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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

07
Fev23

Corrigir e aperfeiçoar

Maria do Rosário Pedreira

Muitas vezes, quando estou a ler, descubro frases e expressões que poderiam ter sido corrigidas se o autor tivesse tido a possibilidade de meter o seu manuscrito na gaveta durante uns meses e, ao fim desse tempo, o relesse e revisse. Há frases tão desastradas que tenho a certeza de que os próprios autores dariam pelo descalabro se não estivessem tão apressados para entregar o texto para publicação. Um dia destes, por exemplo, no romance de alguém conhecido (não falo de nenhum jovem autor), encontrei uma passagem em que a personagem caminhava «na direcção» de alguém e se «dirigia directamente» a essa pessoa para lhe perguntar já não sei o quê. Mas ninguém deu por isto? Recuso-me a acreditar que foi de propósito, tão coxo ficou... Mas, bem sei, os escritores querem desembaraçar-se dos seus livros e dividi-los com o público assim que os dão por terminados. Li algures que o pintor francês Pierre Bonnard, que estava sempre a precisar de dinheiro, também vendia os quadros sem os «rever»; mas depois, ao que se conta, chegava a arrombar as casas dos compradores das telas e ia acabá-las ou aperfeiçoá-las às escondidas. Uma bela história que é também um exemplo de exigência. Só que aos escritores pede-se que façam isso antes de o livro impresso.

06
Fev23

Cinema e literatura

Maria do Rosário Pedreira

António-Pedro Vasconcelos, cineasta e crítico de cinema, é também um amante da literatura e de boas histórias e, aliás, escreveu um livro sobre o futuro da ficção bastante profético (digo eu, que encontro, como ele, esta época em que vivemos muito pouco imaginativa), publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos com o título O Futuro da Ficção (já aqui falei dele). Mas, como homem lido que é, tem também o dom da palavra e é por isso que chamo neste blogue a atenção para um curso de História do Cinema que vai dar no El Corte Inglés já a partir do dia 7 de Fevereiro e até 17 de Março. São, diz o texto de apresentação, dez episódios e meio, do nascimento da Sétima Arte (com os Irmãos Lumière) até aos anos setenta (com os cineastas americanos que fizeram filmes sobre o Vietname e os que, como Spielberg, regressaram ao cinema de puro entretenimento). Pelo caminho, há sessões sobre o cinema mudo, o cinema de autor, o neo-realismo, o pós-guerra, as estrelas de cinema, o maccarthismo e muito mais. Se eu tivesse horário para ir, estaria lá caída. Até porque, pelo meio, há de certeza imensa literatura...

03
Fev23

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

Depois de todas as calamidades e ruindades que sobre mim se abateram, confesso que não estava à espera de um milagre desta natureza, nem acreditava na bondade do mundo, capaz de inverter a malfadada andança dos alcatruzes da minha desdita.

Mas quem haveria de me dizer, Vossa Senhoria, que todos estes prodígios tombariam sobre mim em terra tão distante das minhas origens e tudo por causa de um irmão que eu desconhecia existir, muito versado nas artes mecânicas e liberais de Caco, provando assim ser assaz verdadeiro aquele anexim que meu pai cochichava ao borralho, mais atestado do que um odre a seguir às vindimas, mirando minha mãe de esguelha, de que não há cão sem pulgas, nem linhagem sem ladrão ou puta.

Nascem uns com a cara virada para as boas estrelas, os bons fados, mas outros germinam com as nalgas espetadas para as más estrelas e os maus fados. Que potestade será essa que, nos acasos dos nossos dias, maliciosamente se esconde e assim manipula os astros do nosso fadário? Que deidade, ao longo do nosso transcurso, decide quais os Bojadores ou os Adamastores a dobrar?

Com estas e outras cogitações em mente, atravessei o Guadalquivir pela Puente de las Barcas em direcção ao bairro a que dão o nome de Triana, na outra margem do rio, e daí para o casinhoto de meu irmão, em San Juan de Alfarache, a fim de inaugurar um novo tempo, livre de tristezas, durezas e asperezas, que de abronhos já estava farto, sempre a viver, nos avessos da fortuna, o desconcerto do mundo.

 

Paulo Moreiras, A Vida Airada de Dom Perdigote (no prelo)

02
Fev23

Um longo programa de actividades

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui falei várias vezes na EC.ON, a escola de Escrita Criativa Online que tem sessões online, claro, mas também presenciais, e que não se fica por aí, pois faz ainda regularmente edição de uns livros breves com a chancela da Nova Mymosa. Já colaborei uma vez na pequenina colecção de poesia (durante a pandemia, creio) e li vários contos publicados na colecção de ficção, que tem um formato mais próximo de um caderno. Mas vem aí a novidade do Ensaio (pelo menos para mim é novidade), na qual um conjunto de autores extremamente ecléctico foi desafiado a pensar sobre o nosso tempo. Os livros desta «Pensar a tempo» sairão ao longo do ano e serão escritos por Afonso Cruz, Mário de Carvalho, Cláudia Lucas Chéu, Álvaro Laborinho Lúcio, Bruno Vieira Amaral, Carlos Fiolhais, Hélder Macedo, Irene Pimentel, Luís Quintais, Marta Bernardes, Nuno Júdice e Valério Romão. Vale a pena acompanhar as outras actividades, que incluem apresentações, debates, cursos e um clube de leitura, este ano conduzido por Afonso Cruz. Pode consultar o programa no link abaixo.

http://escritacriativaonline.net/

01
Fev23

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Um dos livros mais incríveis que li sobre uma relação amorosa entre pessoas de idades diferentes foi, sem sombra de dúvida, A Única História, do querido Julian Barnes. No caso, o jovem pequeno-burguês que a mãe inscreve no clube de ténis com o intuito de que ele arranje uma namorada com posses e estatuto é um feitiço que se vira contra o feiticeiro, porque o rapaz se apaixona por uma balzaquiana e ainda por cima casada. E, não bastando o desgosto da mãe, ele próprio fica destroçado com aquela relação, ao ponto de a mulher mais velha se tornar «a única história» de amor da sua vida. É também neste sentido (uma mulher mais velha com um rapazinho trinta anos mais novo) que vai o mais recente livro de Annie Ernaux, publicado em França pouco antes de a autora francesa saber que ganhara o Prémio Nobel da Literatura: uma mulher de 54 anos (a própria escritora) acaba por se envolver com um jovem tímido (O Jovem é mesmo o título do livro) que é seu admirador e, por acaso, vive em Rouen, o lugar onde ela estudou e aonde regressa para reviver muitos episódios de juventude (entre eles o do aborto tratado em O Acontecimento). Mais do que uma relação amorosa, é, contudo, um regresso a uma vida passada, às memórias da juventude; e, tal como no livro de Barnes, não há o cliché de a mulher mais velha ser abandonada pelo rapaz novo, mas a novidade de deixar o «jovem» ciumento e inconsolável. Na verdade, lê-se numa hora ou duas, é um conto longo, nem mesmo uma novela, e as páginas restantes são fotografias da autora de quando teve o caso e mais elementos biográficos.

Pág. 2/2

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