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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

30
Set25

Os quadros de Nuno Júdice

Maria do Rosário Pedreira

O grande poeta Nuno Júdice deixou-nos há cerca de ano e meio, mas não cessam as manifestações de homenagem à sua vida e obra. No último dia 20, por exemplo, foi inaugurada uma exposição no Museu de Portimão (Nuno Júdice nasceu na Mexilhoeira Grande ) intitulada Nuno Júdice: o Prazer das Imagens, com curadoria de Manuela Júdice, Filipa Leal e José Gameiro, que desafia os visitantes a conhecerem melhor a personalidade do poeta através dos «seus» quadros. Este «seus» explica-se de duas maneiras: não só Nuno Júdice desenhou, fotografou e fez colagens ao longo de toda a sua vida, em vinte cadernos, a par dos poemas que ia escrevendo; mas também adquiriu, ou recebeu de presente, uma obra pictórica ou fotográfica digna de ser mostrada ao público, da autoria de artistas tão conceituados como Júlio Pomar, Manuel Amado, Graça Morais, Rui Chafes, Jorge Martins ou o mais novo Duarte Belo, filho de outro sublime poeta (Rui Belo). A exposição ficará aberta até Janeiro e incluirá ainda documentários sobre o escritor. Uma boa razão para ir ao Algarve, menos fútil do que a praia.

29
Set25

Onze

Maria do Rosário Pedreira

Há uns anos, fui entrevistada por Luísa Sobral para um podcast que a cantautora então tinha sobre letristas. Não havia muito tempo ainda, o seu irmão Salvador estreara uma letra minha num espectáculo de TV com o pianista Júlio Resende, e a Luísa gostava muito dessa letra e estou em crer que também por isso viera entrevistar-me. Conversa puxa conversa, percebi que era uma grande leitora desde pequena e que um dos momentos mais felizes da sua infância era ir com a mãe à livraria escolher os livros que levavam para férias. Um bom leitor não faz obrigatoriamente um bom escritor, mas desenganem-se os que pensam que se pode ser um bom escritor sem ter lido muito. Este ano, com grande alegria, publiquei o primeiro romance da Luísa Sobral, Nem Todas as Árvores Morrem de Pé. As estreias são sempre difíceis, sobretudo quando se trata de personalidades públicas que, já se sabe, evocam frequentemente comentários infelizes e invejosos; mas esta não podia ter corrido melhor. Vamos na 11.ª edição e há cada vez mais gente a comentar positivamente este livro sério e cheio de poesia sobre a vida de duas mulheres antes e depois da construção do Muro de Berlim. Se ainda o não leu, vai muito a tempo. Parabéns, Luísa Sobral. Uma grande leitora e uma grande escritora.

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26
Set25

Metroteca

Maria do Rosário Pedreira

Embora se vendam cada mais livros em todo o mundo, ao que parece a maior fatia é de obras que pouco contribuem para a formação intelectual e ética e o desenvolvimento pessoal dos leitores; e além disso o que não baixa de maneira nenhuma é o tempo que hoje se passa diante dos ecrãs do computador ou do smartphone a ver vídeos ou mandar umas bocas nas redes sociais. Na Polónia, os hábitos de leitura estão a baixar, e o município de Varsóvia resolveu criar uma Metroteca. Uma forma que permite aos habitantes, através de uma tecnologia de ponta, alugar ou levar de empréstimo livros nas estações de metropolitano. Na primeira criada para o efeito, foi decorado um espaço de 150 metros quadrados com um acervo de 16.000 livros fornecidos por editoras a que nenhum passageiro fica indiferente. Basta aos interessados passarem o livro que querem ler por uma máquina que identifica o chip e isso permite saber onde anda o livro através de um localizador até ser devolvido à metroteca, evitando filas. Há livros sobre todos os temas e arrumados em estantes brancas e bonitas de forma fácil de encontrar. Quem quiser até pode ficar a ler no próprio metro. Um bom exemplo do que é tentar espalhar cultura mesmo debaixo de terra.

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25
Set25

Homenagem

Maria do Rosário Pedreira

Nem sempre é fácil compreender as influências de determinado escritor, especialmente quando começa o seu percurso, por assim dizer, mais profissional; mas há casos em que saltam logo à vista os escritores que leu e por quem se apaixonou. Lembro-me de sentir que Borges estava muito presente na cultura de Afonso Cruz quando li a sua primeira Enciclopédia Universal, por exemplo, e agora é mais do que evidente a paixão reverencial de Miguel Bonnefoy por Cem Anos de Solidão no romance-homenagem O Sonho do Jaguar, que recebeu o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa e o Prémio Femina, tendo sido ainda finalista do Prémio Médicis, do Prémio Renaudot e do Prémio Jean Giono. O autor, que viveu em Portugal e está agora em França (escreve, aliás, em francês), é filho de um chileno e de uma venezuelana, e escolhe precisamente Maracaíbo, na Venezuela, como lugar de acção, e como personagens três membros de uma mesma família cuja história começa com um órfão abandonado à porta de uma igreja e recolhido por uma pedinte. Às muitas semelhanças com o romance de García Márquez soma-se uma cultura vastíssima, um trabalho brutal sobre as metáforas e, sobretudo, um ritmo alucinante e uma imaginação prodigiosa. Embora me pareça que no fim esmorece ligeiramente (talvez pelo exacerbamento anterior), é uma homenagem incrível ao nobelizado colombiano e a um estilo que agora os latino-americanos acham fora de moda, mas que fez história durante décadas. Leia-se, claro.

24
Set25

Tirar do anonimato

Maria do Rosário Pedreira

María vive uma dupla crise, pessoal e profissional. Há um ano que decidiu afogar as mágoas no álcool, que o chefe perdeu a confiança nela e que ninguém valoriza o seu trabalho de investigação no jornal; e, como se isso não bastasse, o seu relacionamento está por um fio. Encontra-se ainda embriagada quando uma manhã recebe um telefonema em que a mãe lhe anuncia a morte da avó que, no período da guerra civil espanhola, escondeu imensos militantes comunistas na sua pensão e se tornou uma das mulheres mais importantes da vida de María. É no velório que esta descobre uma mulher idosa e franzina que não conhece mas que deixa a sua mãe estranhamente inquieta. Ao perguntar de quem se trata, fica a saber que se chama Isadora, mas percebe imediatamente que existe entre ambas um segredo incómodo. Tentando endireitar-se, María pensa então fazer uma pesquisa sobre a vida aventurosa da sua avó. Porém, quando procura documentos, encontra a foto de uma mulher com uma tatuagem no peito onde se lê FELD-HURE. Por trás, um nome  e uma data: Isadora Ramírez García, 14 de outubro de 1945. E então começará uma investigação sobre as mulheres não judias que foram levadas pelos alemães para o campo de concentração de Ravensbrück, algumas ainda adolescentes, para servirem como prostitutas e cobaias de experiências médicas terríveis. Isadora, a amiga da avó, sobreviveu ao horror e quer contar a María sua história antes de morrer. Esta é a narrativa de O Barracão das Mulheres, um romance-reportagem interessantíssimo que tira do anonimato muitas mulheres injustamente esquecidas ou desprezadas e conta a sua história.

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23
Set25

Filosofia para todos

Maria do Rosário Pedreira

Os que têm a minha idade lembrar-se-ão decerto do estrondoso sucesso que teve um livro chamado O Mundo de Sofia, que era uma introdução à filosofia escrita de uma forma lúdica e de fácil compreensão que esteve nos Top de vendas em todo o mundo e inaugurou um estilo a que depois se chamou no meio editorial uma narrativa não-ficcional. Era realmente incrível como uma coisa que parece a todos os adolescentes tão complexa na escola secundária afinal era muito mais simples na formulação de Josteein Garder. Na mesma linha, o escritor e investigador português Simão Lucas Pires vai dar um curso de Filosofia para todos, uma introdução a esta disciplina fascinante, a partir do Espanto, que o autor considera «um corte na monotonia do quotidiano» e algo que nos faz «perder o pé». Assim, em cinco sessões semanais entre os dias 2 e 30 de Outubro, o curso falará sobre a interpretação da realidade, a pretensão do saber, a resistência à assunção da ignorância e muitas outras interrogações em que o espanto se perfila, na vida humana e na obra de escritores. Tudo no El Corte Inglés, às 18h30. Uma filosofia acessível aos leigos.

22
Set25

Destronar a língua materna

Maria do Rosário Pedreira

A língua mais importante no mundo não é a língua materna com mais falantes, mas aquela que é a segunda língua de mais pessoas. Pois, o inglês. Quando vamos a um país cuja língua não dominamos, puxamos logo do inglês como língua de comunicação; e, devido à produção em massa de séries, filmes e música em inglês (sobretudo nos EUA), não só uma quantidade enorme de palavras inglesas são usadas quotidianamente em Portugal (sobretudo nas empresas, onde todos os cargos foram convertidos à tradução inglesa e os Recursos Humanos, quando entra alguém de novo, chega a chamar à recepção ao novo funcionário «On Boarding»), mas também a língua do país é permeada por construções gramaticais do inglês. Hoje, por exemplo, muitos portugueses usam o «tu» em lugar do «nós» ou do impessoal «se» (e tudo por causa do «you», que é simultaneamente «tu» e toda a gente); as redes sociais estão a abarrotar de anglicismos ou palavras em inglês; mas o que acho mesmo a pior das notícias é que, nas provas feitas este ano nas escolas concluiu-se que os alunos do 4.º ano (portanto, com 9 ou 10 anos) se saem melhor em Inglês do que em Português. Foram realizadas mais de 340.000 provas. Teme-se o pior.

19
Set25

A norte

Maria do Rosário Pedreira

Amanhã estarei muito longe de Lisboa, na verdade, já quase em Espanha, pois terei uma actividade no Centro de Estudos Mário Cláudio, que fica em Venade, Paredes de Coura. O Centro, dirigido actualmente pelo professor Cândido Oliveira Martins, promove mensalmente uma série de Diálogos Interartes, nos quais é suposto estarmos acompanhados por alguém que pratique uma arte diferente da nossa mas esteja ligado a nós e à nossa própria arte (que, no meu caso, será a literatura, a que faço ou dou a conhecer). Mas, curiosamente, escolhi para me acompanhar Jorge Reis-Sá, alguém que faz a mesmíssima coisa do que eu, mas, como eu, acaba por estar ligado a uma outra arte, a música, e sempre através dos livros. Enquanto eu escrevo letras para fados e outras canções, o Jorge dirige na Imprensa Nacional uma colecção de livros com as letras de ilustres autores como João Monge, Rui Reininho, Carlos Tê e outros. Falaremos disso, claro, do que ambos escrevemos (temos até um prémio em comum, o da Fundação Inês de Castro) e da sua recente participação em programas culturais televisivos sobre Camões e Camilo, em que também é preciso uma certa arte para uma pessoa se sair bem. Se estiver a norte, apareça para dialogar.

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18
Set25

A culpa do Leste

Maria do Rosário Pedreira

Falo hoje de um livro maravilhoso de uma autora búlgara, Joanna Elmy, que virá ao FOLIO no primeiro fim-de-semana para trocar conversa com Luísa Sobral a propósito de Fronteiras. Trata-se de Feitas de Culpa, um romance já traduzido em vários países. Yana, estudante búlgara recém-chegada a uma pequena cidade americana através de um programa de intercâmbio, presencia uma noite um acidente de viação. A vítima é outra estudante do Leste Europeu, condutora da bicicleta que embateu com o carro, que falece no local. A morte da rapariga é rapidamente esquecida, pois faz parte de uma série de acidentes semelhantes, sem importância para as autoridades. Mas, para Yana, é um catalisador que a desperta para a sua condição. Enquanto permanece nos EUA como imigrante ilegal, após o término do programa de intercâmbio, Yana começa então a relacionar a sua vida precária com as da mãe e da avó, intrinsecamente ligadas à sua, vidas cheias de tristeza e de culpa por a sua liberdade significar o sofrimento da geração precedente. Narrado a partir do ponto de vista de três mulheres assombradas pela violência, pelo vício e pela impossibilidade de encontrar um lugar para viver, este romance conta as suas vidas, que coincidem com a história contemporânea da Europa de Leste – da ditadura totalitária do regime comunista pós-1944 ao período de transição democrática da década de 1990 e à imigração para o Ocidente –, um território dilacerado, cujas cicatrizes mal saradas Yana, a sua mãe Lilly e a sua avó Eva herdaram.

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17
Set25

Palavrinhas

Maria do Rosário Pedreira

Uma das palavras mais usadas e que mais coisas parece significar é «género». Além de apontar para as propriedades comuns de um dado grupo de pessoas, animais ou objectos (como em «o género humano»), ou de uma dada categoria taxonómica (uma espécie), é ainda utilizado com o sentido de estilo, modo ou tipo (o género de vida que alguém leva, por exemplo), como categoria gramatical (género masculino ou feminino de uma palavra), como sexo (idem), como categoria literária (a literatura «gender» ou o escritor que escreve vários géneros, poesia, romance, ensaio) ou artística (género cubista); e, no plural, «géneros» refere-se também a produtos, alimentos ou mercadorias (há falta de géneros na Palestina actualmente para ajudar as populações à fome). Curiosamente, a etimologia desta palavra de origem latina aponta para o sentido de «nascimento, descendência, origem, raça» (os genes, enfim...) e é por isso que uma pessoa «generosa» é, na base, não uma pessoa que oferece géneros desinteressadamemente, como eu pensava, mas um «fidalgo ou nobre, de família ilustre, de boa qualidade (que, no fim da linha, é o que pode oferecer os tais géneros). Sempre a aprender.

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