Imaginem-na com uma bandolete vermelha e um par de calças axadrezadas.
É 1985, e a Anna está na escola: sentada na primeira fila, os dedos manchados de tinta, muito atenta enquanto o professor de matemática explica a teoria dos conjuntos.
O homem tem cerca de quarenta anos; está de costas, tem uma mão no bolso e com a outra escreve no quadro: A ⊂ B.
Algum de vocês sabe o que significa aquele símbolo que desenhei entre a letra A e a letra B?, pergunta, virando-se para a turma. Caminha entre as mesas lentamente, chega ao fundo da sala de aulas e volta para trás, aproxima-se do estrado, apoia um pé no degrau, vira-se de novo para olhar para os alunos.
Silêncio.
O professor ostenta um sorriso malicioso, sarcástico: Não sabem porque são burros, ou era a vossa professora da escola primária que era burra?
Imaginem que o homem permanece imóvel por alguns instantes. E que depois recita aborrecido: A é um subconjunto de B, portanto, todos os elementos do conjunto A pertencem ao conjunto B. Dúvidas?
Silêncio.
Bem! Então, qual de vocês é capaz de dar-me um exemplo?
Silêncio.
Quantos de vocês representam o subconjunto “burros” do conjunto “turma”? O professor arregala os olhos.
Imaginem que caminha de novo entre as filas, fixando um a um os alunos, só os rapazes, evita as raparigas, e que, de repente, contudo, para à frente de uma morena e diz-lhe que vá ao quadro. E que, mal ela se levanta, ele inclina a cabeça e observa-a a andar.
Michela Marzano, Continuo à espera de Que Me Peçam Desculpa, trad. Sara Peres
Há muitos escritores brasileiros de excepção – desde logo Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Jorge Amado, e tantos outros; mas as mulheres que se celebrizaram por escrever romances no Brasil são menos conhecidas do público em geral – e se calhar não nos vêm logo à cabeça quando pensamos, grosso modo, em ficcionistas do país irmão. Excepto, claro, se se tratar da grande Clarice Lispector. Nascida na Ucrânia, judia, estudou Direito mas trabalhou sobretudo como jornalista e tradutora. Inventou um estilo que não se parece com mais ninguém, mesclando cenas da vida normal e doméstica com uma respiração ofegante e transgressora, com palavras-gritos, com um lado absurdo mas absolutamente humano (desculpem se pareço pretensiosa com estes termos vagos, mas é que ela é muito mais sensação do que racionalidade, pelo menos para mim, que fiquei logo marcada por Perto do Coração Selvagem). Escreveu a biografia desta “pernambucana” o fenomenal Benjamin Moser (está disponível em Portugal) e a óptima notícia é que acabam de sair, com um grafismo espectacular, quatro livros seus de uma vez: o romance que acabei de mencionar e ainda Água Viva, A Paixão Segundo G.H. e Um Sopro de Vida. Leiam-na!
Já aqui confessei que sou uma verdadeira fã da obra de Elizabeth Strout, a escritora norte-americana que começou a escrever bastante tarde para os parâmetros habituais mas que, em pouco mais de meia dúzia de romances, se firmou como um dos principais nomes da literatura contemporânea. Ainda ontem, numa sessão em que falei de projectos literários que aprecio especialmente, me referi a esta autora que tem duas personagens notáveis que atravessam a sua obra: Olive Kitteridge, uma antiga professora de Matemática implacável com a estupidez humana e sem a menor paciência para a família (há uma série de televisão baseada nos dois livros em que é protagonista (Olive Kitteridge e A Segunda Vida de Olive Kitteridge); e Lucy Barton, que temos a oportundiade de ler, não cronologicamente, em romances que falam da sua infância, do reencontro com a vida pobre do campo quando já se tornou uma escritora conhecida, da procura de uma cunhada desconhecida, do período da COVID com o ex-marido, do reencontro com a mãe num hospital, enfim, sempre a mesma Lucy em várias idades e contextos. Num dos livros da série Lucy Barton, apareceu por acaso alguém que mencionava a Olive, mas agora estou fascinada: o novíssimo Conta-me Tudo, que vou comprar a correr, faz com que ambas, Lucy e Olive, se conheçam. Não posso esperar por mais esta surpresa. Leiam esta autora, que não se vão arrepender.
A newsletter da Livraria Bertrand ensina-me várias coisas sobre os livros de bolso que, curiosamente, nunca tiveram um êxito estrondoso em Portugal, talvez porque durante demasiado tempo quem lia eram as elites, e essas preferiam claramente os livros maiores; e depois chegaram muito rapidamente os ebooks para os mais jovens que gostam de ler no telemóvel, ainda mais pequeno do que o livro de bolso. Mas noutros países são um sucesso, como no Reino Unido, por exemplo, em que é vulgaríssimo vermos as pessoas a ler edições de bolso na praia, no metro e nos cafés (até já vi uma pessoa no aeroporto deitar fora a parte já lida do livro num caixote de lixo para ir mais levezinha para o avião); ou em França, em que, além de editoras que se reuniram em empresas especializadas em livro de bolso, o preço muito mais barato devido às grandes tiragens serviu realmente para fazer leitores entre uma classe que não tinha poder económico para comprar as edições mais caras. Mas conta ainda a mesma newsletter que, durante a Segunda Guerra Mundial, contra os livros queimados pelos nazis, se imprimiu uma colecção inteirinha de livros de bolso que foi distribuída às tropas aliadas de todo o lado (da Normandia às ilhas do Pacífico) lembrando-as dos ideais nobres pelos quais lutavam e servindo de símbolo de resistência, liberdade e democracia.
Por causa de um comentário ao post de sexta-feira passada, que mencionava os dois romances de Cristina Drios que tive o prazer de publicar (Os Olhos de Tirésias e Adoração) e «marcava falta» a esta autora, que já não publica há muito tempo, pensei que realmente temos alguns escritores que bem podiam brindar-nos com romances com maior regularidade. Mas, claro, a Cristina viaja bastante, tem uma profissão que lhe rouba muito tempo e, além disso, é bastante exigente consigo mesma. Por outro lado, conheço autores (meus e de outras editoras) que estão sempre a teclar e a entregar livros novos, sobretudo os que não trabalham e querem viver exclusivamente da escrita, ou então têm trabalhos episódicos, mas não um verdadeiro emprego. Percebo que, se é essa a sua paixão, o façam, mas muitas vezes não deixam que os seus livros respirem o suficiente, nem que os leitores cheguem a desejar mais um livro seu, de tal modo os romances saem colados uns aos outros. Há ainda aqueles que, não conseguindo escrever com a velocidade que gostariam, mal entregam o livro querem que seja lido e publicado (como se os editores não tivessem as suas prioridades) e exprimem a preocupação de serem esquecidos pelo público se não publicam de dois em dois anos. Enfim, há de tudo como na farmácia e, embora se diga que tudo quanto é demais é erro, a verdade é que também pode ser um risco escrever de menos.
Às vezes, quando participo de actividades em que falo do que são bons livros e da importância do trabalho editorial, vou buscar exemplos para ilustrar algumas situações a declarações de pintores em livros e entrevistas. Sim, pode parecer estranho, mas os pintores têm às vezes sobre a construção da respectiva obra frases e ideias muito mais facilmente perceptíveis do que os escritores, que tendem a complicar um pouco as suas elucubrações sobre a própria arte. Por isso achei mesmo interessante que a nossa Conselheira Cultural em Madrid tenha feito um convite original nesta temporada, virando do avesso esta minha presunção; como vai haver uma exposição grandiosa da pintora Vieira da Silva no Guggenheim de Bilbao, resolveu convidar escritores (leu bem, escritores!) para irem ao museu falar da nossa grande pintora e comentar alguns dos seus quadros. Claro que algumas das pinturas de Vieira da Silva estão ligadas à leitura, aos livros, às bibliotecas. Mas tenho a certeza de que o discurso dos escritores sobre uma arte que não é a deles será bem mais acessível e claro do que se estivessem a falar de literatura. Um excelente exercício para eles e uma excelente ideia para nós.
Há muitíssimos anos, escrevi com uma amiga uma colecção de romances juvenis, na qual um adolescente de dezasseis anos fumava às escondidas. Numa cena, a irmã mais nova, toda desportista, criticava-o e prevenia-o do mal que aquilo lhe faria; noutra, ele era apanhado a fumar e repreendido pelo pai, levando como castigo não ir a uma festa onde tencionava pedir namoro à miúda por quem estava apaixonado (azar). Era, quanto a nós duas, uma boa forma de avisar os nossos leitores para os perigos de fumar cedo demais; mas, se a colecção tivesse sido publicada dez anos mais tarde, já não teríamos decerto podido incluir essas cenas, pois os cigarros de repente foram banidos dos livros e dos filmes (até o Lucky Luke deixou de fumar) para não dar (más) ideias aos mais novinhos: não vejo, não sei que existe. Porém, leio num jornal de há dias que essa preocupação foi chão que deu uvas nas séries e nos filmes do último ano: em nome do realismo, da verosimilhança, de uma moda e daquilo a que os mais radicais chamam «inconsciência», o cigarrinho voltou aos ecrãs (faria sentido que grandes fumadores na vida real deixassem de fumar numa biografia cinematográfica?). Diz o artigo que os jovens ficaram de novo mais expostos ao perigo do tabagismo, mas a verdade é que os nossos televisores voltaram a «fumegar». Eu deixei de fumar há sete anos e meio. Não comecei por causa do cinema, mas por ser filha de dois fumadores. Terá a literatura influência numa coisa destas? Quem sabe?
Na hora de fazer balanços e olhar para o ano que findava, muitos dos nossos meios de comunicação, chamados a eleger os melhores livros de ficção publicados em 2024, não passaram por cima de Caruncho, de Layla Martínez (já aqui falei desse pequeno romance ultra-elogiado por autoras de peso como Alana Portero ou Mariana Enríquez), nem de Eu Canto e a Montanha Dança, da escritora catalã Irene Solà, vencedor do Prémio da União Europeia para a a Literatura e, entre outros, do prestigiado Prémio Anagrama em Espanha. Este último só pude lê-lo agora de fio a pavio, embora já o tivesse em fila de espera há uns tempos, mas é tão atípico que me custou entrar nele na altura em que o comprei porque tinha a cabeça demasiado ocupada com problemas para conseguir concentrar-me no seu estilo torrencial. Agora voltei ao início com outra calma; e, não tendo muito que ver com a história de Carunho, muito mais destrinçável, o ambiente rural é o mesmo, e são os mesmos uma certa voracidade no acto de contar e um lado visceral que se parece com a raiva com que por vezes a natureza resolve dar-nos uma tareia. Passado nos Pirenéus, Eu Canto e a Montanha Dança tem vários narradores (pessoas, algumas bruxas, e coisas) e, apresentando as personagens em vários capítulos não claramente sequenciais, é simultaneamente bruto e poético, juntando tradições de literatura rural com episódios que poderiam ter saído de romances do realismo mágico latino-americano. Obra de fôlego, foi traduzida em mais de vinte línguas. A tradução do catalão é de Rita Custódio e Àlex Tarradellas.
Como muitas outras coisas da língua portuguesa, os provérbios sempre me interessaram, e há uns tempos recebi com prazer um livro de contos de Margarida Batista intitulado Provérbios Provados, no qual os contos reflectem sobre episódios e situações da condição humana ilustrados por provérbios e adágios às vezes bem antigos, provando que certas histórias continuam a repetir-se em todas as gerações e todos os tempos. Soube também recentemente que há mais pessoas ligadas às letras que são aficionadas de provérbios, como Gonçalo M. Tavares, por exemplo, que agora escreve justamente sobre a matéria de segunda a sexta no Correio da Manhã, jornal em que tem também uma crónica mais longa aos sábados. Fascinado pela cultura popular, o romancista escolhe diariamente um ditado e dá a conhecer a sua origem e significado. "Os provérbios são uma espécie de ensinamento ancestral, urbano mas também do campo e de todos os lados do Mundo, caracterizados por serem muito rápidos, muito sintéticos e por serem muitas vezes divertidos, outras vezes rimados, com ritmo. E são muitas vezes, também, achados verbais”, diz o autor de livros notáveis como Viagem à Índia, Jerusalém ou o conjunto de livros reunidos sob o título O Bairro. Lá vou eu ter de ir espreitar.
Foi com o propósito da continuidade que na passada sexta-feira transcrevi um excerto do livro do escriotor brasileiro Rubens Paiva intitulado Ainda Estou Aqui, que conta o que aconteceu aos pais em plena ditadura no Brasil, nos anos 1970. O pai, um engenheiro que ajudava as famílias de alguns oposicionistas ao regime, é levado certa tarde de casa pela polícia política para um interrogatório, deixando a mulher e os cinco filhos extremamente preocupados. Pouco depois, é a vez de a mulher e uma das filhas serem também levadas e interrogadas, ficando a mulher presa numa cela absolutamente horrível durante uma série de dias, sem se poder sequer lavar, até que, depois de perceberem que ela não conhecia as actividades do marido, a devolvem a casa à qual, porém, ele não voltou. Terá a partir de então de vender coisas, de sustentar sozinha os filhos, decidindo voltar a estudar e tornando-se uma advogada e defensora dos direitos humanos, nunca desistindo de saber o que foi feito do marido e exigindo uma declaração clara do que lhe aconteceu por parte das autoridades (o que conseguirá já depois dos 60 anos). Sendo o romance muito mais completo do que o filme (com documentos e relatos muito mais detalhados), este estreou há uns dias, e vale também muito a pena, não só pelo desempenho irrepreensível dessa actriz maravilhosa que é Fernanda Torres, filha do monstro sgarado Fernanda Montenegro e autora de pelo menos dois romances publicados em Portugal. Vejam o filme e leiam o livro, publicado pela minha colega Cecília Andrade, na Dom Quixote.