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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

17
Mar23

Loucura

Maria do Rosário Pedreira

Ninguém que tenha lido A Louca da Casa, de Rosa Montero, pode ter ficado indiferente. É um livro que mistura autobiografia e ficção e que fala da imaginação de forma bem louca e, passe a redundância, imaginativa. De todos os livros da autora, é seguramente o mais marcante (embora ela tenha escrito romances incríveis), e é nessa linha o seu mais recente volume publicado em Portugal e intitulado O Perigo de Estar no Seu Perfeito Juízo, usando um verso «roubado» a Emily Dickinson. A proposta é incrível, pois associa aos criadores uma certa dose de loucura, justificando que para se ser um verdadeiro artista há que ter um desequilibriozinho. Partindo de exemplos reais, a começar pelos seus próprios ataques de pânico em diversas alturas da vida, Rosa Montero conta-nos as histórias fascinantes de alguns escritores a quem foi diagnosticada doença mental (Virginia Woolf, Sylvia Plath, Janet Frame...) e cuja salvação foi muitas vezes a escrita; e fala-nos cientificamente desse grãozinho de loucura que levou tantos autores ao vício ou ao suicídio, como Scott Fitzgerald, Hemingway ou mesmo Bukowski. Ao mesmo tempo, atravessa todo o livro a história de uma mulher anónima que se fez passar pela própria Rosa Montero durante anos, perturbando a autora de O Perigo de Estar no Seu Perfeito Juízo em variadíssimas situações (uma das quais apresentando-se em vez dela numa universidade americana como escritora convidada). Fascinante. Pena que a tradução tenha demasiados castelhanismos («relato» por «conto», «narrador» por «romancista»...), sobretudo porque a tradutora já assinou outros trabalhos de qualidade e não se esperavam dela erros de palmatória (O Ruído e a Fúria, de Faulkner?). Mas leiam na mesma, não se arrependerão.

16
Mar23

Tudo num volume

Maria do Rosário Pedreira

São bastante comuns as Poesias Reunidas, e há autores que até têm mais de uma Poesia Reunida ao longo da vida, ora porque mudam de editora e fazem edições novas, ora porque vão sempre escrevendo volumes independentes e, ao fim de algum tempo, actualizam com eles as suas reuniões de poemas. Já é menos vulgar um autor agarrar em toda a sua prosa e juntá-la num único livro, até porque geralmente os romances são mais extensos do que os poemários e não se consegue juntá-los todos porque ficaria um tijolão pesadíssimo. Porém, autores mais parcimoniosos, como (estou a lembrar-me deste) Carlos de Oliveira, conseguiram a proeza de juntar toda a sua produção literária em prosa num só volume (e as estantes agradecem!), mesmo que em papel de Bíblia. E há mais: chegou a vez de Manuel Alegre reunir a sua obra ficcional em Toda a Prosa, um volume que compreende os romances Alma, A Terceira Rosa, Jornada de África ou O Miúdo Que Pregava Pregos, mas também textos mais curtos e mais difíceis de encontrar, como certos contos e novelas. O livro é hoje apresentado ao final da tarde na Biblioteca do Palácio Galveias, em Lisboa, com apresentação da professora Paula Morão, que também assina o prefácio da obra. Apareçam.

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15
Mar23

Expressamente para si

Maria do Rosário Pedreira

Num tempo em que circulam pelas grandes cidades quase mais motos e bicicletas de serviços de entrega de refeições ao domicílio do que automóveis, não posso deixar de vir dar novidades sobre o serviço que o grupo onde trabalho oferece. Chama-se LeYa Express e, criado no tempo da pandemia para facilitar a leitura em confinamento, tem agora novidades: não só alargou a entrega de livros a outros locais (além de Lisboa, Oeiras e Cascais, estendeu o serviço também ao Porto e a Gaia), como encurtou o tempo da entrega, pois os leitores que vivem nos locais referidos, desde que a compra ultrapasse os 15 euros, podem receber livros de todas as editoras portuguesas (não só da LeYa) no próprio dia e gratuitamente. O tempo de espera é em média duas horas em Lisboa e no Porto, e é também possível pedir para embrulhar o livro, se a ideia é oferecê-lo a alguém. O LeYa Express é acessível através da LeYaOnline, seguindo passos simples: escolha dos livros, verificação da disponibilidade inserindo código postal, inserção de morada de entrega e pagamento. Este foi o primeiro serviço do género lançado em Portugal e está cada vez mais perto dos leitores.

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14
Mar23

O islão

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui falei várias vezes das conferências e dos cursos que o El Corte Inglés oferece a quem queira inscrever-se, cultivar-se e passar um bom bocado. E desta feita chamaram-me a atenção, na área da História, as três sessões que o medievalista e catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa Hermenegildo Fernandes vai ministrar sobre o islão. Sabemos que a presença do islão na Península Ibérica teve enorme impacto no desenvolvimento da identidade nacional, apesar de, como se diz na apresentação deste pequeno curso, essa evidência ser frequentemente esquecida e o período correspondente ser considerado apenas um «intervalo». Mas agora, ao longo de três sessões (16 e 23 de Março e 13 de Abril), vamos poder ficar a saber mais sobre a conquista da Hispânia pelo islão no século VIII; os efeitos  do califado com sede  em Córdova na península (incluindo na zona onde hoje fica o Algarve) nos séculos IX e X; a criação no século XI de principados locais, verdadeiros paraísos de gente letrada (taifas); e por fim a extinção das taifas pela ameaça dos reinos cristãos. Belos fins de tarde para quem possa ir.

13
Mar23

Fake news e ingenuidade

Maria do Rosário Pedreira

Vivemos num tempo em que o jornalismo já não é o que era e não temos outro remédio senão acreditar nas notícias que nos passam debaixo do nariz. E, como não sou diferente, também fui vítima das fake news e, pelos vistos, completamente ingénua ao crer num tweet de uma pessoa que nem conheço, no qual se dizia que o Instituto Camões consideraria mortas todas as palavras não usadas num período de três anos. A pessoa que partilhou o dito tweet no Facebook é respeitável e, como tinha exercido um cargo importante numa Secretaria de Estado da Cultura aqui há uns anos, não duvidei de que estivesse a veicular informação confirmada. Ainda por cima, como passou uma semana entre eu ler o post e publicar a notícia aqui no blogue, e ninguém desmentiu entretanto o que fora dito (o que multiplicou as partilhas), fiquei mesmo convencida da verdade daquele escândalo. Mas, pensando bem, aquilo não tinha sentido (devia ser apenas uma tirada humorística) e eu tinha obrigação de, pelo menos, ter duvidado. Mea culpa. Venho, assim, retractar-me e dar-vos boas notícias: afinal, o Instituto Camões está tão interessado como nós na defesa e preservação da língua portuguesa e não vai matar palavras nenhumas, nem as inventadas aqui, nem as dos países de língua oficial portuguesa. Apesar de me ter sentido uma autêntica parva, fiquei contente de me ter enganado e de podermos continuar a aumentar o nosso dicionário em vez de o irmos podando. E, desse lado, desculpem ter-vos dado eu própria uma notícia falsa, embora os vossos comentários tenham sido excelentes no dia em causa.

10
Mar23

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

A decisão de lavrar a terra tinha sido tomada de um dia para outro, depois de muito remoer sobre o passado e o futuro. Era arriscada, mas algo precisava ser feito. Não esperaria que lhe tomassem os restos e se pôs na linha de frente para reivindicar o que considerava legí­timo. Se não fizesse algo por si, estava fadada a desaparecer como tantas vezes outros desejaram.

Resignada, lançava a manaíba na cova aberta, e fechava, paciente, ignorando tudo mais à sua volta. O homem gesti­culava com os braços, Maria Cabocla falava cada vez mais alto. Então, ele ordenou que ela parasse a irmã, do contrário ele não responderia por si.

[…]

«Luzia, Luzia, pelo amor de Deus, deixe o diabo dessa manaíba aí! Estou vendo a hora de esse homem te matar.»

Luzia parou, levantou o rosto suado e coberto de terra. Ela estava suja porque ele se aproximava arrancando os tocos, e os fragmentos de terra e mato recaíam sobre seu corpo. Agora uma lama grossa feita de barro e suor descia de sua face. Mas ela não guardava nenhuma expressão de desgosto ou desâ­nimo em seu semblante. Ignorou o homem e a ameaça. Olhou para Maria Cabocla com um ar de insubmissa satisfação.

«Não paro, Mariinha.»

 

Itamar Vieira Junior, Salvar o Fogo, quase quase a chegar!

09
Mar23

Manifesto

Maria do Rosário Pedreira

Creio já aqui ter falado de Livrarias, um livro-manifesto de Jorge Carrión que defende a livraria e o livro como pilares da civilização; Carrión é um autor que tem de ser lido por todos nós que gostamos de ler e que agora volta a atacar com um livro obrigatório que está a ser traduzido em todo o mundo. Chama-se (Carrión é corajoso) Contra a Amazon e é mais uma vez um manifesto, desta feita contra o gigante de Jeff Bezos e «o poder crescente dos algoritmos» na venda de livros, a favor da figura do livreiro e do carácter incomparavelmente mais humano e pessoal das livrarias independentes e das bibliotecas. Carrión acusa a Amazon de se ter apropriado do prestígio do livro e de ter construído um hipermercado de livros que é, na verdade, «uma cortina de fumo em forma de biblioteca»; insurge-se contra aquela imensa livraria «impessoal» e «global» e partilha visitas várias a livrarias que se estão a reinventar e a resistir em todo o mundo para mostrar como é, afinal, possível manter o livro como «pilar da nossa educação sentimental e intelectual». Com uma nota introdutória escrita propositadamente para a edição portuguesa, Contra a Amazon é de certeza uma obra polémica que dará que falar nos tempos mais próximos.

08
Mar23

Para rir e chorar por mais

Maria do Rosário Pedreira

O novo romance pícaro de Paulo Moreiras fará garantidamente as delícias de quem o ler. E, deixem-me puxar a brasa à minha sardinha, é dos livros mais ricos em vocabulário e expressões saborosas que podemos encontrar neste século na literatura portuguesa. Paulo Moreiras leu tudo o que existe de literatura picaresca, estou certa; e, admirador confesso do género, construiu duas obras à altura dos seus mestres. Em primeiro lugar, A Demanda de Dom Fuas Bragatela, que já tem sei lá quantas edições; e agora, saidinho do forno, este imperdível A Vida Airada de Dom Perdigote, que decorre em Valladolid, sede da Corte no reinado de Filipe II de Espanha, III de Portugal; está por isso cheio de personagens espanhóis, o que só por si já justificaria que amanhã o lançamento decorresse no Instituto Cervantes. Mas há mais, pois o próprio Miguel de Cervantes (sim, o do Quixote) passa mais de uma vez pelas páginas do romance, bem como Quevedo, El Greco e até um autor de teatro britânico sobejamente conhecido que corre perigo de vida. Venha fazer-nos companhia (e ao autor). A apresentação fica a cargo de José Carlos Barros, vencedor do Prémio LeYa em 2021 com As Pessoas Invisíveis e grande poeta também. A não perder, lançamento e livro!

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07
Mar23

Olhar para trás

Maria do Rosário Pedreira

No ano em que a FNAC comemora o seu 25.º aniversário, a revista Estante publica um artigo sobre livros que marcaram os últimos vinte e cinco anos, ou seja, desde 1998 até hoje. Mandaram-me o link e, ao «folhear», fosse nos destaques, fosse nas obras referidas como igualmente importantes, descobri vários livros que publiquei e, desculpem lá, fiquei orgulhosa: começou logo em 1998, com As Partículas Elementares, de Michel Houellebecq (curiosamente, no ano em que comecei a Temas e Debates e estava a construir uma colecção de ficção que tinha capas e projecto gráfico da autoria de António Rochinha Diogo); em 2000, seria a vez de Escrever, de Stephen King (que editei com o Círculo de Leitores que publicava também os seus livros de suspense e terror, mas que era um ensaio admirável que foi recentemente reeditado e deve ser lido por todos os que querem publicar). Em anos subsequentes, a pérola que é Morreste-me, de José Luís Peixoto (um livro que nunca morre e está sempre a ser traduzido e reimpresso); As Três Vidas, de João Tordo, que muito justamente ganhou o Prémio Saramago, entregue ainda pelo nosso Nobel durante a Escritaria de 2009, em Penafiel; e A Vegetariana, de Han Kang, esse livro incrível que levou o Booker Prize internacional no Reino Unido e também continua a ser regularmente reimpresso na versão portuguesa. Mas há muitos outros na lista (entre realmente bons e realmente bem-sucedidos, como O Segredo) que marcaram os últimos vinte cinco anos da FNAC. E os nossos. Deixo-vos a lista para poderem olhar para trás.

https://www.fnac.pt/25-livros-que-marcaram-os-ultimos-25-anos-parte-1/cp4828/w-4?origin=fb_paid_25ano_blog1&fbclid=IwAR2KLPmkPfLDblhaxWkEyD4F06nSo2EecUZy6yoXN_ItNSNaO87HwO0R3-c

 

06
Mar23

Bookcrossing

Maria do Rosário Pedreira

Apanhei aqui nos blogues da SAPO um post de alguém sobre «bookcrossing». Tenho a certeza de que já falei aqui disso, há certamente muito tempo; mas, como estamos de novo em altura de apertar o cinto e as casas são pequenas demais para os livros todos que gostaríamos de ter, o assunto bem pode voltar à calha. Se há livros que começou a ler e não gostou, se há outros a que não pretende voltar, se tem repetidos mas não arranja a quem dá-los, porque não deixá-los por aí para quem pode desfrutar da sua leitura? (Não querendo ser rebarbativa, acho que é o que vou fazer com aquele tijolo das plantas francês que se atravessou indevidamente no meu Verão.) Num banco de jardim, na esplanada de um café, no provador de uma loja de roupa... todos os sítios são bons para cruzarmos livros com os outros leitores. Com o meu feitio, já sei que, se encontrasse um livro num café, andaria logo à procura do dono e nem me ocorreria trazê-lo comigo, mas o bookcrossing é assim mesmo e temos de nos convencer de que não estamos a roubar nada, só a levar emprestado. Desde que no fim voltemos a pôr o livro à disposição de um novo leitor, bem entendido. Tem livros para a troca? Já sabe o que fazer.

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