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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

30
Nov23

Metais

Maria do Rosário Pedreira

Na mesma semana em que eu deitava uma última olhadela às provas de uma edição revista de Os Dias de Saturno, de Paulo Moreiras (a sair em princípios de 2024), estava a ler em casa um pequeno livro de poemas de José Carlos Barros (nascido em Boticas) intitulado Lítio e publicado numa colecção muito especial que se dedica aos elementos da Tabela Periódica, sob a batuta de João Pedro Azul, que deve ser assim uma espécie de químico-chefe. Foi curioso por variadíssimas razões, sendo a primeira o facto de o romance Os Dias de Saturno ter como tema central justamente a transmutação dos metais em ouro, a alquimia; mas também porque foram quase simultâneas essas duas leituras e as notícias, então vindas à baila, relacionadas com o lítio, sobre o que levou, no fundo, à queda do governo de maioria socialista. Foram metais a mais numa semana, mas, se no caso do romance de Paulo Moreiras esconderei para já o essencial, guardando-o para quando o livro estiver disponível, não resisto a partilhar um poema de Lítio que, sendo sobre lítio, é também sobre um outro metal, mais do nosso encanto. Leiam-no e desfrutem. Bom feriado.

 

De entre os metais

 

O ferro escolho de entre

os metais

em vez da prata,

do lítio, do

ouro,

em memória dos portões

dos pátios, do garfo

e da faca, das aivecas

do arado,

da grade

da varanda,

como exemplo do que está

ao serviço

das causas

e das pessoas

comuns.

29
Nov23

Ainda Eduardo Lourenço

Maria do Rosário Pedreira

Num ano em que há tantos centenários de autores para comemorar (Eugénio de Andrade, Cesariny, Mário Henrique Leiria, Natália Correia... até o italiano Calvino), é fácil deixar alguém para trás. Graças a Deus, isso não aconteceu ao nosso querido Eduardo Lourenço, que merece ser lembrado por todas as razões e mais algumas, até porque era uma pessoa excepcional. Mas é pelo Pessoa (e não pela sua pessoa) que a Casa Fernando Pessoa (desculpem lá as repetições) promove no dia 7 de Dezembro, com a colaboração do investigador Pedro Sepúlveda,  um colóquio dedicado aos «tópicos pessoanos» do ensaísta e estudioso Eduardo Lourenço. A actividade decorre entre as 10h00 e as 18h00, é de entrada livre e conta com a participação de vários investigadores: Carlos Neto, Fernando Cabral Martins, Flávio Penteado, Joana Meirim, João Dionísio, Nuno Amado, Pedro Sepúlveda, Richard Zenith e Vicenzo Russo. As sessões consistem em debates com dois ou três intervenientes e um moderador, e o programa pode ser consultado na página da CFP.

28
Nov23

As capas

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes, estava a lembrar-me junto de alguém do ofício como eram feitas as capas quando começámos a trabalhar neste mundo dos livros, e até parecia mentira que tivesse existido um tempo assim tão atrasado. Sem contar com as capas desenhadas por pintores consagrados (mesmo na velhinha colecção Vampiro), e pagas generosamente (segundo me contam), os artistas gráficos não tinham outro remédio senão fazer tudo à mão; e recordo uma colecção de obras de António José Saraiva que seguiam um modelo que tinha letras pretas e uma pequena ilustração sobre um fundo creme, fundo esse que (os leitores não o sabiam) tinha por base uma cartolina com areia da praia lá colada, que era usada em todos os livros da série e guardada num armário para que se não perdesse. Doutras vezes, recortavam-se imagens de revistas (os bancos de imagem, se já existiam, andavam com certeza distraidíssimos...) e colavam-se numa cartolina, com outras, de forma a criar uma composição alusiva à história que o livro contava, que depois se fotografava; mas, em muitos casos, a solução era ir pelo mais simples: escolhia-se uma única cor de fundo e outra para o lettering... e já estava! Hoje, com as exigências do marketing e para se sobressair entre os milhares de livros que se publicam todos os anos, as capas têm mesmo de ser chamativas e, para isso, vistas à lupa, pensadas por todos e discutidas às vezes por quem nem leu nada do livro, mas sabe que aquelas cores vão passar despercebidas numa mesa. E quantas vezes alguém nos pede para acrescentar uma frase bombástica que explique o livro a quem eventualmente precisa de um impulso para o comprar? Enfim, e agora também se tornou comum, tratando-se de autores estrangeiros, quererem aprovar a capa e às vezes exigirem duas ou três semanas para responder. Bem sei que o trabalho é hoje mais cuidado e profissional, mas, caramba, para quê tanta coisa à volta de uma simples capa?

27
Nov23

Biografias

Maria do Rosário Pedreira

Lembro-me de que, quando comecei a trabalhar em edição, os leitores de biografias eram essencialmente masculinos e quase todos os biografados personalidades políticas. A partir dos anos 1980, começaram a aparecer romances biográficos, como os que escreveu, por exemplo, Mário Cláudio sobre Amadeo, Rosa Ramalha e outras figuras, e também biografias, romanceadas ou não, mas sempre de leitura fluente como se de ficção se tratasse. Este género literário ganhou asas e público, e hoje, a par do romance histórico, é dos mais lidos em Portugal, sobretudo quando se dedica à nossa própria História, constituindo um meio lúdico de a conhecer sem o peso de sentirmos estar a regressar à escola. Mas as figuras literárias também não podem ser deixadas de fora e, recentemente, fizeram muito sucesso em Portugal as biografias de Pessoa, por Richard Zenith, a de Agustina (O Poço e a Estrada) pela pena de Isabel Rio Novo, a de José Cardoso Pires (Integrado Marginal), por Bruno Vieira Amaral, e a de Natália Correia (O Dever de Deslumbrar), já com três edições, da autoria de Filipa Martins, que não tem parado de percorrer o País para falar do seu exaustivo retrato de Natália. E houve também quem desse atenção à literatura de outros países, como Cristina Carvalho, que se dedicou a William Buttler Yeats, ou a professora Teresa Montero, que escreveu uma nova biografia de Clarice Lispector (já biografada por Benjamin Moser). Vamos lá ver o que nos reserva este final de ano. Ler e aprender.

24
Nov23

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

Escrever é o acto de pensamento mais justo. Obriga à escolha cuidadosa das palavras, a recuperar o pensamento que estava fixado e a fazê-lo voltar a mexer-se. Muitas vezes faz com que terminemos com o resultado contrário ao que tínhamos como certo antes de escrever a primeira palavra. Escrever crónicas obriga a um pensamento constante sobre o que nos rodeia, mas o que nos rodeia nem sempre é companhia aconselhável, e pensar sobre isso pode aumentar – para o bem e para o mal – o que antes não se via. Quando me convidaram para escrever crónicas semanais na revista Sábado (que sai à quinta, já agora), foi essa a minha dúvida: quais seriam as consequências de escolher mais uma maneira de ver de perto as coisas que me aleijam? Para me contrariar, aceitei. Enquanto escrevia dei por mim muitas vezes a pôr em causa o que pensava antes e a pensar sobre o que isso quereria dizer. Não cheguei a conclusão nenhuma, mas ao preparar este livro percebi que as coisas dentro da minha cabeça fazem muito barulho. Ordená-las e escrevê-las é ainda o último reduto de sanidade contra esse ruído. Este livro é uma compilação dessas crónicas que escrevi e que agora vieram para aqui viver todas juntas.

Bruno Nogueira, Aqui Dentro Faz Muito Barulho, com prefácio de Miguel Esteves Cardoso e ilustrações de Juan Cavia

23
Nov23

Presentes

Maria do Rosário Pedreira

Como devem calcular (e eu já aqui disse), recebo centenas de livros todos os anos; a maioria são originais de ficção com vista a uma análise, mas também chegam livros em edição de autor; ou publicados por editoras pequenas, que não têm possibilidade de fazer promoção e marketing, pedindo um comentário; e até romances impressos por essas empresas que cobram aos autores ou os fazem comprar meia tiragem dos seus livros e depois quase não os distribuem. Há de tudo e, regra geral, as pessoas estão interessadas numa opinião, em publicidade, ou querem simplesmente republicar porque estão descontentes. Mais raramente, contudo, chegam livros publicados por editoras sérias, apenas como bons presentes. Quando são de poesia, é mais fácil agradecer a atenção ao autor com a minha leitura, porque para a prosa é mesmo muito difícil ter tempo. E um dia destes aconteceu-me receber um destes bons presentes (o título chamou logo por mim: a poesia vende pouco) de Luís Soares Barbosa (já com vários livros publicados); e, ao afastar a capa, logo na badana, o poema tocou-me de forma tão especial, senti com ele tanta afinidade e comoção, que não resisto a partilhá-lo aqui. Se gostam de poesia, este é um livro que não devem perder.

 

trago os meus mortos à flor da pele.

perigosamente inclinados

para dentro.

 

ocupam em mim todo o silêncio.

 

regra geral, não basta:

é preciso juntar os negativos,

certos quartos em pranto,

uma frase

suspensa.

 

os que me morreram aguardam pacientes.

 

comungamos trivialidades épicas,

suas mãos de outrora dissecam as noites,

cautelosas.

22
Nov23

Com Calvino

Maria do Rosário Pedreira

A Associazione Socio-Culturale Italiana del Portogallo Dante Alighieri (ASCIPDA), que tem por objectivo divulgar e promover a língua e a cultura italianas, convidou-me para participar de uma das sessões que pretendem celebrar o centenário do nascimento de um dos maiores escritores italianos do século XX, Italo Calvino, autor de livros inequivocamente marcantes como As Cidades Invisíveis ou Se numa Noite de Inverno Um Viajante (e a quem falhou inexplicavelmente o Nobel da Literatura, porque ele, sim, era um inventor de livros). A partir da sua obra póstuma, publicada em Portugal com o título Seis Lições para o Próximo Milénio  (Lições Americanas no original, pois eram textos de conferências que teriam lugar na Universidade de Harvard), a série de encontros Calvino: Caminhos Invisíveis toma como tema cada uma das palavras-chave destas lições (que são, simultaneamente, algumas das principais questões que deveriam mobilizar os escritores do século XXI). A minha palavra é «Visibilidade», mas não pensem que tem que ver com a visibilidade que hoje se exige aos autores, coitados, «obrigados» a mostrar-se em todo o lado para poderem vingar. Não, no contexto da lição de Calvino, a visibilidade é a forma de tornar algo visível dentro da cabeça, de imaginar, de conceber outros mundos que ainda não existem, uma capacidade imprescindível em quem quer ser um criador de literatura. Amanhã estarei no Porto a celebrar o escritor italiano e, numa conversa com o professor Paolo Andreoni, falarei de inspiração, imaginação, Rosa Montero, psicose, Patti Smith (calculem!) e, claro, Dante e Calvino e a criação de mundos. Se estiverem pelo Porto, apareçam por lá . Até porque serão lidos excertos belíssimos da lição de Calvino.

Calvino_23 nov (002).png

21
Nov23

À mesa

Maria do Rosário Pedreira

Em muitas casas portuguesas, e não só, era costume pendurar na sala de jantar uma reprodução de A Última Ceia, de Da Vinci, ou outra obra de arte mais moderna que a evocasse. Em casa dos meus pais (que nem sequer eram casados pela Igreja) havia uma bonita gravura a preto e branco com uma moldura cor de prata trabalhada, mas em muitos outros lares de família que conheci enquanto fui crescendo, multiplicavam-se as versões desta ceia de Jesus com os seus discípulos. Mas alguém alguma vez se lembrou de perguntar o que teriam ceado nessa noite? Pois bem, existe agora um livro que talvez nos levante o véu sobre esta matéria. Chama-se A Mesa de Deus: os Alimentos da Bíblia, assina-o Maria Letícia Monteiro Cavalcanti, jornalista e crítica gastronómica, e nasceu de uma conversa entre a autora e o poeta e cardeal José Tolentino Mendonça, que assina o prefácio. A investigação levou dez anos a ser feita, mas agora podemos ficar a par das refeições e de todos os alimentos presentes no Antigo e no Novo Testamento e, como diz o texto da editora Quetzal, «entrar na Bíblia pela porta da cozinha». A mim está a crescer-me água na boca e nem sequer gosto de livros de receitas. E desse lado, há curiosidade? Não é todos os dias que nos sentamos à mesa com Deus.

A Mesa de Deus.jpg

20
Nov23

O Brasil em Portugal

Maria do Rosário Pedreira

Na semana passada foi anunciado mais um vencedor do Prémio LeYa (que é para romances inéditos em língua portuguesa). Nesta edição, concorreram mais de 900 livros vindos de muitos países do mundo, incluindo os Emirados Árabes, denotando que aí vive algum escritor  ou escritora de língua portuguesa; só obras enviadas do Brasil foram mais de 500! E, pela terceira vez em quatro anos (durante o ano da pandemia não se atribuiu o prémio), a obra vencedora foi justamente de um autor brasileiro. Depois de Itamar Vieira Junior (que começou com o Prémio LeYa a sua jornada de sucesso, tendo vendido só no Brasil mais de 700 000 exemplares de Torto Arado, hoje vendido em mais de vinte países), Celso Costa venceu com um romance que evoca a importância da educação intitulado A Arte de Driblar Destinos e, há dias, foi Victor Vidal o autor de Não Há Pássaros Aqui (que terei o prazer de ler pela primeira vez não tarda). Curiosamente, a última edição do Prémio Literário José Saramago contemplou a obra de outro brasileiro, Rafael Gallo, Dor Fantasma; e até o recentíssimo Prémio Armando Baptista-Bastos, instituído pela Junta de Freguesia de Santa Maria Maior em Lisboa e cuja primeira edição aconteceu este ano, foi dado a um jornalista brasileiro residente em Portugal há vários anos, Álvaro Filho, com o livro Disfarça, Que Lá Vem Sartre. É o Brasil a fazer das suas em Portugal!

17
Nov23

Pensar palavras

Maria do Rosário Pedreira

Às vezes dou comigo a pensar em palavras e ando com elas imenso tempo na cabeça. A minha avó nunca dizia «estore», usava a palavra «gelosia», e curiosamente «gelosia» é também o vocábulo italiano para «ciúme»: um ciumento é um «geloso», palavra que se aproxima do «celoso» espanhol, que tem o mesmo significado, por sua vez próxima do termo português «zeloso», que hoje tem pouco que ver com ciumeiras e com as gelosias através das quais podemos espreitar o que andam a fazer as pessoas que nos provocam ciúmes. Será que uma «gelosia» tem realmente que ver com a outra? Confesso que achei graça à imagem da espreitadela, mas não estou certa. Por outro lado, achei um dia destes que também poderiam ser aparentadas as palavras «asilo» e «exílio», uma vez que os exilados pedem muitas vezes asilo nos países para onde fogem ou são enviados, e ao ouvido o som nem é assim muito diferente; mas aqui a etimologia é claramente distinta: enquanto o asilo, na base, quer dizer refúgio, lugar protegido, o exílio está ligado a degredo e banimento e inclui a partícula «exil», que indica desde logo algo exterior, que fica fora. E, pronto, hoje era só isto.

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