Estava eu em leituras (camonianas, salvo erro) e encontrei num mesmo parágrafo as palavras «cartear» e «descartar». Fiquei curiosa sobre que «carta» juntava as duas coisas e lá fui consultar a etimologia das palavras, chegando à conclusão de que «charta/carta» é uma forma latinizada do grego «khártes», que quer dizer «folha de papiro preparada para receber a escrita». O seu significado abarca papel (ainda hoje «carta» é equivalente a «papel» em italiano), bula, encíclica, missiva, epístola; e é desta palavra que derivam «carteira» (que no século XIX ainda servia para esconder cartas), «cartaz» ou mesmo «cartel» (que, em francês, era a carta que se enviava a desafiar alguém para um duelo). O verbo «cartear» tem que ver com «trocar cartas, corresponder-se», mas também com «jogar cartas». Ora, o verbo «descartar», que hoje está na ordem do dia (tanta coisa descartável...) vem justamente das cartas de jogar, e não das escritas. Pensei que queria dizer «deitar papel fora» na origem, mas não, está associado ao facto de pôr de lado uma carta que já não interessa ao jogo (o prefixo «des» quer dizer «não»). Que giro, não é?
Todos os anos anunciamos o romance vencedor do Prémio LeYa em Outubro ou Novembro, sendo o livro publicado em Abril do ano seguinte e o galardão entregue cerca de um mês depois. O mais recente premiado foi o publicitário e escritor Nuno Duarte com a maravilha que é Pés de Barro, uma ficção em torno da construção da Ponte sobre o Tejo (naquela altura baptizada «Salazar») nos inícios da década de sessenta, período que coincide curiosamente com a partida dos primeiros navios para a Guerra Colonial na mesma Alcântara onde se lançam os pilares de uma obra à semelhança da Golden Gate de São Francisco, que os americanos, de resto, vieram orientar e superintender. Tudo visto pelos olhos de um operário (Victor Tirapicos), residente num bairro das redondezas, e dos seus vizinhos e colegas que observam uma Lisboa em mudança, ainda cinzenta mas já a piscar o olho ao futuro. Hoje vai ser a entrega do prémio e estou muito feliz por ter publicado este romance que será apresentado esta tarde por Helena Roseta. Apareçam.
Claro que, como qualquer pessoa que gosta de poesia, muitas das minhas horas nestes últimos tempos, por conta de comemorações e outras razões, têm sido dedicadas a Camões (tantas rimas!), nascido (supostamente) há 500 anos, mas não menos actual do que muitos poetas da actualidade (e melhor do que todos, lá diria Vasco da Graça Moura, que não gostava por aí além de Pessoa). Uma genialidade que não está ao alcance de todos, claro, e que lhe dá o direito de ser celebrado juntamente com a festa do nosso dia nacional (o 10 de Junho), ou não fossem Os (seus) Lusíadas uma epopeia sobre os Portugueses, com Vasco da Gama a representá-los. Li também sobre Camões e recomendo-vos hoje um livro intitulado Camões, Vida e Obra, de Carlos Maria Bobone, de que gostei imenso. Surpreende, por um lado, por ser uma espécie de não-biografia (dado que, quando se fala do Príncipe dos Poetas, quase nada está provado e as fontes são poucas e frequentemente contraditórias); e, por outro, pela cultura do autor que, ainda jovem, está incrivelmente bem informado e documentado e tem, de resto, teses bem interessantes da sua lavra sobre vários assuntos (a origem social, a natalidade, o temperamento, a obra, o tempo em que o poeta viveu). Leiam Camões e leiam sobre Camões. Em breve, falarei aqui também da excelente biografia de Isabel Rio Novo, mas ainda estou longe de a acabar.
É hoje, dia 13, que começa a 13ª edição de mais um festival literário, desta vez o Livros a Oeste, na Lourinhã, cujo responsável é de há muito o jornalista João Morales que cria uma programação dedicada a públicos distintos, incluindo crianças. Numa organização do Município da Lourinhã, este ano o mote do encontro é «A História é uma encruzilhada»; e, para falar da História com H e das suas consequências inescapáveis num momento tão difícil para o mundo, estão convidadas pessoas de muitas áreas e de muitos quadrantes políticos distintos. Debates com escritores, leituras de poesia, uma exposição de Miguel Januário, um concurso de contos, são algumas das actividades previstas até ao próximo dia 17 de Maio, data do encerramento do certame. O resto pode ser visto e consultado no link abaixo. Divirtam-se.
Têm saído ultimamente muitos livros de canções. Numa colecção publicada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda cuja responsabilidade é de Jorge Reis-Sá, saíram, por exemplo, livros com as letras (completas ou escolhidas) de Rui Reininho, Carlos Tê, Miguel Araújo ou João Monge, autores com extensos repertórios de «song-writing» que vale a pena lermos com atenção, mesmo que na maioria das vezes os poemas ganhem vida com a música e a interpretação. Menos comum, porém, é um livro de canções que sai em vez do CD que esperaríamos... Não sei se me fiz entender, mas desta feita as canções só podem ser ouvidas ao vivo ou comprando o livro. Trata-se de Anónimos de Abril: Um Livro de Histórias Reais e Canções Originais, um projecto da autoria de José Fialho Gouveia, Joana Alegre e Rogério Charraz que pretende homenagear figuras como a da senhora que vendia cravos no 25 de Abril ou a de presos políticos que foram torturados para que a democracia enfim chegasse, mas cujos nomes poucos conhecem. São oito histórias que incluem um código QR que dá depois acesso às canções, cujas letras são de José Fialho Gouveia, que qualquer dia terá também o seu livro de letras, pois está a escrever para várias pessoas com grande sucesso. A edição é da Zigurate e permite-nos ouvir música enquanto homenageamos estes anónimos com a leitura.
Era uma vez, numa grande floresta, uma pobre lenhadora e um pobre lenhador.
Não, não, não, não, acalmem-se, isto não é o Pequeno Polegar! De modo nenhum. Tal como vocês, detesto essa história ridícula. Onde e quando já se viu pais a abandonarem os filhos por não terem o que lhes dar de comer? Vá lá…
Nessa grande floresta, portanto, reinavam a fome e o frio. Sobretudo no inverno. No verão, um calor sufocante abatia-se sobre a floresta e expulsava o frio. A fome, pelo contrário, era constante, sobretudo naqueles tempos em que grassava a guerra mundial.
A guerra mundial, sim, sim, sim, sim.
Como o pobre lenhador fora requisitado para serviços de interesse público – para benefício unicamente dos vencedores que ocupavam cidades, aldeias, campos e florestas ‒, era portanto a pobre lenhadora que, da aurora ao crepúsculo, percorria a floresta na esperança, frequentemente frustrada, de encontrar com que prover às necessidades do seu magro lar.
Por sorte – há males que vêm por bem –, o pobre lenhador e a pobre lenhadora não tinham filhos para alimentar.
O pobre lenhador agradecia aos céus essa graça todos os dias. A pobre lenhadora queixava-se do facto, mas em segredo.
Não tinha filhos para alimentar, é certo, mas também não tinha filhos para amar.
Por isso, rezava aos céus, aos deuses, ao vento, à chuva, às árvores e até ao sol, quando os seus raios perfuravam o arvoredo, iluminando o matagal com uma transparência feérica. Implorava assim a todas as potências do céu e da natureza que lhe concedessem finalmente a graça da vinda de um filho.
Jean-Claude Grumberg, A Mais Preciosa Mercadoria, trad. de Luísa Benvinda
Estreia hoje um filme de animação maravilhoso baseado num pequeno livro que publiquei há tempos chamado A Mais Preciosa Mercadoria. Esta maravilha foi escrita por um senhor francês chamado Jean-Claude Grumberg, que assistiu, muito pequenino, ao momento em que os nazis levaram o seu pai para o campo de concentração onde acabaria por morrer, facto que o inspirou a escrever uma história em que um bebé se salva de chegar a Auschwitz e é educado por um casal de lenhadores sem filhos. Michel Hazanavicius, o realizador, apaixonou-se por esta história e resolveu fazer, a partir dela, um filme de animação cujo trailer está já disponível no site da distribuidora Alambique. Algumas vozes são de actores muito estimados, como é o caso de Jean-Louis Trintignant, e o autor do livro é também co-autor do guião. Este filme pertence ao Plano Nacional de Cinema e é aconselhado pela Associação dos Professores de História porque o Holocausto faz parte da matéria desta disciplina e convém não omitir a sua história e até recordá-la para que não se repita. Deixo-vos amanhã um excerto para vos abrir o apetite.
Estava a ler já não sei o quê e reparei que na mesma frase havia duas palavras muito semelhantes em termos gráficos: «revolver» e «revólver». A diferença é apenas de um acento agudo, mas de facto é muito maior do que eu esperaria. Como à partida não lhes encontrei grandes afinidades, fui ao Dicionário Houaiss ver as respectivas etimologias e surpreendi-me ao ver que o verbo «revolver» vem do Latim e que a arma com cano vem do inglês... Esquisito, mas é verdade. «Revolver», com o sentido original de «enrolar», «enroscar», «rolar para trás», acabou por ter sobretudo o significado de «remexer», «desarrumar» ou «agitar», enquanto «revólver» é simplesmente o nome de uma arma com um cano e um cilindro que rola (se calhar para trás) onde se introduzem balas. Talvez um corpo ou cabeça que levem um balázio de um revólver fiquem revolvidos, mas eu nunca diria que linguisticamente uma coisa não tinha nada que ver com a outra. Sempre a aprender.
Esta semana Lisboa vai encher-se de debates e conversas sobre literatura. Ontem começou mais uma edição do Festival 5L, que decorre no Beato Innovation District (não conheço, mas fiquei curiosa, parece que é o espaço da antiga Manutenção Militar), com uma programação dedicada ao tema da Inovação: Utopia/Distopia. Destacam-se entre os convidados o vencedor do Booker Prize Paul Lynch (com o romance A Canção do Profeta, não perca), Lídia Jorge, Dulce Maria Cardoso, Ricardo Araújo Pereira e Amin Maalouf, mas haverá muito mais gente presente num certame que se estende até dia 11 e no qual se vai falar muito de Inteligência Artificial. A partir de dia 9, decorrerá também o Palavrio, festival literário organizado pela Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, que homenageia Saramago e Luiz Pacheco e conta com as participações de João de Melo, Djaimilia Pereira de Almeida, João Tordo, Jorge Reis-Sá, David Machado, Francisco José Viegas, Ana Bárbara Pedrosa e o mais novo Francisco Mota Saraiva, entre outros. No dia 10, Tiago Torres da Silva falará de fado na companhia da bela fadista Joana Amendoeira. E haverá à tarde uma mesa de poetas, que graças a Deus nunca são esquecidos nestes eventos. Boa semana, há muito por onde escolher.
Hoje é Dia da Língua Portuguesa. Uma língua riquíssima em termos de vocábulos, uma língua que é falada por milhões, uma língua que está em quatro dos cinco continentes, mas que, infelizmente, não tem a difusão que merece e não é falada por quase ninguém no mundo editorial, razão por que as traduções dos livros portugueses são ínfimas. Li num artigo que o que faz uma língua importante não é o número de falantes nem os países que a falam serem economicamente interessantes; a China, por exemplo, é uma potência económica e tem milhões de habitantes, e a sua língua não vale nada porque quase só é falada pelos próprios chineses. O que enriquece uma língua é ser língua de comunicação entre todos, é ser a segunda língua para a maioria dos habitantes do planeta. Nunca chegaremos ao sucesso do inglês... mas celebremos a nossa língua no dia do seu aniversário. Como? Ora, lendo livros portugueses!