Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

15
Out25

Dançar Eça de Queiroz

Maria do Rosário Pedreira

Amanhã estreia um espectáculo de dança que exerceu sobre mim grande curiosidade. Trata-se de uma adaptação da obra Os Maias, de Eça de Queiroz, que apesar da sua popularidade e intemporalidade nunca tinha antes chegado aos palcos do bailado. A autoria cabe ao coreógrafo Fernando Duarte, que divide esta sua criação em três actos e, segundo a folha de sala da Companhia Nacional de Bailado, revitaliza assim "a narratividade da dança, uma dimensão amplamente apreciada e reconhecida pelos públicos", deste modo "evocando, reinterpretando e dando nova vida a personagens e questões" universais. Estou curiosa porque não será fácil passar da literatura para outra arte mantendo a verve e a ironia do nosso Eça, mas sinto-me tentada a ir ver, até porque acompanhará o espectáculo ao piano o talentoso António Rosado e teremos ainda solistas da Orquestra de Câmara Portuguesa. Até dia 26, no Teatro Camões, em vários horários, consoante o dia.

14
Out25

Palavrinhas

Maria do Rosário Pedreira

Estava eu a escrever a palavra «velado» quando pensei logo que ela implica algo que está escondido, coberto por um véu (uma mulher velada, uma história abordada veladamente...). Porém, todos sabemos que o prefixo «re-» implica repetição (reler é ler mais de uma vez, por exemplo); e, assim, fez-me uma certa espécie que «revelar» não quisesse dizer que uma coisa está ainda mais velada e escondida do que é normal (que tem mais de um véu), mas justamente o contrário, ou seja, a mesmíssima coisa que «desvelar», que usa o elucidativo prefixo «des-» (que, como toda a gente sabe, é de negação, como em «desfazer» ou «desatar»). A nossa língua está cheia destas singularidades; e, consultando o querido Dicionário Houaiss, apareceu-me então «velar» com o sentido de «estar alerta», de «vigiar», atitude absolutamente necessária quando «velamos» um doente, por exemplo; e, efectivamente, precisamos muito de estar alerta para podermos «descobrir» alguma coisa (e «descobrir» é também tirar aquilo que cobre, tirar o véu), que é o que significa o verbo latino que está de facto na origem da palavra «revelar». Se pensarmos bem, a revelação da fotografia é, no fundo, o que se descobre no papel quando este é mergulhado no líquido, a imagem que estava velada e que de repente se deixa ver. Que giro.

13
Out25

O fado do fado

Maria do Rosário Pedreira

Leio quase tudo o que encontro sobre fado. Não só é um assunto que me interessa desde há muito, mas também escrevo uma crónica mensal no premiado jornal digital A Mensagem de Lisboa sobre a matéria e, por isso, estou constantemente à procura de histórias e episódios engraçados para dividir com o público. É sobretudo por causa disso que me interessa divulgar um livro que acaba de sair (o lançamento será no dia 17, na Fundação José Saramago), da autoria de Sérgio Luís de Carvalho, intitulado Lisboa Fadista. Fala de tudo um pouco: das origens sempre polémicas e discutíveis da canção de Lisboa até ao seu estatuto de património imaterial pela UNESCO, sem dúvida merecido. Como passou o fado de uma arte fechada nas casas de fado para os grandes palcos? Como foi que, depois de adorado e trauteado por todos os Portugueses, levou uma tareia tal depois da Revolução que só era cantado lá fora e se tornou uma canção quase envergonhada, recuperando apenas a sua popularidade mais de vinte anos mais tarde?  Como se tornou o fado um símbolo do País e nos faz levar a mão ao peito e comover, sobretudo quando o ouvimos fora de Portugal e com saudades de casa? Tudo isto está, pelos vistos neste Lisboa Fadista. Se gosta de fado, não o pode perder.

10
Out25

Revisitar Portugal

Maria do Rosário Pedreira

Há muitos anos, quando eu trabalhava na Temas e Debates, a editora do Círculo de Leitores Guilhermina Gomes publicou uma colecção que teve um tremendo sucesso chamada Crónica do Século XX em Imagens. Era dirigida pelo jornalista Joaquim Vieira e tinha dez volumes cartonados, um por década, sendo constituída sobretudo por fotografias e pequenas legendas que contavam a história do País. Creio que se venderam cerca de 200.000 colecções e ainda hoje os volumes aparecem muitas vezes nas listas dos alfarrabistas. Hoje, com a Internet, temos uma página digital que faz este mesmo trabalho, página essa da responsabilidade de Gonçalo Farlens, um estudante de História na Faculdade de Letras de Lisboa nascido em 2002, que se dedica a narrar episódios da história nacional através de fotografias de época. E agora, além dessa página, temos o livro homónimo Portugal Antigamente, assinado pelo mesmo Gonçalo Farlens, que segue exactamente o mesmo princípio, juntando num só volume não apenas as imagens dos mais emblemáticos factos ocorridos em Portugal desde a implantação da República até ao funeral de Amália, mas também representações de episódios de que não nos lembraríamos assim de repente e, afinal, ali estão para nos recordar do que na época sentimos (a erupção do vulcão dos Capelinhos, por exemplo, ou o mítico bar Frágil). Muito interessante esta viagem fotográfica!

index.jpg

09
Out25

Uma nova revista

Maria do Rosário Pedreira

Quem leu a Odisseia, de Homero, sabe bem que Ulisses, quando regressava a casa finda a Guerra de Tróia, ficou prisioneiro dos encantos da bela Calipso durante anos numa ilha chamada Ogygia. Pois bem, é justamente o nome dessa ilha, Ogygia, que hoje dá nome a uma revista literária e artística açoreana que tem (como Calipso) artifícios bastantes para atrair e prender os leitores, sejam estes masculinos ou femininos. Editada nos Açores e dirigida por duas mulheres que são grandes leitoras, Avelina da Silveira e Paula de Sousa Lima (esta última finalista do Prémio LeYa com o romance Paraíso), trata-se de uma revista online cujas colaboradoras são exclusivamente mulheres. Neste número, podemos por exemplo encontrar a escritora Leonor Sampaio da Silva, de quem publiquei este ano o magnífico Passagem Noturna, as poetisas Dora Nunes Gago ou Ângela Almeida e a pintora convidada Nina Medeiros. Além dos textos literários, contos ou poemas (pronto, também escrevi um), a revista, cujo número inaugural é dedicado ao tema da ilha, contém ainda textos críticos e entrevistas. Vale muito a pena, claro, folhear esta novidade cujo link aqui vos deixo.

https://pub.marq.com/Ogygia1/

08
Out25

No Porto

Maria do Rosário Pedreira

Afonso Reis Cabral viveu parte importante da sua vida no Porto, e é lá que vai acontecer logo à tarde a apresentação pública do seu mais recente romance, O Último Avô, que teve uma gestação demorada, mas valeu a pena, até porque já vai em segunda edição. Desta feita, será o escritor Mário Cláudio o orador da sessão e esperamos o melhor, já que nos deu a entender que, ao fechar o livro, o romance o atingira realmente como um clarão. Lembro que o livro conta a história de Augusto Campelo, um genial escritor que, pouco antes de morrer, queimou no jardim de casa um manuscrito a que dedicara muito tempo e que ninguém sabia de que tratava, embora os mais próximos acreditassem ser finalmente a obra sobre a sua experiência na Guerra Colonial, que descrevia frequentemente como traumática em entrevistas. Mas, na verdade, essa sua vivência é apenas um lado deste O Último Avô, pois não há como esquecer o lado do neto-narrador e a rememoração de episódios familiares, por vezes igualmente traumáticos, que incluem a fuga de casa da sua mãe, filha mais nova do escritor, no final da adolescência. Uma guerra de palavras também. Não percam. O convite fica abaixo.

IG_convite_o_ultimo_avo_PORTO.png

07
Out25

Gémeos separados

Maria do Rosário Pedreira

Ela coleciona camisolas. Ele tem dois gatos. Ambos adoram Nova Iorque e, aconteça o que acontecer, hão de mudar-se para lá quando fizerem 28 anos. Porém, de repente, ele diz que quer passar algum tempo sozinho.

E se uma das metades de um par de gémeos não quiser continuar a viver? E se a outra não conseguir viver sem essa metade? É esta a questão central do presente romance, em que a narradora é a gémea de um rapaz que se suicidou e relembra muitas histórias de infância e também as suas vidas adultas com mágoa, saudade, raiva e insegurança em relação ao futuro. De uma maneira aparentemente desprendida mas muito perspicaz, Aquilo em Que Preferia não Pensar conta a história do que acontece quando a pessoa com quem construímos as bases de toda uma vida desaparece subitamente, e as memórias que restam são as de um pai que já era ausente antes de ter morrido e de uma mãe geóloga, fria como uma pedra. Finalista do Booker Prize Internacional, traduzido em mais de uma dezena de línguas, o romance de Jente Posthuma é uma exploração comovente do luto, contada através de episódios breves e cirúrgicos, impregnados de uma suave melancolia e, o que é surpreendente, de um humor inesperado e corrosivo. Um livro que se debruça também sobre o facto de a saúde mental depender tantas vezes da vida familiar. Quase a sair para as livrarias e muito, muito original.

_opt_VOLUME1_CAPAS-UPLOAD_CAPAS_GRUPO_LEYA_DQUIXOT

 

06
Out25

O regresso

Maria do Rosário Pedreira

Depois de há três anos ter publicado o seu quarto romance com a Casa das Letras chamado Velhos Lobos, Carlos Campaniço regressa com uma história claramente alentejana. Pouco depois do 25 de Abril, os trabalhadores rurais do Sul ocupam a terra dos latifundiários para quem trabalharam como escravos ao longo de décadas. Em Aldeia Velha – o lugar onde decorre a acção deste romance – a sociedade depara-se de repente com as mudanças criadas pela Reforma Agrária, mas também com as consequências do fim da Guerra Colonial e as novas liberdades trazidas pela Revolução. Veremos, por isso, como reagem os que perderam as propriedades (e se insurgem ou resignam com a situação) e os que continuam a trabalhar de sol a sol, embora agora para seu próprio sustento. E também os que, depois de terem lutado anos pela democracia, são agora membros do Partido e ocupam funções de relevo, ou os que acreditaram no mundo perfeito e vêem os seus sonhos esfarelar-se todos os dias. Mas há também coisas que nunca mudam, por mais que os tempos tenham mudado: a bisbilhotice, a mentira, a má-língua, a maldade, o sofrimento. Num romance em que a verdadeira personagem é a própria aldeia, é curiosamente o carteiro o elo de ligação entre todos, trazendo-nos a forma como cada um assimila os novos tempos e perspectiva o futuro. Porém, o muito que este homem cala é talvez aquilo que mais importa. Carlos Campaniço, no seu estilo inconfundível e com uma linguagem que é um tremendo veículo sensorial, oferece-nos com A Cinco Palmos dos Olhos uma obra profundamente original sobre o período da Reforma Agrária.index.jpg

03
Out25

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

«[…] Mas é em relação a uma mancha antiquíssima que sobretudo pretendo precaver os passos do menino, mancha de que umas vezes me envergonho, mas de que outras vezes, confesso sem rebuço, me comprazo numa espécie de infame altanaria. É necessário que compreenda que no íntimo da nossa cepa jazem águas negras e abissais, as quais águas, ainda quando não se agitam, não cessam de despedir pútridos vapores, soprados pelas mais diabólicas das entidades, habitantes dos círculos do Inferno. Nos nossos avós, e de uma maneira genérica em toda a nossa parentela, detecta-se uma como que chaga do espírito, sempre aberta, ardendo na impaciência de contaminar quem dela se acerque. Os nossos mais longínquos antepassados viveram numa inquietude que os empurrava de terra para terra, incapazes de assentar num sítio que lhes fosse favorável, encandeados por uma estrela que jamais lhes entremostrava o rumo, e que os trazia num sobressalto que lhes devorava as entranhas. Arrastados pelo fogo de uma paixão que tudo consumia, e que nada se mostrava susceptível de saciar, sacrificavam o próprio tempo que lhes calhava, e gostaria de assegurar ao menino, o que infelizmente não é viável, que jamais teriam imolado a dignidade. Na província de Trás-os-Montes, julgo eu, donde somos oriundos, acertaram em nos pôr a alcunha de “os Bro­cas”. Se consultar o menino um bom dicionário, encontrará como sinónimo deste vocábulo “verruma”, e “alavanca”, e “furador”, e “patranha”. Confiro à sua imaginação que desde já se me antolha riquíssima o encargo de decidir da justeza de tal antonomásia.»

Mário Cláudio, Camilo Broca, 5ª edição no ano do bicentenário de Camilo Castelo Branco

02
Out25

Mapas literários

Maria do Rosário Pedreira

Há uma editora chamada Bairro dos Livros que constrói uns livros-objectos fascinantes que são, na verdade, guias literários de várias cidades portuguesas acompanhados de mapas que nos permitem fazer uma visita exclusivamente literária a essas cidades. Com eles, descobrimos os escritores que ali nasceram e viveram, os que escolheram a cidade como pátria ou local de férias, os que por lá passaram e deixaram marca. Mas não só: vão à procura de referências ao local em romances e poemas de escritores nacionais, partilhando esses excertos ou episódios de forma a enriquecer a nossa cultura literária; e, por outro lado, descrevem-nos historicamente muitos dos locais a visitar que foram referidos na obra de escritores. São ilustrados e bilingues, para que os turistas também se possam entreter. Recentemente, foi publicado o guia dedicado à Sertã, cidade onde decorre inclusivamente uma maratona da leitura muito conhecida e sobre cuja Capela da Nossa Senhora dos Remédios escreveu o nosso Eça a seguinte quadra: «Fui à Senhora dos Remédios/Levei três vinténs de prata/Fui a pé, vim a cavalo/Não há coisa mais barata.» Já disponíveis estão os guias do Porto, de Baião, de Évora, de Matosinhos, da Póvoa de Varzim e de Penafiel. Valem mesmo a pena! Para mais informações, deixo-vos o link:

www.bairrodoslivros.com

A autora

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2023
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2022
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2021
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2020
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2019
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2018
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2017
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2016
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2015
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2014
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2013
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2012
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2011
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2010
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D