Nota: este post foi escrito na quinta-feira, para adiantar, porque vou ter uma semana de loucos. Está fora de prazo, como poderão perceber, mas não vou escrever outro pelas razões indicadas. Serve de qualquer maneira para dizer que, quando o assunto é um, o comentário não deve ser a outra coisa...
Na semana passada fui um pouco brusca com um dos Extraordinários. Teve de ser. E hoje escrevo este post para lhe agradecer ter vindo assumir-se como «culpado», ou «retractar-se» simpaticamente, pois imediatamente a fúria me passou. No entanto, acho que devo fazer aqui um esclarecimento: comecei este blogue sozinha e, quando me reformar, provavelmente ainda estarei a escrevê-lo. É um blogue que fala de livros e edição com comentários abertos (por enquanto), mas não é um blogue profissional nem da LeYa, é meu. Até posso comentar livros de colegas (se só lesse os que publico, a minha vida não seria o que é), mas não é por trabalhar na LeYa que conheço as motivações dos outros editores e muito menos algumas celeumas e polémicas que de vez em quando acontecem. De resto, tento meter-me o menos possível nas propostas e decisões de quem trabalha ao meu lado porque também não quero que me façam o mesmo. E, para quem não sabe, é enorme a quantidade de pessoas desde 2021 que faz teletrabalho e vem à editora apenas uma vez ou duas por semana; nem conheço o nome de todos os assistentes editoriais. Por isso, quando me vieram aqui ao blogue falar do caso de um livro recusado pela LeYa, eu tinha estado uma semana fora e não sabia de nada. Perguntei e deram-me a resposta que vos dei. Não li o livro e sei o mesmo que toda a gente. Os jornais já disseram tudo o que havia para ser dito. E quando saírem outras notícias, saberemos todos ao mesmo tempo. Deixem-me por favor em paz com o livro do Germano Almeida que (sabe-se já) vai ser publicado pela LeYa porque quem se queixou afinal não se queixou (e ainda bem).
Daqui por uma semana é Dia Mundial da Poesia (21 de Março, dia da Primavera também), mas eu cá vou comemorá-lo no dia 22, sábado, que é quando terá lugar a programação que começa logo de manhã no CCB. Este ano, convidaram-nos, à Filipa Leal e a mim, para programarmos um dia inteirinho de actividades poéticas e, claro, dissemos que sim! Haverá uma oficina para miúdos de todas as idades (uma espécie de poema-harmónio); uma homenagem ao poeta Nuno Júdice, com testemunhos de amigos próximos e um filme inédito sobre o seu fazer poético; leituras por actores profissionais de alguns dos cerca de quinze poetas que perdemos desde 2020 (e este ano começou logo com a grande perda de Maria Teresa Horta); um podcast de Inês Maria Meneses (quem se aventura a ir até lá ler um poema?); uma instalação de vídeo com leituras de mais de 40 poetas contemporâneos de várias gerações ao longo de todo o dia; um miniconcerto com conversa sobre a poesia do fado com Aldina Duarte e, entre outras coisas, um incrível espectáculo do grande João Gesta, autor de uma série de recitais no Porto que esgotam há anos, recital esse que atravessará a poesia portuguesa ao longo de mais de cem anos. E (o melhor) é que é tudo com entrada livre. Então, vêm? O programa detalhado fica abaixo.
Quem Tem Medo dos Santos da Casa, de Sara Duarte Brandão, é a história de Maria Teresa, uma mulher que cresceu numa pequena vila piscatória entre a austeridade familiar e a liberdade que encontrava nos livros e numa paixão clandestina. Condenada a viver à sombra do que o pai e o marido haviam sonhado para ela, resolveu pôr em causa as ordens e as tradições, tomar as rédeas do seu destino, deixar para trás uma vida de conforto e atravessar o rio em busca de emancipação. Hoje encontramo-la a tecer tapetes numa casa escura que ninguém sabe o que esconde e é considerada uma espécie de bruxa; porém, é numa amizade improvável com uma menina que aprende com ela a amar os livros, que Maria Teresa encontrará a redenção. Com um ritmo poético e introspectivo, a narrativa desenrola-se em pequenos fragmentos belíssimos que reflectem as superstições de uma comunidade marcada por um episódio com consequências dramáticas. Mas onde todos veem horror Maria Teresa vê beleza e possibilidade. Terão, ela e Joana, medo dos santos da casa? Romance inspirado na história dos santos do escultor Altino Maia que foram retirados da Igreja de São Pedro da Afurada, é na ficção que esta obra desafia algumas verdades. Vencedor do Prémio Cidade de Almada.
Falei aqui há cerca de uma semana da solidão com que se escreve (a partir de uma frase de Paul Auster) e da leitura como possibilidade de ficarmos menos sozinhos, de percebermos as personagens como alguém que sofre ou se alegra ao nosso lado. Mas há outro tipo de solidão para um escritor, a da incapacidade de partilhar a vida seja com quem for, porque escrever está sempre primeiro, escrever é a própria vida. Li um dia destes num post de um amigo espanhol no Facebook que o romancista norte-americano Philip Roth está entre os solitários deste tipo. Parece que disse uma vez numa entrevista: «Vivo sozinho, sem ninguém por quem seja responsável ou com quem dividir o tempo. A minha agenda é inteiramente minha. Escrevo todo o dia e, se me apetecer, volto para o meu escritório depois do jantar. Não tenho de me sentar a entreter quem quer que seja. Se acordo às duas da madrugada com uma ideia, acendo a luz e vou escrever. Estou de serviço, como um médico nas urgências. Eu sou a emergência.» Percebo que a escrita às vezes é tão absorvente que não deixa espaço para outra vida. Mas essa outra vida não é o que oferece matéria ao escritor?
As grandes empresas como aquela em que trabalho oferecem muitos cursos de formação nas mais variadas áreas (uma das quais a prevenção de ataques cibernéticos, cada vez mais sofisticados), mas também conversas (no meu caso, as LeYa Talks), geralmente com especialistas, com uma duração de 45 minutos a uma hora, na maioria das vezes interessantes. Na semana passada, tivemos uma destas conversas sobre as desigualdades na educação com Miguel Herdade, com quem aprendi muitas coisas e confirmei suspeitas que tinha sobre outras; mas hoje o importante é que todos fiquem a saber que os primeiros três anos de vida são aqueles em que o cérebro mais se desenvolve e que, por isso, se apostarmos em todo o mundo em creches de qualidade para as crianças mais pequenas, elas estarão desde logo mais preparadas para o futuro e isso significará, a longo prazo, melhor emprego e melhor desempenho. Segundo Miguel Herdade, que estuda o assunto, pode haver uma diferença cognitiva entre ricos e pobres aos três anos de idade de cerca de vinte meses (os ricos estão muito mais adiantados por comerem melhor, terem pais mais cultos que podem ajudar na aprendizagem, melhores educadores nas creches onde são estimulados etc.). Sobre o caso português (Miguel Herdade vive em Londres e falou do caso inglês por comparação), a realidade mostra que a creche, longe de ser um lugar de estímulo e conhecimento, é mais um lugar onde os pais vão depositar os filhos para poderem ir trabalhar, e uma das provas disto é que os infantários públicos estão dependentes do Ministério do Trabalho, e não do Ministério da Educação. A par deste facto, o segundo elemento mais importante para o desenvolvimento das crianças e adolescentes são os professores (e em Portugal a falta de professores é crítica) e os dados dizem-nos que um bom professor reduz de 50% para 10% o número de negativas numa turma. Dois dados importantes em que os governos deviam pensar: um ensino pré-escolar de qualidade e professores realmente com uma boa formação e com vocação.
A nossa conselheira cultural em Madrid não pára e Portugal está cada vez mais presente no país vizinho. Depois da representação em peso na ARCO Madrid, mais de 40 artistas portugueses estarão espalhados em exposição por 34 galerias espanholas em 11 cidades diferentes e haverá ainda visitas guiadas (as últimas) à exposição de Almada Negreiros que já aqui referi há tempos. Mas, além da pintura, haverá recitais, sessões de fado (com Sara Correia), conferências, dança e mesmo cinema, com o filme Grand Tour, de Miguel Gomes, premiado em Cannes. E onde fica a literatura no meio disto tudo? Pois também não foi esquecida, e seremos muito bem representados pela nossa escritora Patrícia Portela, que esteve em residência literária há uns tempos e que lançará na capital espanhola a tradução do seu Para cima e não para o Norte, que terá três apresentações, e por uma conversa que se prevê mesmo boa entre Lídia Jorge e a fantástica Rosa Montero sobre o premiadíssimo romance Misericórdia. Como se costuma dizer, Madrid me mata (porque não posso lá ir ver nada disto, claro).
Levava consigo para as árvores todos os livros que fugiam à conduta daquilo que então se podia esperar de uma futura mulher. Ainda era só menina, pensava. Nos verões era mais fácil esconder estes livros da família. Como não chovia, deixava-os pendurados como frutos sob os ramos e sonhava com uma árvore real que amadurecesse as histórias. Semeava palavras e delas crescia a natureza das cabeças. Que bom seria ter a liberdade de plantar pensamentos. Maria Teresa sonhava com essa possibilidade tão remota de liberdade. Liberdade das meias esticadas até ao joelho e das cuecas que lhe faziam comichão. Liberdade suja e sem horas. Mas rapidamente ouvia as vozes que a traziam de volta à prisão dos dias.
«Maria Teresa, vai tomar banho, que hoje vem cá jantar o senhor padre!» E, assim, deixava as histórias a pernoitar nas árvores para enfrentar aquela realidade menos aventureira e esperançosa.
Sara Duarte Brandão, Quem Tem Medo dos Santos da Casa,
Nas Correntes d'Escritas ouvem-se sempre histórias belíssimas, dessas que, claro, podiam estar dentro de um livro; e o problema é que geralmente são tantas em tão pouco tempo que esta minha cabeça senil já não consegue identificar quem contou o quê e, neste caso, o autor da história que me perdoe por não ser aqui nomeado. Numa das mesas, alguém falou de uma avó antiga, que já estava velhinha e viera viver para a cidade para estar mais perto dos filhos, em casa de quem, por falta de coisas para fazer, rezava todos os dias o terço. No início, rezava pelas amigas que ainda estavam vivas, mas, ao fim de um certo tempo, as amigas foram morrendo, e a avó decidiu que podia rezar pelas pessoas da sua aldeia com quem tinha convivido e de quem tinha muitas saudades. Começou, pois, rua por rua, a ver quem morava em cada casa e a rezar pelos respectivos habitantes. No entanto, ao fim de algum tempo, chamou a filha, preocupada, e disse-lhe que se calhar o melhor era passar a rezar pelos mortos. E, quando esta quis saber o porquê daquela decisão, respondeu apenas: «É que lá na aldeia há ruas inteiras que já morreram.»
Leio numa rede social uma frase do saudoso Paul Auster (de quem li muitos romances e que tive o prazer de conhecer pessoalmente em Lisboa) que faz tocar uma campainha na minha cabeça. Diz o seguinte: «A literatura é essencialmente solidão. Escreve-se em solidão, lê-se em solidão e, apesar de tudo, o acto de leitura permite uma comunicação entre dois seres humanos.» Quando disse ainda agora que tocou uma campainha na minha cabeça, disse-o porque nos meus e-mails, junto da assinatura, acrescentei uma frase de C. S. Lewis que complementa a de Auster: «Lemos para saber que não estamos sozinhos.» Acho que quem lê e escreve sabe disso melhor do que ninguém, o que falta é convencer as pessoas em geral de que estão muito mais bem acompanhadas por um bom livro do que por horas e horas nas redes sociais a ler tantas vezes coisas agressivas, pobres e imbecis. Se, como diz o povo, «burro velho não aprende línguas», temos de começar pelos mais pequenos. Um filho único, por exemplo, ficará muito menos sozinho com um livro na mão.
Como penso que já aqui disse, a grande escritora norte-americana Elizabeth Strout esteve em Portugal há uns dez dias para uma sessão na FLAD e outra (a que pude assistir ao vivo, e que boa foi!) na Livraria Buchholz. Já o tinha começado a ler, ao seu Conta-me Tudo, o romance que saiu pouco antes da sua visita, mas ainda ia no princípio e, por isso, ainda bem que ela não contou tudo. Com o seu hábito de fazer saltar personagens de livro para livro, neste encontramos a querida Lucy Barton (ainda a viver com o ex-marido junto à praia, o que principiou com Lucy à beira-mar por causa da pandemia), mas a conviver também com Olive Kitteridge, que neste romance está com perto de noventa anos, viúva, a visitar uma amiga no lar todos os dias e a contar igualmente histórias a Lucy (quando não a ouvi-las da sua boca). Mas, para quem ainda não saiba, conheceremos Bob e Jim Burgess (de The Burgess Boys, ainda não traduzido em Portugal), um par de irmãos próximos e distantes com muita tristeza e culpa às costas. É um livro especial, por ter tanta gente dos outros livros lá dentro, e é provavelmente o fecho das histórias de Lucy, Olive e Bob, segundo Elizabeth Strout disse, embora ela dê sempre respostas muito curtas ao que se lhe pergunta e provavelmente não conte tudo. Leiam-no e esperem ansiosamente pelo que há-de vir.