Muitas vezes, quando estou a ler, descubro frases e expressões que poderiam ter sido corrigidas se o autor tivesse tido a possibilidade de meter o seu manuscrito na gaveta durante uns meses e, ao fim desse tempo, o relesse e revisse. Há frases tão desastradas que tenho a certeza de que os próprios autores dariam pelo descalabro se não estivessem tão apressados para entregar o texto para publicação. Um dia destes, por exemplo, no romance de alguém conhecido (não falo de nenhum jovem autor), encontrei uma passagem em que a personagem caminhava «na direcção» de alguém e se «dirigia directamente» a essa pessoa para lhe perguntar já não sei o quê. Mas ninguém deu por isto? Recuso-me a acreditar que foi de propósito, tão coxo ficou... Mas, bem sei, os escritores querem desembaraçar-se dos seus livros e dividi-los com o público assim que os dão por terminados. Li algures que o pintor francês Pierre Bonnard, que estava sempre a precisar de dinheiro, também vendia os quadros sem os «rever»; mas depois, ao que se conta, chegava a arrombar as casas dos compradores das telas e ia acabá-las ou aperfeiçoá-las às escondidas. Uma bela história que é também um exemplo de exigência. Só que aos escritores pede-se que façam isso antes de o livro impresso.
António-Pedro Vasconcelos, cineasta e crítico de cinema, é também um amante da literatura e de boas histórias e, aliás, escreveu um livro sobre o futuro da ficção bastante profético (digo eu, que encontro, como ele, esta época em que vivemos muito pouco imaginativa), publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos com o título O Futuro da Ficção (já aqui falei dele). Mas, como homem lido que é, tem também o dom da palavra e é por isso que chamo neste blogue a atenção para um curso de História do Cinema que vai dar no El Corte Inglés já a partir do dia 7 de Fevereiro e até 17 de Março. São, diz o texto de apresentação, dez episódios e meio, do nascimento da Sétima Arte (com os Irmãos Lumière) até aos anos setenta (com os cineastas americanos que fizeram filmes sobre o Vietname e os que, como Spielberg, regressaram ao cinema de puro entretenimento). Pelo caminho, há sessões sobre o cinema mudo, o cinema de autor, o neo-realismo, o pós-guerra, as estrelas de cinema, o maccarthismo e muito mais. Se eu tivesse horário para ir, estaria lá caída. Até porque, pelo meio, há de certeza imensa literatura...
Depois de todas as calamidades e ruindades que sobre mim se abateram, confesso que não estava à espera de um milagre desta natureza, nem acreditava na bondade do mundo, capaz de inverter a malfadada andança dos alcatruzes da minha desdita.
Mas quem haveria de me dizer, Vossa Senhoria, que todos estes prodígios tombariam sobre mim em terra tão distante das minhas origens e tudo por causa de um irmão que eu desconhecia existir, muito versado nas artes mecânicas e liberais de Caco, provando assim ser assaz verdadeiro aquele anexim que meu pai cochichava ao borralho, mais atestado do que um odre a seguir às vindimas, mirando minha mãe de esguelha, de que não há cão sem pulgas, nem linhagem sem ladrão ou puta.
Nascem uns com a cara virada para as boas estrelas, os bons fados, mas outros germinam com as nalgas espetadas para as más estrelas e os maus fados. Que potestade será essa que, nos acasos dos nossos dias, maliciosamente se esconde e assim manipula os astros do nosso fadário? Que deidade, ao longo do nosso transcurso, decide quais os Bojadores ou os Adamastores a dobrar?
Com estas e outras cogitações em mente, atravessei o Guadalquivir pela Puente de las Barcas em direcção ao bairro a que dão o nome de Triana, na outra margem do rio, e daí para o casinhoto de meu irmão, em San Juan de Alfarache, a fim de inaugurar um novo tempo, livre de tristezas, durezas e asperezas, que de abronhos já estava farto, sempre a viver, nos avessos da fortuna, o desconcerto do mundo.
Paulo Moreiras, A Vida Airada de Dom Perdigote (no prelo)
Já aqui falei várias vezes na EC.ON, a escola de Escrita Criativa Online que tem sessões online, claro, mas também presenciais, e que não se fica por aí, pois faz ainda regularmente edição de uns livros breves com a chancela da Nova Mymosa. Já colaborei uma vez na pequenina colecção de poesia (durante a pandemia, creio) e li vários contos publicados na colecção de ficção, que tem um formato mais próximo de um caderno. Mas vem aí a novidade do Ensaio (pelo menos para mim é novidade), na qual um conjunto de autores extremamente ecléctico foi desafiado a pensar sobre o nosso tempo. Os livros desta «Pensar a tempo» sairão ao longo do ano e serão escritos por Afonso Cruz, Mário de Carvalho, Cláudia Lucas Chéu, Álvaro Laborinho Lúcio, Bruno Vieira Amaral, Carlos Fiolhais, Hélder Macedo, Irene Pimentel, Luís Quintais, Marta Bernardes, Nuno Júdice e Valério Romão. Vale a pena acompanhar as outras actividades, que incluem apresentações, debates, cursos e um clube de leitura, este ano conduzido por Afonso Cruz. Pode consultar o programa no link abaixo.
Um dos livros mais incríveis que li sobre uma relação amorosa entre pessoas de idades diferentes foi, sem sombra de dúvida, A Única História, do querido Julian Barnes. No caso, o jovem pequeno-burguês que a mãe inscreve no clube de ténis com o intuito de que ele arranje uma namorada com posses e estatuto é um feitiço que se vira contra o feiticeiro, porque o rapaz se apaixona por uma balzaquiana e ainda por cima casada. E, não bastando o desgosto da mãe, ele próprio fica destroçado com aquela relação, ao ponto de a mulher mais velha se tornar «a única história» de amor da sua vida. É também neste sentido (uma mulher mais velha com um rapazinho trinta anos mais novo) que vai o mais recente livro de Annie Ernaux, publicado em França pouco antes de a autora francesa saber que ganhara o Prémio Nobel da Literatura: uma mulher de 54 anos (a própria escritora) acaba por se envolver com um jovem tímido (O Jovem é mesmo o título do livro) que é seu admirador e, por acaso, vive em Rouen, o lugar onde ela estudou e aonde regressa para reviver muitos episódios de juventude (entre eles o do aborto tratado em O Acontecimento). Mais do que uma relação amorosa, é, contudo, um regresso a uma vida passada, às memórias da juventude; e, tal como no livro de Barnes, não há o cliché de a mulher mais velha ser abandonada pelo rapaz novo, mas a novidade de deixar o «jovem» ciumento e inconsolável. Na verdade, lê-se numa hora ou duas, é um conto longo, nem mesmo uma novela, e as páginas restantes são fotografias da autora de quando teve o caso e mais elementos biográficos.