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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

30
Abr24

Camões

Maria do Rosário Pedreira

Celebram-se em 2024 os 500 anos do nascimento de Luís de Camões, mas, curiosamente, não se tem ouvido falar muito daquele que é sem qualquer dúvida o maior poeta português, o mais prolixo e variado, aquele cuja vida foi realmente uma aventura mas cuja obra demonstra um talento que muito dificilmente será ultrapassável. A editora Guerra e Paz levou o assunto a sério, e ainda bem, dando à estampa, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, a obra de um outro autor de renome, Jorge de Sena, sobre Camões; e, de uma assentada, lança O Pensamento de Camões (quatro ensaios sobre a lírica e a épica do mestre), Os Lusíadas e a Visão Herética (obra que inclui a versão integral d'Os Lusíadas apresentada por Sena) e Babel e Sião, que inclui um conto de Sena sobre Camões escrevendo o belíssimo Sôbolos Rios. E promete para breve mais dois volumes: Cartas e Poemas e ainda o segundo volume do Reino da Estupidez, onde podem ser encontrados mais dois ensaios sobre o grande Luís Vaz. Espera-se ainda, na Contraponto, a biografia do poeta pela pena de Isabel Rio Novo, que deve estar a chegar por estes dias. Não se fala, mas pelo menos publica-se. Caramba, o homem merece.

29
Abr24

Um género sem género

Maria do Rosário Pedreira

Com a minha experiência ao longo dos anos, vejo-me mais ou menos obrigada a concluir que o género denominado «thriller» (não consigo traduzir, desculpem, e não, não é um policial), com bastante suspense, reviravoltas inesperadas e o efeito de nos deixar por vezes nervosos ou ansiosos, é mais lido por homens do que mulheres. E, porém, encontro no The Guardian um interessante artigo que refere que muitos dos mais significativos thrillers psicológicos foram escritos justamente por mulheres. Desde logo, o agora bastante badalado Ripley (O Talentoso Mr Ripley, assim se chama o livro), assinado por uma mestra do suspense, Patricia Highsmith, que inventou esta personagem tremenda e sonsa que se aproxima de um velho colega rico, o mata e depois se faz passar por ele, vivendo a vida de rico que sempre ambicionou. Mas também há uma menção a Daphne du Maurier e ao seu incomparável Rebecca, de que Hitchcock fez um filme inesquecível com Laurence Olivier no papel do viúvo que traz a nova mulher para a sua propriedade isolada, onde a governanta não a deixará sossegada, contando constantemente como era no tempo da falecida. Podemos ainda falar de livros como A História Secreta, de Donna Tart, sobre um grupo de estudantes que mata um colega logo na primeira página, ou Em parte Incerta, de Gyllian Flynn, ou mesmo o mais recente best seller A Rapariga no Comboio, de Paula Hawkins. Afinal, parece que também há mulheres dadas ao género, contrariando os dados oficiais...

26
Abr24

Um regresso difícil

Maria do Rosário Pedreira

Numa manhã de 1970, numa aldeia montanhosa italiana, a professora Silvia sai de casa, compra o jornal e, em vez se dirigir para a escola, penetra no bosque e desaparece. No jornal, leu a notícia terrível de que uma das suas alunas, de apenas onze anos, se suicidou – e sente-se tão culpada que não consegue encarar ninguém. A aldeia em peso procura-a por todo o lado, mas, à medida que os dias passam, fica claro que é talvez demasiado tarde para a salvar. Silvia vai ser, na verdade, encontrada faminta e descabelada por um rapazinho solitário, Martino, que chegou à aldeia há pouco tempo para se tratar da asma e costuma passear no bosque. Consciente de que a professora não está pronta para regressar ao convívio da família e dos alunos, será Martino quem lhe trará água e comida e quem conseguirá fazê-la contar-lhe tudo, prometendo não revelar o seu esconderijo a ninguém. Baseado numa história real, a partir de relatos de família e artigos de jornais, Voltar do Bosque – que evoca a prosa de Pavese – é a história de um trauma, de uma amizade improvável e da comunhão do ser humano com a natureza. Nomeado para o Prémio Strega em Itália em 2023, é um romance de estreia absolutamente excepcional.

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24
Abr24

Escrever Um Livro

Maria do Rosário Pedreira

Conheci José Couto Nogueira há muitos anos, se calhar na mesma altura em que publicou um romance que, salvo erro, se chamava Um Táxi em Nova Iorque, contando a sua experiência pessoal na Grande Maçã como motorista de um táxi amarelo. Depois disso, ele não publicou muito mais, passando a dedicar-se aos cursos para quem quer escrever e apresentar um livro a um editor sem meter o pé na argola. Já há muitos anos que orienta estes cursos no El Corte Inglés ao longo de seis sessões em horário pós-laboral, convidando especialistas em vários assuntos (revisão, edição, etc.) para ajudarem à festa e tornarem tudo mais útil e realista. Eu fui uma vez falar de autores portugueses e editing e gostei. Este ano, o curso terá a visita de dois autores que irão falar do seu percurso pessoal e profissional, tornando a coisa ainda mais apetecível. A partir de 6 de Maio, sempre às 18h30, haverá lições também nos dias 13, 20 e 27 de Maio e 3 e 17 de Junho (10 é feriado). Se quer aprender os mandamentos da literatura e os pecados dos escritores, inscreva-se.

P.S. 25 de Abril sempre! (Até sexta!)

23
Abr24

Dia Mundial do Livro

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é Dia Mundial do Livro (aniversário de Cervantes e Shakespeare!) e a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros organiza uma celebração digna desse nome no Largo do Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, para a qual convida todos aqueles que estão ligados ao livro, embora de formas distintas: escritores, tradutores, revisores, paginadores... e, claro, leitores, os principais responsáveis por ainda haver livros. As comemorações  iniciam-se às 18h00 e vai haver música e conversas sobre esta coisa maravilhosa chamada livro, cuja morte já foi anunciada muitas vezes, cujo desaparecimento foi uma ameaça em vários períodos da História da Europa, mas que parece continuar aí de pedra e cal, vivinho da silva, o que são óptimas notícias para os que visitam este blogue. Por isso, se tiver vontade de passar um fim de tarde com muita gente com quem tem afinidades, não falte. A entrada é livre.

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22
Abr24

Personagens

Maria do Rosário Pedreira

Não leio muito teatro, embora já o tenha feito regularmente noutra época da minha vida; mas gosto dos Livrinhos de Teatro publicados pelos Artistas Unidos (ah, que falta nos faz o Jorge Silva Melo, que era tão bom, entre outras coisas, a apresentar livros); são uns livrinhos pequenos que se metem no bolso ou na carteira, andam connosco sem pesar e são ideais para quando vamos ao médico ou à fisioterapia (o meu caso) e temos de esperar às vezes meia hora pela nossa vez. Recentemente, André Murraças mandou-me um destes livrinhos com três peças suas (Sombras Andantes, O Triângulo Cor-de-Rosa e Fronteiras); e, com pena de não ter visto as peças (porque o texto promete), fiquei presa à última das três, porque, para mim, funciona um pouco como um estudo de personagens (tal como acontece com as «fichas» do romance As Primeiras Coisas, de Bruno Vieira Amaral) e deveria ajudar aqueles que dão cursos de Escrita Criativa, por exemplo. Os lugares vão mudando (podemos estar num comboio para Auschwitz, em Nova Iorque, em Berlim ou num barco de migrantes a caminho de Lampedusa) e, em cada um deles, uma ou mais personagens são-nos apresentadas pelo autor-encenador-narrador com grande mestria. Os casos são muito variados: uma das primeiras pessoas que mudaram de sexo no mundo; um português que fugiu da Guerra Colonial saltando a monte para França; uma pretensa espia que ficou detida em Ellis Island; ou mesmo Harry Houdini. Muito eficaz e imaginativo, pode ser lido como um conjunto de microficções e também por quem gosta de ver como se constrói uma personagem a três dimensões.

19
Abr24

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

Foi nessa contemplação que apareceu num canto escuro uma mulher desagasalhada a embalar uma boneca, parecia alheia a todos os conceitos, métodos e simbologias da noite. Transferi para ela a compaixão, a mesma que eu teria para a mãe de Deus. Mãe é mãe.

Flor regressou, parou junto da mulher — parece que nos vinha observando — e entregou-lhe uma moeda de um dinheiro, «Noite feliz», desejou-lhe, deu-me a mão e tirou-me para o adro onde homens e mulheres recém-comungados desfrutavam do salutar parlatório pós-missa, todos de cabeça coberta por lenços e chapéus, não fazia sol, mas os catequizaram que nem só do sol e da chuva deve a aura ser protegida, é mister também resguardá-la do enguiço do próximo e das botas de Satã.

_ Onde arranjaste o dinheiro?,

perguntei-lhe com um riso inquisitório.

_ No pecado,

respondeu-me.

Sem mais cavaco, agarrou-me novamente pela cintura, ajustou seu passo esquerdo com o meu direito e bamboleámos rua acima, felizes por voltarmos aos dezassete, trinta anos depois.

 

Mário Lúcio Sousa, O Livro Que Me Escreveu

 

P.S. O lançamento é hoje, e tem música! Estão todos convidados. Apareçam!

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18
Abr24

Memórias

Maria do Rosário Pedreira

Há excelentes livros de memórias, embora não deixe de confessar que é um género que raramente visito, sempre condicionada pelo ofício de lançar autores de literatura e ter de acompanhar o que por aí se vai escrevendo em matéria de ficção. Mas estas Memórias Minhas, de Manuel Alegre, podem ser lidas aos bochechinhos, pois são, antes de tudo, feitas de pequenos fragmentos muito legíveis, embora arrumados depois em capítulos com temas específicos, maiores ou menores, o que facilita muito irmos direitinhos ao que nos interessa e também nos permite folhear e ir lendo aqui e ali uns parágrafos (eu, pelo menos, já li assim muitos episódios relacionados com a sua candidatura à Presidência da República e com a escrita e o mundo dos livros, que foi por onde quis começar). Importante é também o facto de o poeta-político nos dar um testemunho privilegiado quer do país cinzentão da ditadura que o mandou à guerra, perseguiu e exilou, quer do período democrático, no qual teve esperanças e desilusões, simpatias e desavenças, incluindo com os do seu partido. Esta é, pois, uma viagem para todos os que querem revisitar o Portugal dos últimos sessenta ou setenta anos e a sua história social e política, mas também alguns episódios pessoais que sempre tornam mais coloridos os livros de memórias.

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17
Abr24

Mãe e filha

Maria do Rosário Pedreira

Mãe e filha chamam-se curiosamente Annie John, que é também o nome do romance onde ambas existem. Um livro da autoria da escritora Jamaica Kincaid, bastante conhecida (e já pensada muitas vezes para o Nobel da Literatura) lá fora, mas só agora lançada em Portugal com tradução de Alda Rodrigues. Kincaid, nascida em Antigua, caribenha e americana, ambienta a sua história nesta ilha, olhando para uma menina a crescer. Primeiro, vemo-la loucamente apaixonada pela mãe (que é trinta e cinco anos mais nova do que o marido, um construtor que já teve outras mulheres, mas a mais bonita de todas): acha-a linda, beija-a, abraça-a, a mãe é tudo para ela, embora também haja espaço para as colegas de escola, onde a pequena Annie é adorada e idolatrada, até porque é uma excelente aluna, e usa essa adoração como poder. Mas um dia chega a adolescência, como uma espécie de doença que atira Annie para a cama e a faz regredir inclusivamente no amor pela mãe, que não lhe dedica talvez o tempo e a atenção que a filha julgava merecer, até porque a vemos continuamente a lavar, cozinhar, estender roupa, ir às compras... E a descrição desse período tremendo de adaptação a uma nova condição feminina é realmente notável, raras vezes abordado de uma maneira pungente, que inclui mãe e filha num conflito mais silencioso do que gritado, mas grave e cheio de lágrimas. Vale a pena ler esta escritora, vamos acompanhá-la decerto noutros romances.

16
Abr24

Arte, cultura e humanismo

Maria do Rosário Pedreira

Na semana passada escrevi aqui um post sobre escritores da mesma família e, mais especificamente, pais e filhos escritores. Os Extrardinários fizeram o favor de me lembrar muitos exemplos que não me tinham ocorrido (e alguns sem desculpa, pois até conheço as pessoas), entre os quais os de Sophia de Mello Breyner e do seu filho Miguel Sousa Tavares ou da sua filha Maria Andresen. Mas o filho de Miguel, neto de Sophia, de seu nome Martim (Sousa Tavares), também acaba de publicar um livro, perpetuando os autores da família; intitulado Falar Piano e Tocar Francês (é mesmo assim, não julguem que me enganei) parte da sua experiência como divulgador cultural e músico para reflectir sobre como hoje, um tempo de ecrãs e leituras de cinco linhas, nos relacionamos com a arte nas suas mais diversas formas: uma cena de um filme, um poema, uma partitura... Lançado publicamente ontem, a obra fala do que, por exemplo, o olhar de alguém que visita um museu acrescenta à pintura que está na parede, da mesma forma que quem lê um poema lerá um poema diferente de cada vez que a ele volte e diferente do de outra pessoa que igualmente o leia. Uma obra de arte precisa, em suma, de dialogar, e são estes diálogos com os objectos artísticos da sua preferência que leremos neste livro de Martim Sousa Tavares que foi apresentado por Salvador Sobral.

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