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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

03
Jan24

Livros no sapatinho?

Maria do Rosário Pedreira

Recebi um postal de Natal maravilhoso de uma amiga editora, especialmente indicado para leitores furiosos. Diz qualquer coisa como «O meu presente de Natal és tu», mas logo abaixo acrescenta numa letra mais pequena: «Estava a brincar; tem de haver pelo menos alguns livros no sapatinho.» Sim, imagino que para os leitores deste blogue tenha havido muitos livros no sapatinho, alguns repetidos, suspeito, porque quando estamos demasiado a par do que vai saindo por vezes é difícil não nos darem livros que já temos. Comprei uns quantos títulos, eu também, para eu ou a minha mãe oferecermos a cunhadas, sobrinhos, uma irmã e amigos. Quase todos eram livros que eu própria desejava que me oferecessem, mas não tive grande sorte: não recebi de presente um único desses romances (aquele com que estava mais curiosa vou ter mesmo de o comprar; tratava-se de Não Tenho Casa Se Esta não For a Minha Casa, de Lorrie Moore). Não me deram, de resto, senão um livro (um apenas, raios!), porque, lá está, devem pensar que estou fartinha de livros por causa do trabalho e quero é camisolas, colares, discos, perfumes, velas e objectos para a cozinha (deram-me uma caixa nova para o pão, o que foi óptimo, porque a antiga estava partida, mas não foi surpresa porque fui eu a avisar que precisava de uma). Enfim, recebi, feliz da vida, o livro do astrofísico Hubert Reeves sobre flores silvestres, o que pode parecer estranho, mas a verdade é que interesso verdadeiramente por botânica, embora prefira árvores a flores. (Amanhã então falarei deste belo Eu Vi Uma Flor Selvagem, que é belíssimo.) E os senhores Extraordinários, que livros vos deram?

02
Jan24

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Ora sejam bem-vindos a este espaço dedicado aos livros neste novo ano de 2024, que vai ter mais um dia do que o anterior (todos os nascidos a 29 de Fevereiro podem finalmente festejar o aniversário). E, como sempre, falemos do que andamos a ler neste primeiro dia útil do mês. Por certo já aqui devo ter dito que uma das melhores surpresas que tive na minha vida de leitora foi um romance de estreia excepcional chamado A Solidão dos Números Primos, do italiano Paolo Giordano. Quanto a mim, nenhum dos livros seguintes do autor igualou o primeiro em qualidade, mas leio neste momento o mais recente, Tasmânia, que vem referenciado como um dos melhores livros do ano em Itália. Começa em Paris, em 2015, pouco depois dos atentados que vitimaram uma série de jovens que assistiam a um concerto, e, na parte em que vou, atravessa o ano de 2018 na cidade de Roma (mas já vi ao folhear que vai até 2021); somos levados pela mão de um narrador que gostaria de ser pai (mas Lorenza, a mulher, já tinha um filho do casamento anterior) e que, tendo estudado Física (como o autor), se dedica sobretudo ao jornalismo e a escrever um livro sobre um tema de que já ninguém quer ouvir falar (a bomba atómica). As personagens secundárias (um cientista especializado em nuvens, um colega de curso, uma activista climática, um padre que se apaixona por uma miúda), são todas muito bem desenhadas e bem actuais, exactamente como os temas que se vão cruzando e que não deixam de lado algumas injustiças causadas pelo politicamente correcto e pelas questões da paridade. Veremos onde é que isto vai dar. A tradução é de Vasco Gato.

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