O que ando a ler
Há uns tempos, por causa de uma crónica que eu tinha escrito sobre uma empregada que os meus pais tinham na minha infância a quem eu chamava «mamã Fernanda», fui convidada a integrar um painel de discusssão na Biblioteca de Oeiras sobre o trabalho doméstico e partilhei a mesa com Manuel Abrantes, um investigador que estuda o este assunto. Gostei de o ouvir e de o conhecer e soube mais tarde que, longe de se limitar aos escritos académicos, estava a atrever-se a uma ficção que se centrava numa rapariga que vem da aldeia, ainda antes do 25 de Abril, para, como então se dizia, «servir» em Lisboa. Pois o romance saiu há pouco, chama-se Na Terra dos Outros e foi lançado nas Correntes d'Escritas, onde tive a oportunidade de pedir o autógrafo da praxe. Gira em torno de uma personagem feminina, Maria do Carmo, que toda a sua vida limpa e trata de casas, mesmo quando emigra com a família para Roterdão; desde senhoras finas e antipáticas até patroas companheironas com boa onda, passando por casos bicudos em que se torna involuntariamente cuidadora de um homem de idade com uma doença degenerativa, tudo calha a esta pobre mulher comum, igual a tantas, que é uma anónima a quem talvez só mesmo Manuel Abrantes dedicasse um romance. Mas o final grito do Ipiranga é uma boa surpresa e João Tordo dedica-lhe um elogio. Uma ficção que é também um documento e dá que pensar...

