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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

17
Mar22

Das ausências

Maria do Rosário Pedreira

Em Outubro passado, por ocasião do festival literário de Óbidos, veio a Portugal Davide Enia, o autor do magnífico Notas sobre Um Naufrágio; ficou depois uns dias em Lisboa para entrevistas e uma apresentação do livro na Livraria da Travessa. Como uma das suas peças (Enia é também actor, encenador e dramaturgo) já tinha sido levada à cena pelos Artistas Unidos, pedimos encarecidamente a Jorge Silva Melo que fosse o apresentador. Não só aceitou, como nos brindou com uma apresentação belíssima, pedagógica, inteligente e sem um segundo de chatice, o que é mesmo muito raro nas apresentações de livros. Já há vinte anos ele tinha apresentado o romance de estreia de Filipa Melo que eu publicara de forma igualmente cativante. Nunca fomos íntimos, eu até fazia com ele bastante cerimónia (o respeitinho com quem o merece é muito bonito); mas fiquei triste, com essa tristeza que se sente por alguém próximo, quando na terça-feira pela manhã me meti no carro e levei a estalada da notícia da sua morte. Não o sabia sequer doente e ainda queria convidá-lo para apresentar muitos livros que viesse a publicar, pois era garantia de que correria bem. E agora já não posso. Encenador, realizador, fundador da Cornucópia e dos Artistas Unidos, homem culto e interventivo, sem papas na língua e excelente comunicador, Jorge Silva Melo vai deixar saudades. A sua falta será notada durante muito tempo.

16
Mar22

Temas controversos

Maria do Rosário Pedreira

Saiu ontem um romance intitulado Doce Introdução ao Caos que toca um tema raramente tratado na literatura: quando uma mulher engravida, o pai da «criança» pode decidir a favor ou contra a gravidez? Qual é o peso de cada membro do casal na decisão de ter o filho? Dani – guionista – e Marta – fotógrafa com ambições artísticas – vivem juntos há cerca de dois anos quando descobrem que ela está grávida. Dani, que é órfão de pai, terá de enfrentar a promessa que fez a si mesmo há muitos anos de nunca abandonar um filho. Marta, porém, não sente qualquer vontade de ser mãe e tem planos de ir trabalhar para Berlim e realizar o sonho de trabalhar numa galeria que faz exposições de fotografia. Que fazer então com a dor que nasce de um sentimento que não se sabia que existia? Serão os projetos profissionais tão válidos como o desejo de constituir família? As mulheres, porque são as que, na verdade, ficam grávidas nove meses, têm mais direitos do que os homens no que toca a uma gravidez? Explorando as emoções mais íntimas, Marta Orriols – autora do celebrado Aprender a Falar com as Plantas – convida-nos a analisar as contradições que se colocam diante da hipótese de ter um filho, propondo-nos que fujamos do pensamento simplista para observarmos os limites da vontade, do instinto e da liberdade. Esta é uma história com muitos matizes que confirma o grande talento narrativo da autora.

 

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15
Mar22

Santa ignorância

Maria do Rosário Pedreira

Desde que trabalho em edição e, sobretudo, desde que escrevi uma série de livros juvenis que, na altura, foi bastante popular e teve até adaptação televisiva, pedem-me frequentemente que vá a escolas ou publique textos em manuais escolares sobre o meu amor à literatura portuguesa e a minha paixão por certos autores que hoje, pelos vistos, são malqueridos pelos alunos. Falo, por exemplo, de Fernão Lopes ou Gil Vicente, que a miudagem acha muito difíceis, ou de Bocage, a que a juventude actual parece não achar graça. Muitos professores não sabem como motivar os estudantes para a beleza e a verve do texto de certos autores, e eu compreendo que seja difícil com tantas horas de jogos na Internet; mas de vez em quando também penso que a impossibilidade de transmitir a paixão por certos textos reside no facto de os próprios professores não gostarem deles ou, pior do que isso, não os conhecerem. Uma amiga francesa que ensinou durante muitos anos no Liceu Francês de Lisboa contou-me que, um dia, uma jovem professora de Português lhe perguntou se ela sabia a nacionalidade de Sophia de Mello Breyner Andresen, pois um dos alunos lhe tinha perguntado durante a aula e ela respondera que era inglesa, mas depois ficara a pensar se, afinal, não seria americana... Santa ignorância. E depois querem que os miúdos gostem de ler.

14
Mar22

Ler e compreender

Maria do Rosário Pedreira

Li com surpresa e contentamento (apesar de o pão actualmente não saber a nada...) que se consumiram menos 26,5 toneladas de sal e menos 6256 toneladas de açúcar nos últimos três anos em Portugal. Realmente, o facto de se terem retirado dos refeitórios escolares coisas que faziam muito mal e engordavam imenso foi uma excelente medida, sobretudo porque os jovens portugueses, com essa mania de viverem dentro de casa a jogar no computador, estavam a tornar-se perigosamente obesos... Mas, segundo leio noutro artigo, não pode ter sido apenas um conjunto de restrições o responsável pelo decréscimo do consumo de pizas ou leite achocolatado. O programa para a promoção e alimentação saudável está de facto a chegar finalmente às pessoas, e a literacia, como agora se diz, está a permitir que muitos dos que antes não pescavam nada do assunto agora consigam compreender o que lêem; e entendam que têm de olhar para os filhos logo desde pequenos e perceber que, se evitarem dar-lhes certo tipo de alimentos, prevenirão a sua obesidade futura. Reparem que até num caso que é tão prosaico (como este da comida) «ler» e «compreender o que se lê» é fundamental. O único problema é que quem titula o artigo diz «Se intervirmos» em vez de «Se interviermos» e então o melhor é que quem quer ser lido e compreendido aprenda a sua língua antes de se pôr a escrever para os outros... Por isso, fomentem a leitura desde cedo e, na mesmíssima medida, não dêem sal e açúcar em excesso à miudagem. Um livro, por muito açucarado ou salgado que seja, não é prejudicial. Um erro num título do jornal sim.

11
Mar22

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

De um autor recentemente agraciado com o Prémio da Fundação Inês de Castro pelo conjunto da obra, aqui vai:

Chegam e entram. É o momento em que a menina Cláudia pode finalmente olhar para Mariano, frente a frente. O homem. Tenta mirá‑lo de um modo disfarçado, com o vagar de quem espera encontrar nele algo de secreto que afinal não existe, a começar pelos olhos, os traços do rosto, os ombros fortes, as mãos grandes e campestres, apesar de bem tratadas. Olha‑o, estuda o que nele falta decifrar. A firmeza dos dedos e dos pulsos. As expressões do olhar, o movimento emotivo dos lábios. Não se parece nada com o que lhe disseram dele: é alto, aprumado, um bonito homem com mãos de milhafre e sobrancelhas encrespadas sobre uns olhos parados – amarelos e frios. Não esperava dar com a descrença passiva desses olhos. Nem com o silêncio nervoso dele. Nem com a serenidade aparente da sua timidez. Dados que escaparam à sua imaginação. E nem lhe passara pela cabeça que um homem com uma história assim fosse afinal um tímido e que tão mal disfarçasse a sua timidez.

Em sendo a sua vez de olhar, Mariano não o faz de frente, e sim de um modo vago que finge não ter o propósito de a observar. Olha apenas ao redor do rosto dela, dos seus extraordinários olhos verdes, corolas nítidas a sobressaírem do moreno da pele. A sua boca parece demasiado tensa nesse primeiro momento a sós com ela. Há um instante, fugaz, em que os olhos de ambos se cruzam, num puro acaso. Repelem‑se. Queima‑os o contraste entre o verde ofídico dos dela e o amarelo dos dele. A estranheza torna‑se pensativa no rosto dos dois.

João de Melo, Livro de Vozes e Sombras

10
Mar22

Ler os russos

Maria do Rosário Pedreira

Rebenta na Europa uma guerra que é insana e que a maioria dos europeus acha ignóbil. Claro que é! Todos devemos repudiá-la e evitar tudo o que beneficie o senhor Putin, pois crê-se que será pelo lado das sanções económicas que ele se verá obrigado a parar, quando os oligarcas russos começarem a sofrer e a pressioná-lo. Li, porém, no Facebook que alguém pediu que deixássemos de comer salada russa e, embora pareça brincadeira, parece que não era... Conta também o poeta e ex-ministro da Cultura Luís Filipe Castro Mendes que a irracionalidade brota em todo o lado e que "a Orquestra Filarmónica de Zagreb cancelou dois concertos de obras do russo Tchaikovsky, um compositor do século XIX, famoso por O Lago dos Cisnes ou O Quebra-Nozes." Mas está tudo doido?! Que seria deixarmos, por exemplo, de ler os russos, de prescindirmos do génio literário de Maiakovski, Turgueniev, Dostoiévski, Tolstoi, Soljenítsin, Gorki, e tantos outros? Voltando a citar Castro Mendes, "nenhuma vida se salvará assim na Ucrânia nem tal fará a paz regressar. Pensar que se pode cancelar a colossal cultura russa ao mesmo tempo que se apela aos russos para forçar Putin a mudar, ou a mudar-se, não faz sentido." Apoiado.Vá, leiam os russos, que só vos pode fazer bem. E leiam o senhor Vasily Grossman, que é ucraniano, se isso vos consola.

09
Mar22

De volta e para ficar

Maria do Rosário Pedreira

Parece que estamos finalmente a emergir dos casulos e a perder o medo. Dei tantos abraços quando estive nas Correntes d'Escritas que, se não for agora que apanho o bicho, acho que posso voltar sem mais receios à vida normal. E o que também volta à vida são as actividades culturais presenciais (peço perdão pela rima), nomeadamente no El Corte Inglés, como atesta o seu belíssimo Magazine nº 12, de Março/Abril, cheio de excelentes cursos e sessões para frequentar; entre eles, encontram-se, por exemplo, O Adeus à Arma, por Francisco José Viegas, uma viagem pelos grandes temas da literatura policial; uma Iniciação à Prática Teatral, por Paula Luiz (vá lá, aventurem-se!); e uma série de lições sobre História da Ciência pelo excelentíssimo professor Carlos Fiolhais. Mas o Magazine é ainda mais bonito porque homenageia de uma forma original (com pequenos textos, poemas e ilustrações) o recentemente desaparecido editor, autor e muito mais João Paulo Cotrim, a quem alguns dos que acima referi e muitos outros dedicam palavras belíssimas e mandam postais. Obrigada a todos eles por não deixarem que as pessoas caiam no esquecimento só porque já cá não estão. Vale a pena ir recolher este Magazine no sítio que se sabe, consultá-lo e fazer um destes magníficos cursos.

08
Mar22

O que dizem as estrelas

Maria do Rosário Pedreira

Hoje estará nos escaparates o belo volume de Trilogia das Constelações, que reúne os romances Ursamaior, Oríon e Gémeos, em que Mário Cláudio percorre de formas distintas as constelações da vida humana e descreve como diferentes personagens reagem às pressões do cosmos. Em Ursamaior, o narrador visita na cadeia o autor do homicídio de uma jovem estudante de Medicina no Porto, mas acaba por contactar com outros reclusos (violadores, traficantes, burlões…), apresentando-nos, sem paninhos quentes, o mundo violento que os muros da prisão encerram. Também baseado em factos reais, mas em pleno reinado de D. João II, o labiríntico Oríon toma a história de sete crianças judias separadas das respectivas famílias e degredadas em S. Tomé, como castigo por os seus pais terem tido a ousadia de desafiarem os mandamentos da fé cristã. Já Gémeos relata a história de um amor tenebroso entre um velho pintor (será Goya?) e a filha da sua amante, bem como das várias personagens que o acompanham no final da vida e que serão retratadas nas suas pinturas murais. Um trio de obras excepcionais, em que as existências cintilam, como estrelas, diante das fases obscuras por que passam. Como refere o crítico e académico Manuel Frias Martins, «só a melhor literatura consegue penetrar na realidade deste modo». Leiam, leiam.

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07
Mar22

Eça e a descendência

Maria do Rosário Pedreira

No mesmo dia em que Luísa Costa Gomes recebia o Prémio Literário Correntes d'Escritas pela sua colectânea de contos Afastar-se, recebi a notícia de que o meu autor Afonso Reis Cabral, autor dos romances O Meu Irmão (Prémio LeYa) e Pão de Açúcar (Prémio Literário José Saramago) fora eleito presidente da Fundação Eça de Queiroz pelos seus pares na administração, Ivone Abreu, José António Barros, José Luís Carneiro, Paula Carvalhal e Paulo Pereira, todos desempenhando funções pro bono. A Fundação Eça de Queiroz tem sede na belíssima Casa de Tormes, a que inspirou A Cidade e as Serras e em cujo restaurante se serve ainda o frango dourado com arroz de favas que serviram a Eça da primeira vez que visitou a casa em Baião. A Fundação Eça de Queiroz trabalha em actividades tão distintas como a educação e a agricultura e tem agora como presidente um jovem cheio de garra que ainda por cima é descendente do grande mestre da palavra. Parabéns ao Afonso Reis Cabral, esperando que este novo cargo e as várias crónicas que escreve para os jornais, bem como o recente programa semanal da Antena 1 («Biblioteca Pública») em que participa com Dulce Maria Cardoso e Richard Zimler, não façam jus ao título do livro premiado de Luísa Costa Gomes e o afastem demasiado da escrita.

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