Se já é difícil falar de sexo de forma que não pareça didáctica ou ordinária, escrever cenas de sexo em ficção resulta ainda mais difícil. Cai-se facilmente no literariamente feio (como a mulher a lavar-se no bidé depois de fazer amor), no óbvio (como nos romances de quiosque, com seios sempre perfeitos), nas metáforas de mau gosto (poupo-vos a algumas que até sei de cor) ou até nalguma coisa próxima da pornografia (demasiado descritivo). Mas curiosamente parece que a escritora Sally Rooney quebrou o tabu e teve muito sucesso, tal como Miranda July, de quem temos cá publicado De Quatro, ou a estreante Yael van der Wouden que ganhou um prémio importante com A Guardiã, um romance que ao que parece tem umas quantas cenas de sexo sem nunca perder o nível literário. Leio num artigo que me enviaram que os jovens americanos declararam querer ver menos sexo e mais amor platónico e puro no cinema, mas apreciam muito o sexo em romances e livros de fantasia. Será que ver sexo é que é o problema? Será que ao ler cenas de sexo não as vêem nas suas cabeças? Conheço algumas pessoas que leram De Quatro (algumas jovens) que acharam que tinha sexo a mais; e eu própria achei que, depois do maravilhoso As Malditas, Camila Sosa Villada foi excessiva nas cenas de sexo no livro seguinte que li dela. Estaremos a ficar puritanos? Não sei, tenho de ler o premiado A Guardiã para tirar teimas.
P. S. Amanhã começa Agosto. Boas férias para todos. O blogue volta em Setembro.
Os leitores deste blogue sabem certamente quem é a escritora Isabela Figueiredo, hoje publicada pela Caminho. Ela tornou-se inicialmente conhecida pelo seu livro Caderno de Memórias Coloniais, em que relata sem paninhos quentes a experiência da sua família em Moçambique quando era uma colónia portuguesa (livro que teve depois uma versão revista e aumentada, que é a que hoje circula) e confirmou o seu talento com o romance A Gorda, que tem umas idas e vindas a África porque a família da história é de retornados (as plantas, a decoração da casa, etc...) mas é sobretudo a história da dificuldade que tem uma jovem mulher gorda em ter um relacionamento amoroso. O seu terceiro livro, Um Cão no meio do Caminho, foi traduzido em França e vai sair em Setembro, na rentrée, mas já faz parte da lista de semifinalistas do Prémio de Romance da FNAC 2025. Desejamos sorte à autora, claro, que esperamos chegue pelo menos à final, e recomendamos aos Extraordinários que, se não a conhecem, leiam qualquer dos seus livros, que são todos bons, cada um no seu género.
Num estudo realizado no Reino Unido por uma ONG chamada Women's Prize Trust (WPT) envolvendo 54.000 livros, concluiu-se que os homens compram sobretudo livros escritos por homens (mais de 80%), parecendo desconfiar de que os livros escritos por mulheres são xaroposos e ocos. Num post de um clube de livro que pelos vistos a rainha Camilla tem, o comentário do argumentista de cinema Richard Curtis (Notting Hill, O Diário de Bridget Jones...) em relação ao livro proposto de uma escritora foi excessivo (qualquer coisa como «Que nojo!»). Felizmente, a própria filha do argumentista parece ter-lhe dado uma lição e sugerido bastantes autoras muito boas; e a atrás referida ONG lançou uma campanha chamada «Homens Que Lêem Mulheres», pedindo a escritores consagrados (Salman Rushdie, Ian McEwan e outros) que falassem das suas escritoras preferidas, levando então o senhor Curtis a mudar de ideias e maravilhar-se com Elizabeth Strout, Chimamanda, Arundhati Roy e mais uma dezena de mulheres escritoras, confessando ter descoberto nelas uma humanidade que até era mais ao seu gosto do que a encontrava nos livros escritos por alguns dos seus autores preferidos. Em Portugal, ao que parece, segundo uma tese defendida na Universidade Nova de Lisboa por Clara Nunes da Silva que teve por amostra 400 leitores (200 homens e 200 mulheres), 81% dos homens inquiridos escolheram livros escritos por homens, o que significa que o padrão se repete provavelmente em todos os países. Faz-nos falta uma ONG como a WPT a ver se as coisas mudam por cá, até porque as mulheres não são esquisitas (lêem livros de homens e mulheres indiferentemente) e, como até lêem mais livros do que os homens, mereciam ser mais lidas por eles.
Lembro-me de que, quando li Alice do Outro Lado do Espelho numa edição da Estampa, naquela colecção de capa preta com folhas azul-claras, nos meus tempos de faculdade, uma pergunta de Alice ficou para sempre na minha cabeça: "Must a name mean something?" Os seus interlocutores, se não me engano Tweedledee e Tweedledum, queriam saber o significava o nome Alice, e ela respondia-lhes com aquela pergunta; um nome tinha de significar alguma coisa? A querida poeta Ana Luísa Amaral chamou a um dos seus últimos livros What's in a name (leiam-no) e esta conversa toda vem a propósito do facto de um colega meu me ter contado que leu no romance de Miguel Bonnefoy de que aqui pus um excerto na última sexta-feira que o nome com que baptizaram a Venezuela não foi dado por acaso; antes de aquele território ser o país que é hoje, tinha uma data de pequenos canais e alguém pensou logo em Veneza, numa Veneza de trazer por casa, enfim, dado os canais serem bem menos sumptuosos. Mas foi por isso que se chamou Venezuela, a prova provada de que os nomes (próprios, claro) têm muitas vezes um significado. É até pena que muitos dos comentadores deste blogue não assinem com os seus verdadeiros nomes, pois talvez descobríssemos neles coisas engraçadas.
Ao terceiro dia de vida, Antonio Borjas Romero foi deixado nos degraus de uma igreja, numa rua que hoje tem o seu nome. Ninguém soube dizer exatamente em que data foi encontrado, só se sabe que uma mulher muito pobre tinha o hábito de se sentar ali todas as manhãs, sempre no mesmo sítio, com uma malga de cabaça à sua frente e uma mão frágil estendida a quem passava no adro. Quando viu o bebé, repudiou-o com um gesto de repugnância. Mas a sua atenção foi atraída subitamente por uma caixinha brilhante, escondida entre as dobras da roupa, que alguém ali tinha deixado, como se fosse uma oferenda. Um retângulo de lata, de cor prateada, com arabescos finos gravados. Era uma máquina de enrolar tabaco. Roubou-a e meteu-a no bolso do vestido, desinteressando-se do bebé. Contudo, durante a manhã, apercebeu-se de que os seus tímidos vagidos, os seus gritos hesitantes comoviam os fiéis, que, julgando-os juntos, iam sucessivamente enchendo o fundo da malga com moedas de cobre. Ao chegar a noite, levou-o para um curral, encostou-lhe a boca à teta de uma cabra preta coberta de moscas e, de joelhos debaixo da barriga da cabra, pô-lo a mamar um leite espesso e quente. No dia seguinte, embrulhou-o num pano da cozinha e prendeu-o às ancas. Ao fim de uma semana, começou a dizer que o menino era dela.
Miguel Bonnefoy, O Sonho do Jaguar, tradução de Luísa Benvinda Álvares
Estava a pensar por que diabo portugueses e espanhóis, que falam línguas tão semelhantes, têm em certos casos palavras tão diferentes para a mesma coisa. A questão nasceu de um livro de que gosto muito de Eduardo Halfon chamado Luto, que em espanhol se chama Duelo (a palavra que em castelhano quer dizer «luto»). Eu bem sei que, regra geral, os duelos costumam acabar com um morto (e que isso implica o luto da sua família e amigos); mas a verdade é que a «luta» (e o duelo não deixa de ser uma luta para encontrar um vencedor) também pode implicar o luto e é bem parecida com ele em termos de escrita, o que me pôs a pensar se teriam a mesma raiz. Mas não. O luto vem do latim luctum, que significa dor, lástima; a luta vem do latim lucta, que é o exercício de lutar. Já o duelo significa uma luta entre duas pessoas (o du inicial indicia dois, como no nosso «dueto», e vem de duellum). Já o duelo espanhol (luto, portanto) parece estar mais relacionado, afinal com dolo, palavra que também existe em português com o sentido de dor, lástima, prejuízo, e que em francês, entre outras, deu origem a deuil, que é o luto dos parisienses. E tudo por causa do escritor guatemalteco que tem livros rão bons e de ter pensado que hoje faz anos que morreu o meu pai... dia de luto, portanto.
Se alguém me perguntar o que estou a ler neste momento e eu responder «Nada», vai ser difícil de acreditar. Mas a verdade é que está certíssimo, porque Nada, de Carmen Laforet, é o título do romance que acabei há dias. Nunca tinha lido esta autora e vou querer, de resto, procurar outros livros seus porque foi uma excelente surpresa. Mas, falando de Nada em particular, trata-se de uma história que decorre na Barcelona franquista e conta a história da pobre Andrea (pobre em todos os sentidos, porque não tem um chavo e acontece-lhe de tudo), que vem estudar na capital catalã e fica a morar com os parentes (avó e tios) numa casa onde tudo está a cair aos bocados, vão-se vendendo os móveis e até o pão é racionado, mas há curiosamente uma criada para manter um certo status. A sua sorte é conhecer na universidade Ena, uma rapariga que a adora e que a ajuda, embora também lhe crie grandes preocupações ao envolver-se aparentemente com um dos seus tios, que é um músico genial, mas muito misterioso. Histeria, violência física, fome, mentiras, jogo, um bebé doente... Andrea viverá momentos realmente dramáticos e inesquecíveis nesta casa de doidos onde há vidas e mortes que nos tocam ou nos chocam. Um romance de referência escrito em 1945 sobre a Espanha do pós-guerra civil com cenas que ficam connosco para sempre.
Os tempos são outros, e o escritor não tem outro remédio senão sair da sua torre de marfim e dar-se a conhecer ao seu público potencial: ter sites na Internet onde noticia prémios e actividades, ir às livrarias e bibliotecas conversar com os leitores, ter páginas nas redes sociais em que publica posts sobre onde vai estar e o que anda a escrever. E, como é aí que as pessoas mais estão e mais lêem (infelizmente nem sempre um texto de mais de dez linhas), é também aí que, sem pagarem direitos, passam a vida a partilhar o trabalho dos escritores. E estes recebem hoje cada vez menos por essas e por outras (os poetas são umas vítimas, alguns têm todos os seus livros partilhados às postas no Facebook). Vai daí, em muitos países, os escritores aderiram aos «substacks literários», uma forma de ganharem dinheiro, criando newsletters em que os subscritores (fãs e leitores) pagam uma renda mensal ou anual para saberem tricas, lerem obras que o autor ainda não publicou em primeira mão, conhecerem as suas opiniões sobre a actualidade, terem direito a livros autografados antes de toda a gente, enfim, uma data de privilégios que são exclusivos para essa comunidade e que, no fundo, também dão de comer ao autor. O The Guardian traz um interessante artigo sobre estes procedimentos que conta como tanta gente é capaz de pagar entre 35 e 150 libras por ano para estar mais perto dos seus escritores de eleição. Fixe a palavra «substack», um dia destes chega cá e depois nada será como antes. O artigo pode ser lido aqui:
Estava a rever umas provas e precisava de cortar um nadinha de texto para ganhar uma linha, que era precisa um pouco mais abaixo por causa de um travessão de início de diálogo que, por lapso, não tinha saltado para o parágrafo seguinte. E foi então que reparei numa coisa curiosa: a frase dizia que uma mulher estava «desesperada por não saber o paradeiro do filho». Porém, se estivesse «desesperada por saber o paradeiro do filho», na verdade, também pouco mudava (podemos estar desesperados por encontrar alguém). Tirei o «não» e ganhei a linha de que precisava, mas... Como é que uma frase com «não» (negativa) e uma frase sem «não» (afirmativa) podem querer dizer a mesma coisa? Um amigo chamou-me a atenção para o facto de que há mais casos: o verbo «sancionar» também é paradoxal. Implica sanção, castigo, e ao mesmo tempo aprovação. Podem aplicar-se sanções a certas medidas (no sentido de as chumbar); e podem sancionar-se medidas (confirmá-las, ratificá-las). Que esquisito, não é? A língua portuguesa é tramada.
«Gabo» é a alcunha por que chamavam os amigos e os mais próximos a Gabriel García Márquez, o autor colombiano que escreveu livros incrivelmente imaginativos e que é o autor do mítico (em todos os sentidos) Cem Anos de Solidão, com os inesquecíveis Aureliano Buendía e o cigano Melquíades. Falo deste livro também para vos contar que ele foi inicialmente lançado não na Colômbia, mas na Argentina, país de leitores, e que foi a partir do seu sucesso nesse país que chegou a Espanha e rebentou com tudo, tornando-se depois um êxito mundial. Mas em Barcelona, antes disso, ninguém tinha visto Gabo nem sabia como ele era; e, num livro que o Manel anda a ler (e eu lerei logo a seguir) sobre a vida de Beatriz de Moura, a editora da emblemática Tusquets em Espanha, conta-se que ele aparecia em festas e eventos, e que andava tudo muito intrigado sobre quem seria aquele colombiado baixote de caracóis que vendia haxixe... Só um tempo depois, numa grande festa da Agência Literária Carmen Balcells (que o haveria de representar até hoje), o grande García Márquez foi apresentado ao mundo literário espanhol e ganhou a amizade de muitos escritores e editores. Beatriz de Moura, de resto, foi quem o convenceu a publicar os folhetins de Relato de Um Náufrago, que tinham saído semanalmente num jornal, em livro (que tenho em casa na colecção preta da ASA). Um vendedor de haxixe que ganhou o Nobel...