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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

06
Out23

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

Naquele verão ninguém podia imaginar que esse seria o último verão. Eu lia poesia no alpendre. Lia César Simón e Pessoa. O meu sobrinho flutuava numa piscina da ToysRUs. Andávamos sempre todos de t-shirt e fato de banho. Por vezes saíamos para jantar com alguém ou para fazer compras. Encomendávamos paelhas no Bar Levante e íamos buscá-las. Eu tinha os olhos cheios de estrelas. O meu pai ensinou-me a programar os aspersores, a ligar a máquina depuradora de água e a encarar a hora da rega como uma forma de meditação zen. Ajudei-o a cortar a relva e os ramos dos ciprestes.

A minha avó, que morrera no ano anterior, surgia de vez em quando nos corredores com o seu avental com flores, com a sua caixa de costura nova. Ensinava-me a descascar batatas, a enfiar a linha na agulha, a fazer paciências. Ou pedia-me que lhe lesse um poema de Antonio Machado.

Naquele verão, o meu sobrinho comeu arroz pela primeira vez. E o meu irmão e eu demos de comer pela primeira vez a uma criança. Adormeci na espreguiçadeira debaixo da palmeira. Falei ao telefone durante horas junto à piscina. Cruzei-me com velhos amigos dos quais nada sabia há anos, e recordámos episódios da infância. Passaram-se muitas coisas e nenhuma com importância. Nenhuma parecia merecer uma só linha de um livro. Morreu a tartaruga do meu irmão e substituímo-la por outra. Convidei um amigo a subir ao meu quarto aproveitando o facto de todos terem saído. Trocámos confidências e dissemos mentiras no terraço fresco. Escrevi cartas de amor que foram correspondidas. Caíram ninhos e tentámos salvar as crias. A oliveira deu azeitonas. Nada do que nos comove termina. Tudo fica imobilizado, suspenso, como se alguma vez pudéssemos regressar.

 

Lola Mascarell, Nessa altura já cá não estamos, tradução de Rui Elias

04
Out23

Uma coisa leva a outra

Maria do Rosário Pedreira

Uma das coisas mais bonitas dos livros é que uns levam a outros. Li, por exemplo, o sarcástico e impiedoso Jules Renard por causa de O Papagaio de Flaubert, de Julian Barnes, e também me acontece regularmente um livro de determinado autor que não conhecia fazer com que leia os outros livros que escreveu antes e depois desse. Foi, de resto, o que me aconteceu recentemente com Tudo É Rio, de Carla Madeira, de que já aqui falei; e comprei pouco depois Véspera, da mesma autora, que me atraiu igualmente por ser uma história de gémeos e eu, sei lá porquê, adorar ler sobre gémeos (lembram-se de O Deus das Pequenas Coisas, de Arundhati Roy?). Neste romance, Caim e Abel, filhos de uma mulher extremamente beata e de um homem que gosta de beber, são dois gémeos idênticos que terão destinos bastante diferentes. Enquanto um brilhará em termos académicos e será feliz no amor, o seu irmão depressa se desinteressará da escola, indo trabalhar com o pai na loja de ferragens, tornando-se um tipo macambúzio e agressivo e, pior do que isso, querendo apenas saber da namorada do irmão. Pareceu-me um livro menos cuidado em termos da linguagem do que o que tinha lido e custou-me acreditar numa diferença tão grande entre os dois protagonistas com os mesmos genes, mas já li que há muita gente que gosta mais deste livro do que do outro, portanto, deve ser tudo uma questão de gosto. A autora, que vem ao FOLIO, vai estar na Livraria Déjà Lu na Fortaleza de Cascais no dia 8. Eu não estarei por perto nesse dia, mas a sessão deve ser bem interessante.

03
Out23

O homem que queria ser amado

Maria do Rosário Pedreira

Não é todos os dias que se publica um livro recomendado pelo Papa Francisco, e O Homem Que Queria Ser Amado e o Gato Que se Apaixonou por Ele, do filósofo italiano Thomas Leoncini, é um deles. Conta a história de Christian, um importante agente imobiliário que, no dia em que fecha um negócio de milhões, não consegue sentir a satisfação que esperava e se pergunta, pela primeira vez, se o dinheiro e o sucesso estarão mesmo na origem da felicidade. Nessa altura começa a receber umas misteriosas mensagens anónimas que o levam a empreender uma viagem física e espiritual, sempre acompanhado de Joshua, o gato ruivo que lhe apareceu em casa a pedir festas e não o deixa sozinho um só instante. Mergulhado num ambiente natural cheio de paz e beleza, Christian vai tomando contacto com algumas figuras que o farão reflectir sobre a perfeição que ele sempre tentou alcançar, bem como sobre a sua nova vida, calma, despojada e feliz, que um simples gato o ajudou a ter... O romance, que teve o Papa Francisco entre os seus primeiros leitores, é uma obra ideal para os tempos cínicos e velozes que vivemos, em que, para muitos, parece ser importante o que se tem, e não o que se é.

O HOMEM QUE QUERIA SER AMADO E O GATO QUE SE APAIX

 

02
Out23

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Já tinha comprado este livro há bastante tempo, mas, por causa das arrumações das estantes que o Manel fez recentemente, foi parar à prateleira e, perdendo-o de vista, esqueci-me dele por uns tempos. Foi só quando fiz um fim-de-semana de descanso para festejar os meus anos, que já são muitos, que o levei comigo. Chama-se Temporada de Furacões, escreveu-o a mexicana Fernanda Melchor e, entre outras distinções, foi finalista do National Book Award para ficção traduzida e do Man Booker International Prize no ano em que saiu nos Estados Unidos e em Inglaterra. É para quem tenha estômago, devo dizer, porque bem podia chamar-se «Feios, Porcos e Maus», já que, além da mãe beata de uma das personagens (o jovem Brando, que é tudo menos isso), não há ali realmente ninguém bom e que se recomende. Vivemos no romance o México do interior, paupérrimo, cheio de narcotráfico, onde todos se drogam com coca, comprimidos e marijuana, onde bebem, se prostituem, agridem, batem, vão à bruxa, tratam mal com a língua e com as mãos, desconsideram os mais velhos, enfim, é mesmo tudo feio, sujo e terrível. A história começa com um grupo de miúdos que encontram um cadáver num canal de rega e, a partir dali, vamos conhecer as várias versões do que aconteceu, sendo que nenhuma delas é boa, aviso, e todas metem sexo, loucura e morte. O livro é muito bom, apesar de não ser fácil de ler porque tem longos parágrafos e fica quase impossível interromper a leitura sem ser no final dos capítulos. Devedora de Rulfo, mas com voz própria, Melchor é um nome a reter.

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