Pensei que ainda tinha tempo de escrever qualquer coisa de interessante hoje, mas tenho tanta outra coisa para deixar pronta que não consegui. É que amanhã vou ser operada à anca (vou pôr uma prótese, para ser mais concreta), processo pelo qual já passaram a minha irmã e a minha mãe e portanto era de esperar que eu não escapasse. Estou velha! Há três anos com dores, depois de doses de anti-inflamatórios que tive de abandonar porque me subiam a tensão; depois de muitas tentativas de adiar o processo com infiltrações disto e daquilo que não resultaram, cansada de andar a gemer e a coxear e de não poder dar as minhas caminhadas, chegou mesmo a hora. Creio que não será nada de complicado, mas, como eu fecho para obras, assim acontecerá provisoriamente ao blogue, prometendo regressar em breve quando a saúde estiver restabelecida e eu aí para as curvas (não sei mesmo quando poderei sentar-me à secretária confortavelmente com uns posts novinhos em folha). Darei notícias mal possa e desejo-vos boas leituras neste entretanto.
Para mim, a Fundação Calouste Gulbenkian foi sempre uma referência, não só em termos do apoio às artes e à cultura, mas também do ponto de vista social com o seu programa educativo. Na semana passada, o jornal Público trazia, de resto, mais uma boa notícia sobre um projecto que visa dar aos alunos de bairros desfavorecidos oportunidades iguais às que têm os filhos das famílias sem problemas financeiros. Como? Pois bem, a Fundação acha que os resultados escolares podem mudar nos bairros ditos problemáticos se os estudantes usufruírem de explicações; e está a recrutar professores e a escolher alunos para participarem da experiência. Os locais, para já, que vão receber estes Centros de Estudo Gulbenkian serão o Bairro Padre Cruz (Lisboa), o Bairro do Zambujal (Amadora) e o Vale da Amoreira (Moita); mas a ideia é, se os objectivos se cumprirem, estender a experiência a outros bairros carenciados. As crianças e jovens envolvidos neste primeiro ano serão à roda de 90, do 4.º ao 12.º ano. A Fundação tem uma relação próxima com as escolas destes bairros e pretende transformar alunos "invisíveis" em melhores alunos e alunos mais interessados, já que, além das explicações, proporcionará actividades culturais fora do local de residência e desenvolverá um programa de mentoria com pessoas que são modelos de referência. Aplaudo a iniciativa. Bendita Gulbenkian.
Umas das boas surpresas de 2025 foi o aparecimento de Luísa Sobral como escritora de romances. Digo isto assim porque a Luísa, antes do romance que publicou em fevereiro e já vai em mais de uma dúzia de edições, já era na verdade uma escritora, só que de canções. Acredito que passar do registo curto para o mais longo não lhe tenha sido exactamente fácil; em todo o caso, as suas canções já eram histórias e, como tal, serviram certamente de treino para este mergulho na ficção mais longa. Aliás, Luísa Sobral conta muitas vezes como o seu romance nasceu de uma história verdadeira sobre a qual começou por escrever uma canção. Mas não bastou, e ainda bem. Foi para mim, editora, e para os muitos leitores, aquilo a que se chama uma estreia feliz, embora o livro não trate propriamente de felicidade. Ora, para quem ainda não conhece Nem Todas as Árvores Morrem de Pé, recomendo que o leiam. E, se estiverem para os lados de Santiago do Cacém, podem assistir neste sábado, no âmbito da programação do Outono Literário, a uma conversa entre a autora e o jornalista João Morales, esse homem dos sete ofícios que consegue estar em todo o lado, sobre a dita obra, na Biblioteca Manuel José do Tojal, em Santo André. Será às 16h00.
A terminar o ano em que se celebra o bicentenário do nascimento de Camilo Castelo Branco, o jornal Expresso resolveu alargar a sua rubrica "Boa cama, Boa mesa" aos lugares que marcaram a vida do escritor romântico, levando-nos a passear com ele munidos de um pequeno roteiro saído com um recente número do semanário. Pretende-se que conheçamos em traços breves a história do menino que cedo foi deixado pela mãe e que dedicou a sua vida à escrita romanesca, tendo amado loucamente, tendo estado preso, tendo sofrido de tuberculose (li algures que o Dr. Sousa Martins chegou a ser seu médico) e tendo-se suicidado aos 65 anos. Em vários momentos da vida, uns mais boémios do que outros, o opúsculo transporta-nos a S. Miguel de Seide, aos sítios que Camilo frequentava no Porto (como o Teatro Nacional de S. João, o edifício da Rua de Santa Catarina onde se casou com Ana Plácido ou mesmo a Cadeia da Relação, onde escreveu Memórias do Cárcere), à cidade de Braga e também aos locais onde comeu e dormiu, para que lhe sigamos o rasto. Mas este livrinho também não esquece as suas obras maiores, proporcionando itinerários nelas baseados que serão por certo belíssimos de fazer com as palavras de Camilo no Coração, na Cabeça e no Estômago.
O Manel mostrou-me um dia destes um vídeo divertido no qual Mariana Mortágua e André Ventura pareciam colegas cordatos e até amigalhaços. Era, está bem de ver, um desses numerosos filmes produzidos por inteligência artificial para, à primeira vista, ver se caímos na esparrela de acreditar e, logo a seguir, nos fazer rir. Leio num jornal espanhol (provavelmente o El País, que assinei numa altura em que houve uma campanha para ajudar os jornais) que hoje em dia a frase de S. Tomé «ver para crer» perdeu o sentido, já que podemos estar a ver duas pessoas falar, rir, dar a mão, jurar que se portam bem, mas tudo não passar de uma encomenda a essa coisa que hoje enche o nosso quotidiano chamada Inteligência Artificial. Como dizer, porém, a crianças e adolescentes que vão à Internet que aquilo que elas estão a ver e a ouvir não aconteceu se parece estar ali a prova do contrário? A capacidade de distinguir entre realidade e construção virtual têm-na os adultos (e não todos, daí que haja tantas notícias falsas e manipuladoras nas campanhas eleitorais), mas, neste artigo do El País de que falo, o seu autor, Pablo Lafuente Cordero, diz que, em tempos de Inteligência Artificial, é forçoso que a educação, seja na escola seja em casa, avance ao mesmo ritmo da tecnologia e evitar que os menores naveguem na Internet sem acompanhamento; é também necessário propor aos jovens exercícios simples que fomentem o desenvolvimento do pensamento crítico e que os levem a fazer perguntas antes de acreditarem em tudo o que vêem e reenviarem para todos os amigos um vídeo, uma fotografia ou uma história falsa. Concordo, claro.
Provavelmente, já não irão a tempo (e eu estou a trabalhar, tampouco poderei ir), mas hoje às 11h00 passa no auditório da Fundação José Saramago um documentário sobre o nosso Prémio Nobel da Literatura. O intuito é celebrar aquele que seria o seu 103.º aniversário e, ao mesmo tempo, fazer-lhe um retrato através de vozes de outros, alguns de lugares longínquos, incluindo a própria realizadora Carmen Castillo, que é chilena. O filme tem por título José Saramago. O Tempo de Uma Memória e é, segundo a newsletter da Fundação, um objecto construído a partir de reflexões do escritor sobre vários temas, como a memória, a criação literária ou a passagem do tempo, que conta também com testemunhos de pessoas bastante díspares, como a actriz Maria de Medeiros, o astrónomo David Elbaz e o grande fotógrafo Sebastião Salgado. Eu adorei o filme de Miguel Gonçalves Mendes sobre o José Saramago (José e Pilar) e espero que este documentário fique disponível em breve para o vermos nem que seja em casa, nas nossas televisões. Há poucos documentários sobre escritores portugueses (e ainda há pouco estreou um sobre António Gedeão/Rómulo de Carvalho, que também não consegui ir ver).
Conheci o escritor Paulo Moreiras no princípio deste século, ainda eu estava na editora Temas e Debates e tinha então começado a publicar literatura portuguesa. O Paulo tinha ganho uma bolsa de criação literária para escrever um romance pícaro, um género infelizmente pouco cultivado entre nós, e apareceu na editora com aquela maravilha chamada A Demanda de Dom Fuas Bragatela, que tem mais de vinte anos de edição mas, graças a Deus, continua disponível no mercado. Foi um início brilhante, a que se seguirem romances mais curtos (Os Dias de Saturno, O Ouro dos Corcundas...) e obras noutros registos, como um delicioso livrinho etno-literário sobre a ginjinha, e um conjunto de Bilhetes de Identidade sobre coisas tipicamente portuguesas (o tremoço, a morcela, o palito...) que em breve coligiremos num só volume ilustrado. Mas hoje queria dizer-vos que o romance do Paulo que mais se parece com o inaugural, intitulado A Vida Airada de Dom Perdigote, com um fantástico trabalho de recuperação da linguagem e da dinâmica picaresca, foi este ano galardoado com o Prémio PEN de Narrativa, que vai ser entregue hoje às 17h00 na Torre do Tombo em Lisboa. Teremos o maior gosto em que apareça para felicitar o autor.
Lisboa, 21 de janeiro de 2017 (sábado) – Dívidas de gratidão para com o meu corpo. À parte uma asma alérgica trazida de África, entretanto debelada, uma apendicite operada de urgência em Espanha, já sob ameaça de peritonite, a artrite reumatoide do pulso, o meu foi sempre um corpo amável, cordato, satisfatoriamente competente em dar-me o que podia e em receber o que lhe era devido. Em 2014 veio-lhe um sobressalto, um desvio de rumo, talvez uma distorção. Sem nunca o censurar nem ofender, continuarei a cuidar dele, corpo de mim mesmo. Aprenderei a escutar os seus silêncios e o menor suspiro que dele me venha, sabendo que daqui em diante paira sobre nós os dois uma sombra, uma ameaça. Nele, corpo, mora a minha vida. Nada há mais saudável do que estarmos vivos.
João de Melo, Novas Fases da Lua (primeira entrada do diário)
Associo a cor vermelha ao 25 de Abril, naturalmente por causa dos cravos. E não me canso de falar da data libertadora aos mais novos, que não fazem a mais pequena ideia da fome que passavam tantos portugueses nas aldeias ainda sem luz eléctrica e nos campos onde trabalhavam de sol a sol com uma malga de azeitonas e meia sardinha para cada um. Parece muito populista, mas é a mais pura verdade. Eram tempos escuros; e não nos iludamos, muitíssimo piores do que aqueles que estamos a viver, apesar dos perigos que já vislumbramos e da falta de perspectivas para os jovens. Por isso mesmo, as comemorações desta nossa Revolução fazem sentido todos os dias e, assim, convido-vos a ler o livro Revolução, de Maria Inácia Rezola, responsável pelas comemorações oficiciais dos 50 anos do 25 de Abril, com quem tive o gosto de trabalhar há muitos anos, ainda na Temas e Debates, num livro ilustrado sobre os presidentes da República portuguesa. O lançamento de Revolução decorre na Associação 25 de Abril (where else?) e terá o formato de uma conversa entre a autora, o coronel Vasco Lourenço (um dos capitães de Abril), o historiador e comentador televisivo António Costa Pinto, conversa essa que será moderada pelo grande jornalista José Pedro Castanheira, também autor de vários livros, um dos quais o recente Histórias da Pide. Para nunca nos esquecermos.
Amanhã começa no Âmbito Cultural do El Corte Inglés um curso que tem todo o ar de ser interessante. Tem por título Melodia Passageira e assume-se como um minicurso de Literatura Portuguesa e Música. Ministrado por João Dionísio, que é docente de Crítica Textual e Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras de Lisboa, o dito curso está dividido em quatro sessões (além da de amanhã, haverá mais nos dias 20 e 27 de Novembro e a útima será a 4 de Dezembro). Amanhã falar-se-á de poesia feminina e lírica trovadoresca; no dia 20, a tónica estará no Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett; no dia 27, as odes de Pessoa vão casar-se com a música oitocentista; e, por fim, no dia 4 de Dezembro, as referências musicais da poética de Cesariny vão encontrar-se em Lopes Graça e noutros. Promete.