Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

16
Set22

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

Com as pupilas esforçadas nuns olhos surpreendidos pela luz, o que se devia dirimir seguidamente era a procura de um novo romance, o que todos os domingos o primoirmão lhe escondia nalgum ponto da casa. Porque depois de sair para a pândega todos os sábados, Rico, lindamente intacto e magnífico por estar selado o seu mistério, comprava-lhe um livro em segunda mão na feira da ladra dominical do bairro, o maior mercado de livros em segunda mão da Europa. Depois parava para beber um café a fim de temperar a bebedeira e acendia com os seus sublinhados frases que eram cãibras e passagens que eram pistas para o primo. Simón tinha de procurar o livro mesmo antes de se pôr diante do seu Cola Cao com grumos e das suas madalenas de La Bella Easo. Muitas vezes levava a cabo as suas pesquisas a partir de um enigma que Rico lhe colocava debaixo da almofada ou de um caminho de setas marcadas com fita isoladora. A pista também podia estar escondida nalguma notícia do jornal que o pai tinha deixado na cozinha do andar. Às vezes, inclusivamente, Rico soprava a pista a algum taxista madrugador e bêbedo, de maneira que Simón tinha de descer ao bar familiar e perguntar aos clientes, de caderninho na mão, com o roupão de lã como gabardina, se sabiam onde poderia estar escondido o seu novo livro. Este jogo, que Rico batizou como os Livros Livres, era a promessa de um jogo que nunca mais iria acabar: o jogo de viver segundo as fantasias de profissionais das vidas possíveis, grumetes, músicos e sobretudo espadachins.

Simón, de Miki Otero, tradução de José Teixeira de Aguilar

15
Set22

Conversa entre escritoras

Maria do Rosário Pedreira

Uma das vozes mais interessantes da literatura francófona, a autora Leïla Slimani, conta com  todos ou quase todos os seus livros publicados em Portugal; um deles, chamado O País dos Outros, já foi aqui referido no blogue e prende-se com a história de uma rapariga francesa que se casa com um marroquino e deixa a pátria para viver no país do marido, passando a ter uma vida completamente diferente da que tinham na Alsácia. Ao que sei, baseia-se na história verdadeira da avó da autora, que teve de lutar muito pela liberdade num país muçulmano. Também autobiográfico é o livro Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo (conhecida sobretudo pelo romance A Gorda), que a Caminho publicou há pouco tempo numa nova edição, revista e aumentada. Nele, a autora fala essencialmente do comportamento ternurento do pai para com ela, mas racista em relação aos negros, em Moçambique, antes da Revolução, recordando sem paninhos quentes episódios tremendos da sua infância. Estas duas escritoras vão hoje encontrar-se às 19h00 na Mediateca do Instituto Franco-Português, na Embaixada de França, com o jornalista Carlos Vaz Marques, que certamente as interpelará sobre as questões da submissão da mulher, a influência da religião, o racismo e o colonialismo. A não perder.

14
Set22

Vivam as escritoras!

Maria do Rosário Pedreira

Quando compro um livro, geralmente é porque gosto do seu autor, porque mo aconselharam ou porque li alguma coisa interessante sobre ele. Longe de mim escolher aquilo que vou ler com base no sexo de quem o escreveu, embora acredite que, por exemplo, uma feminista radical possa, mesmo sem ter a noção disso, ser facilmente tentada por livros de mulheres e chumbar à partida livros de homens. Pensava que a maioria das pessoas agia como eu. Porém, num artigo publicado em Maio no diário britânico The Guardian, a autora de ensaios Mary Ann Sieghart pega numa estatística do Reino Unido para revelar que, afinal, se as leitoras compram 50% de livros de mulheres e 50% de livros de homens, já os leitores masculinos só compram 20% de livros escritos por mulheres, como se achassem que as coitaditas não escrevem senão futilidades e cor-de-rosices. Vai daí, o jornal propõe a vários escritores do sexo masculino que indiquem livros de mulheres que todos os homens devem ler; e é uma alegria, pois alguns deles não passam sem Virginia Woolf (Salman Rushdie adora Mrs Dalloway) ou George Eliot (o vencedor do Booker Howard Jacobson, por exemplo, escolhe A Vida Era assim em Middlemarch). Ian McEwan aconselha curiosamente o romance de uma holandesa que comprei recentemente (Hanna Bervoets: We Had to Remove This Post, fiquem muito atentos a esta pérola), Rob Doyle escolhe Margaret Atwood e Richard Curtis a maravilhosa Elizabeth Strout. Mas as escolhas recaem também sobre Maya Angelou, a belíssima Arundhati Roy, Ali Smith, Harper Lee (sim, a do Não Matem a Cotovia), Colette (um clássico!), Donna Tart, Iris Murdoch e até a Sue Townsend do livro O Diário Secreto de Adrian Mole, que foi um sucesso nos anos 1980. Não barrem os livros pelo sexo. Vivam as escritoras!

13
Set22

Desilusões

Maria do Rosário Pedreira

Antes de partir para férias, estive a pensar no que devia levar para ler. Não gosto de ir muito carregada e, portanto, apesar de contar sempre com alternativas, costumo levar um romance mais extenso, e foi o caso. Tinha visto várias pessoas a escrever frases elogiosas a respeito de um determinado livro, ou a referir que o estavam a ler, e achei que, enfim, podia ser uma boa escolha. Chamava-se, ainda por cima, A Breve Vida das Flores, um título bonito, e fora traduzido pela Maria de Fátima Carmo, que conheço como tradutora e por quem poria as mãos no fogo. Também levava dois prémios de vantagem escritos na capa. Mas... a seguir a umas cento e tal páginas muito razoáveis e bem construídas,  mesmo que sem grande rasgo literário, infelizmente a coisa deu para o torto e tornou-se uma xaropada inexplicável. Pode ser defeito meu, e pode ser também deformação profissional, mas a verdade é que me custou muitíssimo acabá-lo e só conseguia pensar no que devia ter sido cortado e não fazia ali falta nenhuma, pelo contrário, tornando o livro uma espécie de investigação criminal sem detective (ou com detectives a mais), género para o qual não estava mesmo preparada... Cheirem-no, que a vida das flores é breve. O meu gosto não é igual ao vosso. Mas eu da próxima vez vou desconfiar e não ceder tão facilmente às opiniões alheias.

12
Set22

Ressacas

Maria do Rosário Pedreira

Reli há uns tempos umas colectâneas de poesia espanhola do século XX organizadas e traduzidas por Joaquim Manuel Magalhães, que foi meu professor na Faculdade (e era muito melhor professor do que tradutor de castelhano, mas isso não importa muito para o que hoje me traz). Fiquei muito espantada pela quantidade de poemas que encontrei sobre o álcool, a bebida, as ressacas, os vomitanços...; e, claro, não pude deixar de pensar que os espanhóis não vão, como os portugueses, do trabalho para casa, passando normalmente um bocado com os colegas e amigos, bebendo uns vinitos e tapeando por aí, o que se pode ver em qualquer cidade espanhola, das grandes às pequenas. Pode ser que, por isso, acabem a beber mais do que a conta, sim. E, sendo escritores, que reflictam sobre o hábito ou o vício nas suas obras. Fiquei a pensar que, mesmo aqueles escritores portugueses que toda a gente diz que bebiam bastante (Cardoso Pires, por exemplo), raramente se referem a esse facto no que escrevem. Eu, pelo menos, não me consigo lembrar de nenhum romancista ou poeta que fale abertamente das suas bebedeiras ou ressacas. Será que é porque se sentem culpados e associam o álcool a algo negativo, e não ao convívio com os amigos, como no país aqui ao lado? Julgo que é o Eduardo Pitta que diz que a nossa literatura é mais macambúzia do que a espanhola, porque eles vivem muito mais do que nós. Será? Bem, a cada um a sua ressaca.

09
Set22

Maravilha

Maria do Rosário Pedreira

Se existem coisas maravilhosas, a leitura é uma delas. E ler As Maravilhas é, posso afiançar-vos, também maravilhoso. Falo, claro, do romance da poetisa espanhola Elena Medel, que, apesar de ser a sua ficção de estreia, já está a correr mundo com um enorme sucesso e em línguas várias. É um livro, de resto, que conta a vida de duas mulheres (avó e neta) que podiam ser portuguesas: a história de um destino sempre afectado pela falta de dinheiro, como tantas vezes acontece por cá. Elena Medel esteve em Portugal para o lançamento, há uns meses, mas volta agora em plena Feira do Livro de Lisboa a convite do El Corte Inglés. Hoje, pelas 17h00, estará por isso presente para uma conversa com a jornalista Ana Galvão na Praça Amarela sobre o seu percurso literário (e o que a levou da poesia para a ficção) e sobre a escrita do romance Las maravillas, que autografará logo a seguir para os leitores espanhóis nos stands do El Corte Inglés. Já mais tarde, pelas 21h00, estará pelo stand da D. Quixote, na Praça LeYa, a assinar a edição portuguesa para os portugueses. Apareça por lá, vai ser uma boa forma de começar o fim-de-semana.

9set_autog_elena_medel_IG_1080x1080.png

1200x1200 Facebook Individuais Conversa com autore

08
Set22

Coincidências

Maria do Rosário Pedreira

Há anos maus, já se sabe, mas alguma vez pensaram que num só ano fossem arrebatados dois Prémios Nobel da Literatura? Pois é, foi justamente em 1962, estava eu ainda sem saber o prazer que os livros me haveriam de dar, que se finaram dois espectaculares escritores: Faulkner e  Hesse. O Hermann era vinte anos mais velho, nascera em 1877 na Alemanha e não apostava em cavalos como o norte-americano, o que lhe deve ter dado bastante mais saúde (embora ele também tivesse crises de ansiedade e passado pela psicanálise). Escreveu livros absolutamente imperdíveis, como Siddharta, Narciso e Goldmundo (o meu favorito) ou O Lobo das Estepes, e não podia ser mais diferente em tudo de William Faulkner (um homem bem bonito, por sinal), romancista fascinante que fala da decadência da América de modo singular (O Som e a Fúria, Luz em Agosto, Os Ratoneiros...), embora seja de certa forma um escritor «à europeia», e é uma inspiração para muitos autores contemporâneos de todo o mundo, incluindo, creio, o nosso Lobo Antunes. Na Feira do Livro, hoje às 19h30, dois grandes escritores portugueses, Mário Cláudio e Lídia Jorge, vão falar destes dois génios literários no auditório da Praça LeYa. Eu vou, não perco esta conversa por nada deste mundo. Apareçam também. Vamos de certeza aprender coisas que não sabíamos.

07
Set22

Humanidade

Maria do Rosário Pedreira

Uma vez, fui convidada pelo Colégio Moderno, em Lisboa, para participar numa conversa na Semana da Poesia, e fiquei muito agradavelmente surpreendida pelo nível das perguntas e intervenções dos alunos, um dos quais, antes ainda de me dirigir a palavra, fez questão de dizer com uma pontinha de orgulho que era de Humanidades. A palavra, embora não pensemos logo nisso, vem de «humano», e isso, meus amigos, parece-me fazer toda a diferença, embora, na prática, nem sempre os que estudam as ditas Humanidades sejam mais humanos do que os seus colegas de Ciências ou até os seus docentes. Em todo o caso, mesmo correndo o risco de parecer lamechas, encontrei uma carta escrita por um sobrevivente de Auschwitz aos professores de todas as disciplinas que apela a esta humanidade que achei muito oportuna, pois sinto que também é isto que está a faltar no ensino em muitos países civilizados, privilegiando-se a técnica e a especialidade. Diz o autor da carta que viu câmaras de gás construídas por engenheiros qualificados; crianças envenenadas por médicos qualificados; bebés mortos por enfermeiras especializadas; mulheres e crianças mortas e queimadas por tipos que tinham sido excelentes alunos. E acrescenta que por isso tem sérias suspeitas sobre a educação. Pede, assim, aos professores que ensinem os seus alunos a serem humanos, e não monstros treinados ou psicopatas experientes. E conclui: a leitura, a escrita e o conhecimento de aritmética só serão importantes se tornarem as crianças mais humanas. No mesmo dia em que encontro esta carta, dizem-me, porém, que na escola da minha rua, os meninos este ano não vão ter manuais senão digitais nem escrever nada senão com as teclas num ecrã. Robot versus humano?

06
Set22

Apoteose

Maria do Rosário Pedreira

Mário Cláudio é um dos mais prolíficos escritores portugueses, e não há ano em que não nos brinde com uma novidade. Desta feita, trata-se de Apoteose dos Mártires, que ainda por cima tem uma capa belíssima. Decorre no ocaso do Império Português e debruça-se sobre os destinos de Tomás Rodrigues da Cunha, pequeno fidalgo e militar natural do Minho, e Pierre Berthelot, piloto-mor e cosmógrafo, oriundo da Normandia. Carmelitas descalços no Convento de Goa, rumaram à Ilha de Sumatra no Índico, integrando a embaixada que se propunha firmar um tratado de aliança com o sultão de Achém, movidos pelo espírito de entrega e sacrifício, inspirador dos mártires de todas as épocas. As aventuras que viveram, nas quais o amor profano nem sempre se distinguiria do sagrado, constituem verso e reverso de uma só medalha, cunhada na miséria da guerra, na exaltação da alma, e na partilha da Terra. Como outros, de ontem, de hoje e amanhã, apostaram na glória da condição humana, mas viram o seu sangue derramado. É a primeira vez que um escritor lhes dedica um romance, e este, que vale mesmo a pena, vai ser lançado hoje à tarde no Porto, pelo que aqui fica o convite aos que estejam pela Invicta. Apareçam.

convite_apoteose_mario_claudio (002).jpg

05
Set22

Viagens literárias

Maria do Rosário Pedreira

Na sexta-feira falei aqui de intimidades escusadas entre público e autor. Hoje falo de viajar com um autor sem de modo algum tocar a sua (e a nossa) intimidade. Falei aqui várias vezes do facto de o romance Perguntem a Sarah Gross, de João Pinto Coelho, ter sido o ponto de partida para uma viagem organizada pelo escritor aos cenários do livro: a cidade de Oswiécin, onde vivem os Gross do livro, e a que os alemães mais tarde chamarão Auschwitz; o bairro e o gueto judeus em Cracóvia; o museu Schindler (desse alemão que fabricava panelas e salvou mais de mil judeus da morte certa); e, por último, os campos de extermínio de Auschwitz-Birkenau, cujas imagens temos visto repetidamente em filmes e documentários, mas que ao vivo têm outro peso. Foi muito impressionante, claro, pois só quem não tenha um pingo de sensibilidade pode ficar indiferente a imagens como a das próteses, dos cabelos ou dos brinquedos arrancados aos judeus mandados directamente para a câmara de gás. Mas todos ganhámos com a visita, estou certa, e foi uma excelente ideia que, afinal, poderá ser repetida com base em outros livros. Eu, por exemplo, gostaria de ir à Indochina de O Amante, de Marguerite Duras (hoje Vietname); mas, se cada um de nós pensar um pouco, descobre de certeza um destino diferente a partir de um romance que leu. Querem dar ideias?

A autora

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2022
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2021
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2020
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2019
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2018
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2017
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2016
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2015
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2014
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2013
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2012
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2011
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2010
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D