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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

14
Abr23

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

[...] O inspector chegava pelas onze como uma tromba de ar: travava de repente com um estampido horrível, e fazendo perno na roda anterior fazia derrapar a posterior um quarto de círculo. Sem parar, apontava para a cozinha de cabeça baixa, como um touro a atacar; superava os dois degraus com medonhos estremeções; descrevia dois oitos apressados, com o escape todo aberto, em torno dos caldeirões; voava novamente os degraus até lá abaixo, fazia uma continência militar ao público acompanhada de um sorriso radioso, curvava-se sobre o guiador e desaparecia no meio de uma novem de fumo esverdeado.

A brincadeira correu-lhe bem por várias semanas; depois, um dia não se viu motocicleta nem capitão. Este encontrava-se no hospital, com uma perna partida [...]

 

Primo Levi, A Trégua, tradução de José Colaço Barreiros

13
Abr23

A quem pertence Borges?

Maria do Rosário Pedreira

Não é novidade para os leitores de Jorge Luis Borges (o enorme escritor argentino a quem, segundo muitas vezes se diz, não deram o Nobel da Literatura apenas por razões políticas) que ele não teve filhos e se casou já no final da vida com Maria Kodama, a mulher que o acompanhava havia anos, fosse como leitora (assim começou, ao que parece, a sua relação, pois Borges cegara bastante cedo), fosse como uma espécie de secretária (era ela que organizava a sua agenda). Acho que Maria Kodama foi também uma intérprete do mundo para Borges, pois li uma vez que viajou com ele ao Japão e lhe ia relatando tudo o que via; depois disso, ele escreveu um maravilhoso texto sobre esse país, como se facto tivesse podido ver o que cheirara, ouvira e sentira. Mas hoje o que eu queria dizer é que Maria Kodama morreu no final de Março e que ninguém encontra o seu testamento. Deste testamento constariam certamente os nomes das pessoas para quem seriam transmitidos os seus bens, nomeadamente os direitos de autor das obras de Jorge Luis Borges. E, se o documento não for encontrado, a propriedade será transferida para o Estado argentino, o que não é obviamente uma boa notícia. Por isso, tomara que a viúva do escritor tenha realmente feito um testamento a favor de alguém que saiba cuidar deste património tão especial e que apenas esteja a demorar a ser encontrado.

12
Abr23

Muito bom... ou talvez não

Maria do Rosário Pedreira

O jornal Expresso publicou a notícia de que as vendas de livros tinham aumentado significativamente em 2022 por causa dos jovens, sim, aqueles de quem habitualmente dizemos que não lêem. Pelos vistos, o fenómeno chamado BookTok, que é basicamente composto por uma espécie de comunidade de influencers que incitam os seus milhares de seguidores à leitura de livros numa plataforma chamada TikTok, frequentada maioritariamente por gente nova, fez aumentar as vendas e até obrigar à reedição e publicação de uns quantos títulos. Assim às primeiras, são, claro, boas notícias, se pensarmos que as redes sociais (mesmo as dos adultos) raramente têm servido de estímulo à cultura, sendo acima de tudo espaços onde as pessoas opinam sobre tudo, com ou sem conhecimentos, e até destratam, odeiam, criticam e magoam os outros. Porém, quando, todos contentes, vamos espiolhar os livros promovidos pelos tais «BookTokistas», enfim, a qualidade geral não abunda. E, embora uma professora de Português afirme que o importante é que os jovens leiam, não importa o quê, desde que se identifiquem, já eu torço o nariz, pois tenho demasiada experiência para saber que quem se vicia em maus livros quase nunca consegue mudar para os bons... Por isso, serão evidentemente boas notícias em termos de receita para as editoras, mas espero sinceramente que, com esse aumento inesperado dos lucros, possamos continuar a fazer os livros que não passam pelo TikTok mas são realmente os que interessam para mudar mentalidades e contribuir para uma boa formação em todos os sentidos.

11
Abr23

Em castelhano

Maria do Rosário Pedreira

A nossa conselheira cultural em Madrid, Patrícia Severino, faz coisas (já se mexia em Berlim!); e, além de ter criado uma residência para escritores, enviou em 2022 a Lisboa uma série de editores espanhóis que se reuniram com confrades portugueses e receberam algumas propostas de publicação. Foi certamente de um desses encontros que nasceu a ideia de fazer um livro colectivo sobre a nossa capital, intitulado Leer y Ver Lisboa, traduzido por Javier Hernández e publicado por La Umbria y la Solana, editora que já publicou, de resto, vários autores portugueses, como Mário Cláudio. Trata-se de uma antologia que conta com uma incrível panóplia de autores e ilustradores, muitos dos quais brilham actualmente em Portugal: Luísa Costa Gomes, Gonçalo M. Tavares, Ana Margarida de Carvalho, Patrícia Reis, Afonso Cruz, Ricardo Adolfo, David Machado ou Patrícia Portela ombreiam com os artistas plásticos de craveira internacional João Fazenda, André Carrilho, Paulo Galindro, Gonçalo Viana e muitos outros. Rui Cardoso Martins e Patrícia Portela apresentarão amanhã na capital espanhola, em conversa com Alfonso Almada, editor, esta maravilha na Casa da Galiza. Estão previstas outras apresentações ainda durante o mês de Abril.

 

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10
Abr23

As censuras

Maria do Rosário Pedreira

Quem viveu, leu e escreveu antes do 25 de Abril tem obviamente uma noção muito mais real do que foi a censura em tempos de ditadura e, até por isso, é mais reactivo às novas censuras que se têm recentemente estendido ao discurso e às práticas intelectuais sob a capa do politicamente correcto (mas indo muito além dele). Estamos, porém, a chegar a extremos insuportáveis, e é imperioso de uma vez por todas batermos o pé e dizermos que não se podem emendar, alterar, cortar ou apagar textos literários sem autorização dos seus autores ou herdeiros com a fraquíssima desculpa de que este ou aquele podem ofender com uma expressão mais dura ou uma palavra menos fofinha («gordo», por exemplo). Dois livros de um autor meu considerado «muito talentoso» foram recusados pela pessoa que assim o referiu por falarem «demasiado francamente» sobre certos assuntos (ai, a sensibilidade) e por ele não ser trans e ter escolhido incluir uma mulher trans na sua história (e, já agora, num livro galardoado com o Prémio Saramago). Mas já antes me acontecera uma tradutora norte-americana ficar altamente chocada por um texto que lhe dei para traduzir incluir uma passagem em que alguém entrava num pátio onde uma dúzia de miúdos «batiam na boca e gritavam como índios», porque falar assim dos índios era ofensivo para os leitores dos EU. Qualquer dia, as metáforas não se vão poder usar nem vamos poder ver os filmes de John Ford. Qualquer dia, não poderemos ler absolutamente nada e haverá mais gente a ler à procura de termos ofensivos do que a ler por prazer. Há que bater o pé e desfazer os equívocos. Há que olhar para o contexto e a época em que as coisas foram escritas. Um dia destes tiram-nos a Odisseia porque fala de mulheres que desviam homens casados ou têm pretendentes na ausência dos maridos... Ainda bem que aqui onde trabalho os livros dos Cinco e a Agatha Christie vão ficar como sempre foram. Ao menos isso.

06
Abr23

Uma jóia rara

Maria do Rosário Pedreira

Não sei já em que ano, mas não há muito tempo, assisti no CCB a uma bela encenação de Miguel Loureiro do texto que Marguerite Duras escreveu a partir de A Fera na Selva, do romancista Henry James. Estudei Henry James na faculdade (The Turn of the Screw, que cá estava traduzido como Calafrio) e nessa altura, ou pouco depois, li Daisy Miller (e já tinha visto um filme baseado neste livro, com a Cybill Shepherd, mas já nada lembro dele). Não tenho ideia de ter voltado ao autor, e sei lá se voltaria, não fosse ter saído recentemente uma tradução de A Fera na Selva feita pela minha amiga Ana Maria Pereirinha, com quem trabalhei muitos anos em várias editoras. E, de facto, fiquei de alma cheia com a leitura, porque esta novela de Henry James (nascido americano e morto inglês, se não me engano) é uma prenda para qualquer pessoa que goste de um livro em que não exista um grama de gordura; é uma concentração de absoluto génio (em linguagem e assunto) que não é para qualquer escritor (nem qualquer tradutor, mas esta é das boas!); uma jóia que não se pode pode perder e é para ir degustando porque o seu grau de sofisticação e labor estético não se adapta às pressas destes nossos tempos, nos quais muitos não conseguem ler seguidas mais de cinco ou dez linhas sem suspirar de cansaço. Este é um livro para os amantes de um texto difícil, pensante, misterioso, excepcional. Em boa hora regressei ao senhor James. Boa Páscoa!

05
Abr23

Poesia Reunida

Maria do Rosário Pedreira

Já não me recordo se cheguei a bater palmas aqui no blogue, mas, se não o fiz aqui, fi-lo em milhares de sítios, porque fiquei muito contente com a circunstância de o mais recente Prémio Pessoa ter sido atribuído a João Luís Barreto Guimarães. Em primeiro lugar, por ser escritor; em segundo, por ser poeta; em terceiro, por publicar na mesma editora que eu (sem contar com Vasco Graça Moura, acho que somos praticamente os únicos autores que caminhamos juntos desde a velhinha Quetzal na nova Quetzal); e, por último, por ser uma pessoa de quem gosto muito, está dito. Saiu entretanto um livrinho novo com uma capa espectacular (Vermeer é um dos meus favoritos!) deste novíssimo Prémio Pessoa, Aberto Todos os Dias, mas amanhã sairá também a sua Poesia Reunida, o que é uma excelente notícia. São 12 livros num, desde 1989 (tinha o poeta 22 anos) até hoje, de uma poesia que foi obviamente crescendo, mas nunca perdeu o apego delicioso ao quotidiano e até um certo humor muito subtil que é raro nos poetas portugueses que escrevem abaixo do Douro (sim, incluo-me nos deprimidos). Vão ser quase 400 páginas de ler e chorar por mais. E uma capa de sonho, claro. (Vermeer? Confirme!)

04
Abr23

Englanados

Maria do Rosário Pedreira

A pandemia baralhou-nos a vida, e várias vezes dou por mim a perguntar se uma coisa de que de repente me lembro foi antes ou depois dela; ou então que foi feito de um programa, uma loja, um bar, que antes da pandemia tinham público e de um momento para o outro foram esquecidos... Tenho ideia de que havia na televisão (na pública, parece-me) uma Gala anual dos Prémios da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) atribuídos a criadores de várias modalidades: cinema, televisão, música, teatro e por aí fora; mas um dia destes, espreitando o Facebook, dei-me conta de que um jornalista-editor se alegrava com o facto de um livro seu (A Biblioteca de Estaline) estar na primeira página de todos os suplementos culturais no mesmíssimo dia em que o respectivo tradutor (que também é escritor, Frederico Pedreira) tinha ganho o Prémio Autores (o da SPA) na Categoria de Poesia. Então e a gala na TV? Já não se faz? Fui ao site e descobri que nem se faz a festa de arromba, nem se avisam os editores e os premiados. É que David Machado e Ricardo Ladeira, os meus queridos autores, também tinham sido contemplados com o mesmo galardão na Categoria de Literatura Infanto-Juvenil com o belo, belíssimo, inteligente e de facto para todas as idades, O Meu Cavalo Indomável. Olha, festejámos nós! E não precisámos da gala nem da televisão para nada. Não perca o livro por nada deste mundo.

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03
Abr23

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Acabei ontem a leitura de uma obra bastante breve, com cerca de cem páginas, de um livro de uma autora que comecei a ler, percebo agora, tarde demais. Trata-se de Silvina Ocampo e do seu pequeno e único romance A Promessa (ela é sobretudo contista), que foi começado muitos anos antes da publicação e que foi sendo burilado aos longo dos anos e terminado pouco antes da morte da escritora. É um romance que Bruno Vieira Amaral apreciaria, julgo eu, por ter também uma lista de personagens que podem não se cruzar com mais nenhuma na narrativa, sem que isso afaste o leitor da compreensão do enredo, tal como acontece em As Primeiras Coisas. Mas a graça aqui está em que a evocação destas personagens pela narradora se faz como uma espécie de pedido de socorro, pois ela caiu de um navio acidentalmente e, enquanto nada ou boia no oceano, promete que escreverá sobre todas as pessoas que conheceu se um dia se safar daquela situação; e é assim que começa a rememorar, por exemplo, Irene, Gabriela (ou Gabriel, como lhe chama a mãe), o macho Leandro, por quem todas se apaixonam, as senhoras da sapataria, o Gusano e muitas outras figuras, com ou sem importância na vida da pobre náufraga. Vale muito a pena ler esta senhora, que esteve muitos anos na sombra do marido, Adolfo Bioy Casares, outro escritor argentino de mão cheia que, quando ia de férias, levava a vaca de cujo leite gostava...

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