata de obra premiada e aplaudida. Não foi, porém, isso que me aconteceu com Leila Slimani, escritora francófona nascida em Marrocos, vencedora do Goncourt com o seu romance de estreia. Iniciei-me com O País dos Outros, de que devo aqui ter falado na altura; e só agora li Canção Doce, vendido e traduzido já em muitos países, e  com várias edições em Portugal. A autora, linda, inteligente e cheia de energia, esteve no Festival Literário de Óbidos recentemente e gostei muito de a ouvir trocar conversa com Juan Gabriel Vásquez, outro excelente autor, mas colombiano. Canção Doce é um livro palpitante. É a  construção irrepreensível de uma personagem, Louise, uma ama que vai para casa de um jovem casal com dois filhos pequenos, um deles ainda bebé, quando Myriam, a mãe das crianças, se sente frustrada depois de tanto tempo em casa e quer voltar a trabalhar. Contudo, esta ama de ouro, que, além de tomar conta das crianças, limpa, cozinha, arruma, compra, ensina, vai de férias com a família..., torna-se tão obsessivamente dependente desse emprego que, quando Adam, o menino mais pequeno, começa a aproximar-se da idade de ir para a escola, entra em pânico ao pensar que a poderão dispensar, uma vez que não existe mais nada além do trabalho na sua vida. E então... Leiam o livro, brilhante, todo ele carne e osso, nervo e humanidade. A não perder.

22
Mar22

Cinquentenários...

Maria do Rosário Pedreira

É estranho pensar que alguém que ainda conserva um certo ar de garoto, e tem um riso malandro quando ouve uma piada, possa ter completado  cinquenta anos de carreira literária... Falo de Nuno Júdice, o poeta que é muito provavelmente o contemporâneo mais traduzido e com a obra mais extensa da poesia portuguesa; se não estou em erro, uns quarenta livros, começados com esse título que haveria de mudar para sempre a forma de fazer poesia em Portugal, A Noção de Poema, publicado ainda nos Cadernos de Poesia da Dom Quixote, em 1972, e seguido de Crítica Doméstica dos Paralelepípedos, de 1973, na mesma colecção. Pois bem, para comemorar a bela efeméride, até porque já houve prémios com fartura ao longo do percurso, entre eles o da Rainha Sofia, em Espanha, que não é para qualquer um, nada melhor do que mostrar aos leitores, sobretudo aos mais novos, uma síntese deste incrível projecto literário, na forma de uma antologia que abarca estes cinquenta anos de criação poética e, ainda por cima, é da responsabilidade do próprio autor. Aí está, por isso, 50 Anos de Poesia, uma selecção pessoal pensada e muito significativa, que servirá de puro deleite e, ao mesmo tempo, de excelente introdução para quem precisa de conhecer. Parabéns, Nuno Júdice!

 

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21
Mar22

Livros antigos

Maria do Rosário Pedreira

Conheço cada vez mais pessoas que gostam de frequentar alfarrabistas e comprar livros velhos e antigos: umas porque se dedicam a géneros específicos (como um dos meus colegas editores, Zeferino Coelho, que se interessa por tudo o que são textos biográficos); outros porque simplesmente procuram livros há muito esgotados e esperam encontrá-los ali a baixo preço; outros ainda porque adoram mergulhar no papel cansado e descobrir coisas de que nunca tinham ouvido falar (o Manel comprou-me recentemente um livro com textos de um meu antepassado que não conhecia.) Além da livraria de Miguel de Carvalho recentemente aberta na Figueira da Foz (conheci-a ainda em Coimbra, num espaço bem bonito, e estou ansiosa por visitar este), há mais dois espaços de venda de livros antigos mais ou menos recentes. Um em Lisboa, no piso inferior da Livraria Barata, da responsabilidade de Carlos Bobone (filho de peixe sabe nadar, o seu pai é igualmente alfarrabista); e, no Porto, um novo espaço na Livraria Lello que será inaugurado no final do mês, sala dedicada a livros raros, primeiras edições e obras de coleccionador. Será que as pessoas estão a ficar fartas dos livros do presente e procuram os que atravessaram o tempo ainda vivos e em bom estado? Ou haverá nisto também um lado de investimento num produto com valor real? Não sei, mas que é curioso é.

18
Mar22

O teatro

Maria do Rosário Pedreira

Na mesma semana em que perdemos um dos grande encenadores portugueses, venho falar-vos de novo de teatro. Não de um dramaturgo conhecido, mas de um conhecido escritor que, de ora em quando, se transforma em dramaturgo: José Luís Peixoto. Sim, os romancistas que vivem exclusivamente do que escrevem muitas vezes deixam os romances para se dedicar a crónicas, guiões e peças de teatro, e José Luís Peixoto reincide nesta última vertente com a peça estreada dia 16 no Teatro Meridional, que poderá ser vista ao longo de um mês (de quarta a sábado, às 20h00, ao domingo às 16h00). Chama-se Vida Inversa e tem como epígrafe a frase: «Porque conseguimos continuar e, enquanto continuamos, continuamos. Estamos vivos. Ou acreditamos que estamos vivos, o que é, talvez, a mesma coisa.» Embora não tenha ainda assistido (mas quero muito ir), sei que decorre num ambiente que é e não é absurdo e também que reúne uma série de persoagens que juntam as suas melhores ideias para um projecto para o município de Bucareste, na Roménia. Nesses encontros, porém, todos vão necessariamente expor-se, estabelecer relações de cumplicidade, falar dos seus desejos, dos seus sonhos e do que querem para o futuro. Mas se calhar, pela universalidade, poderia ser noutro lugar qualquer... Tudo afinal é tão perto de tudo. Vamos ver? Eu cá estou curiosa.

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