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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

30
Jan26

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

De Vittoria, enfim, apesar da alegria, apesar da confiança que nos merecia, sabíamos apenas o que víamos. Era distante, mas curiosa, acolhedora, mas reservada, precisa, mas evasiva. Havia no seu modo de falar um certo fatalismo que nos deixava perplexos. Ou fascinados. Eu contava-me entre os fascinados. Chegou um dia, com a sua gargalhada que começava grave e terminava aguda, comprou uma casa onde todos podiam entrar e sair à vontade, nunca discutiu com ninguém, nunca mudou de corte de cabelo e morreu numa banheira que todos conhecíamos muito bem, embora nunca tivéssemos entrado nela, apenas porque ficava ao fim do corredor, exatamente do lado oposto à porta de entrada. Um acidente, senhora doutora, um terrível acidente. Um infortúnio.

 

Chiara Valerio, Quem Diz e Quem Cala, tradução de Nuno Camarneiro, no prelo.

29
Jan26

Prémio Wook

Maria do Rosário Pedreira

Hoje tenho uma actividade a meio da tarde que diz respeito ao anúncio do vencedor do Prémio da Wook para autores de romances de estreia. Vou para o Teatro Thalia roer as unhas, porque tenho dois escritores na final: a Sara Duarte Brandão, autora de Quem Tem Medo dos Santos da Casa, que na verdade ganhou também, ainda inédito, o Prémio de Romance Cidade de Almada; e o Nuno Duarte, que escreveu Pés de Barro e, com ele, ganhou o Prémio LeYa. Entre os finalistas estão outros livros que li e de que aqui falei, um que não li mas de que ouvi falar e um de alguém que não me dizia nada quando os finalistas foram anunciados e que depois fui ver quem era. Pode ganhar qualquer dos concorrentes, claro, e não crio expectativas para não me desiludir e depois fazer cara de desapontada, como aquelas actrizes nos Óscares que aplaudem a vencedora mas não conseguem esconder o sorriso amarelo por não terem tido o prémio. Vou lá essencialmente para fazer companhia à Sara e ao Nuno, tudo boa gente, que já leram o livro um do outro, e isso é que é o grande prémio. Pronto, torçam por nós.

28
Jan26

A autobiografia familiar de Eduardo Halfon

Maria do Rosário Pedreira

Aqui há cerca de um ano, um grupo de leitores da Cinemateca convidou-me para lá ir partilhar sugestões de livros. Lembro-me de pensar que talvez não fosse boa ideia falar dos que publico, porque, não podendo falar de todos, cometeria uma injustiça que, de certezinha, acabaria por chegar aos ouvidos de algum dos autores omitidos. Então, mais do que autores, sugeri projectos literários que me parecem muitíssimo interessantes, entre os quais o de Eduardo Halfon (o guatemalteco e judeu que residiu anos a fio nos Estados Unidos e só sabia inglês, pelo que, de volta à Guatemala, começou a escrever em espanhol para aprender a língua e nunca mais parou). Trata-se de uma obra coerente, toda ela centrada na sua família e em episódios decorridos em diferentes épocas e com diferentes membros, da qual tinham saído em Portugal Canção e Luto (este último é maravilhoso) e acaba de sair Tarântula. Vencedor do Prémio Médicis em França em 2024, este livro, que é mais um passo nessa espécie de autobiografia familiar, fala do regresso do ainda jovem Halfon à Guatemala numas férias para participar de um acampamento judeu, cujo conselheiro traz uma farda com uma tarântula bordada no braço. Mas, se a ideia era os meninos distraírem-se, tire daí a ideia: o campo tem tudo a ver com... um campo de concentração? Pois. Os franceses acharam este pequeno romance uma verdadeira jóia, apesar do horror das tarântulas. Não perca.

27
Jan26

Botânica

Maria do Rosário Pedreira

Esta semana sucedem-se as reuniões de programação e apresentação e não consigo um minuto para um texto como deve ser aqui no blogue, e a tempo dos madrugadores. Vou atamancar, desculpem. Não sei se sabem, mas, além dos livros, adoro botânica; tenho muitos livros sobre árvores e uma aplicação no telemóvel para identificar as espécies que vejo por aí e desconheço. Adoro usar árvores nos poemas, porque há nomes maravilhosos como araucária ou liquidâmbar, por exemplo. E quem sabe mesmo a sério de árvores é António Bagão Félix (sim, o senhor que foi Ministro do Trabalho e das Finanças e também falava com Fernando Alves na TSF um dia por semana há uns anos). Ora, ele vai dar duas aulas (a 12 e 19 de Fevereiro às 18h30) no El Corte Inglés sobre o assunto; na primeira, falará de raízes, caules e ramos e na segunda, de folhas, flores e frutos. Vou tentar não perder, mas pelo menos posso dizer que tenho o livro dele sobre árvores lá em casa. Vamos ver se amanhã consigo voltar aqui.

26
Jan26

Educação sexual

Maria do Rosário Pedreira

Curiosamente, muitos foram os pais que no ano passado solicitaram às escolas que os seus filhos não frequentassem aulas de Educação Sexual. A Educação Física, de Rosário Villajos, romance vencedor do Prémio Biblioteca Breve, explica como muitas vezes a ignorância sobre sexo contribui para enormes equívocos e põe em risco a vida dos adolescentes. Catalina, com dezasseis anos acabados de fazer, foge de casa da sua melhor amiga, nos arredores da cidade onde vive, depois de ter passado por uma experiência traumática. Sem forma de voltar para casa e profundamente abalada, conclui que só lhe resta pedir boleia; ora, como todas as raparigas da sua idade, tem horror a entrar no carro de um desconhecido, mas não tanto como o que imagina que a espera se não cumprir o horário imposto pelos pais, que são incrivelmente autoritários. Enquanto aguarda na estrada, Catalina tenta compreender o que acabou de acontecer-lhe e, ao mesmo tempo, recorda uma vida marcada desde cedo por uma relação difícil com o próprio corpo, pela ignorância de tudo o que diga respeito a sexo e pela raiva em relação a um mundo que parece empenhado em culpá-la só por ser mulher. Vale mesmo a pena ler este livro e oferecê-lo aos pais de raparigas adolescentes (e às própria), especialmente se forem bota-de-elástico.

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23
Jan26

Livros em adaptação cinematográfica

Maria do Rosário Pedreira

Bato com o nariz num artigo que guardei há tempos sobre algumas adaptações cinematográficas de livros conhecidos que vão acontecer em 2026, a primeira das quais surpreendente: A Odisseia (Matt Damon será Ulisses, calculem). Sem olhar para o nome do realizador cheirou-me logo a grande estopada, mas pode também ser uma grande produção, é esperar para ver. Já O Monte dos Vendavais pode dar um filme bonito, vi uma adaptação em tempos, que não sei se é a única, e que na altura achei muito empolada e com dramatismo exagerado por parte dos actores, acompanhando o drama do livro de Emily Brontë. Também O Deus das Moscas, do nobelizado William Golding, vai ter uma nova versão de Jack Thorne (vi uma de Peter Brook e terei dificuldade em separar-me dela). E o mesmo acontece com O Estrangeiro, de Albert Camus, agora com realização de François Ozon (mas com outras no passado, entre elas uma de Visconti no preto e branco mágico). Um Cântico de Natal, de Dickens, já deve ir na sua quadragésima adaptação e vai sair certamente em Dezembro para o Natal ser ainda melhor. E nesse mês poderemos também ver a parte III  de Duna, enquanto as crianças poderão encantar-se com O Sobrinho do Mágico, um dos volumes das «Crónicas de Narnia», que publiquei há anos sem fim, do inglês C. S. Lewis. Haverá, claro, filmes dos livros de Colleen Hoover e Nicholas Sparks, mas não tenciono ir ver.

22
Jan26

Consultas poéticas

Maria do Rosário Pedreira

Tenho reparado ao longo dos mais de quinze anos que tem de existência este blogue que os posts que se referem à poesia têm menos leitores e, sobretudo, muito menos entusiasmados comentadores. Mas não desisto de publicar matéria que se prende com este género literário porque acho mesmo que quem lê poesia pode chegar ao paraíso com uma mera imagem. E, bem, se não souberem por onde começar, há hoje consultas poéticas, tal qual as médicas, nas quais alguém recomenda um autor ou livro. É o caso do Teatro Municipal de São Luiz que hoje se estende para o efeito ao Mercado do Rato, no espaço Dona Ajuda, onde, num programa incluído na Noite da Solidariedade, os actores se tornam "médicos de serviço" e oferecem momentos de escuta de poesia a quem por ali passar; são eles Cátia Nunes, Diogo Fernandes, Isabél Zuaa, Tobias Monteiro e Zia Soares, mortinhos por dizer poemas, claro está, a ver se conseguem pescar ou fazer em cada vinte minutos mais um apreciador de poesia. Esta actividade acontece simultaneamente em vários teatros de várias cidades do mundo, em França, Itália, Roménia, Kosovo... Uma parceria bem interessante.

21
Jan26

Clube de leitura

Maria do Rosário Pedreira

Em 2025 tivemos muitas alegrias na LeYa, entre as quais o facto de a escritora Lídia Jorge ter sido a personalidade escolhida pelo Presidente da República para discursar no Dia de Portugal e, mais tarde, ter sido contemplada com o Prémio Pessoa. E é justamente esta autora quem vai estar presente no dia 22, a próxima quinta-feira, às 19h00, na Livraria Buchholz, para participar no Clube de Leitura deste mês, como convidada especial. Na sessão, falar-se-á de livros como Misericórdia e O Vento Assobiando nas Gruas, mas a conversa com os presentes vai naturalmente alargar-se a outras obras de Lídia Jorge e até a obras de outros autores, como Lobos, de Tânia Ganho, e O Fim dos Estados Unidos da América, de Gonçalo Tavares. Lídia Jorge é uma das autoras de língua portuguesa com mais visibilidade internacional, tendo os seus livros o traduzidos em várias línguas e tendo sido galardoada com prémios como o Prémio ALBATROS da Fundação Günter Grass ou o Prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas de Guadalajara. A entrada do Clube do Livro é livre (depende apenas dos lugares disponíveis, e vai sempre imensa gente). Vai valer a pena, claro.

 

 

20
Jan26

Sai hoje

Maria do Rosário Pedreira

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Na última sexta, deixei aqui um excerto de Coração sem Medo, o mais recente romance de Itamar Vieira Junior, livro que fecha a «Trilogia da Terra», iniciada com o premiadíssimo Torto Arado (o único título no Brasil nomeado para o Dublin Award e finalista do Booker Prize e traduzido em mais de trinta idiomas), e seguida com o lindíssimo Salvar o Fogo. Este último romance, que sai hoje, é um texto magistral sobre a injustiça e a desigualdade, mas também sobre a coragem inquebrantável de uma mãe em busca do seu filho. Rita Preta, caixa num supermercado, vê a sua vida virada do avesso quando Cid, o filho mais velho, desparece de casa depois de uma discussão acalorada e não volta a ser visto na comunidade. Inicialmente convencida de que se tratou apenas de um arrufo passageiro, Rita acabará por perceber que o que aconteceu a Cid foi muito mais grave e que terá de ser ela a agir para recuperar o primogénito, mesmo correndo o risco de perder o emprego, o namorado e até a vida, ameaçada por grupos violentos e pela própria Polícia. Mas Rita é forte e obstinada, não desistirá. E fará história, a história que um dia escreverá Cainho, o seu filho do meio, que é uma espécie de alter-ego de Itamar Vieira Junior, o escritor que descobriu nas histórias do seu povo a matéria-prima da criação literária. Não perca. O autor estará em Portugal no final de Fevereiro para participar em várias actividades.

 

19
Jan26

Escritores na cadeia

Maria do Rosário Pedreira

Não, não vou falar de escritores que, em determinada altura das suas vidas, foram presos (o caso, por exemplo, de Oscar Wilde ou Jean Genet). Falo, sim, de reclusos que se tornam escritores atrás das grades, ocupando-se com uma tarefa que, segundo os especialistas, lhes retira agressividade e ódio e que, por vezes, até os faz ganhar prémios literários. Mas, como não há escrita de jeito sem leitura, é melhor começar por dizer que no Estabelecimento Prisional de Lisboa, cada ala (e são oito) tem a sua biblioteca, e quem as dirige é sempre um dos presos dessa ala. O artigo que fala disto é assinado pela jornalista Isabel Nery e saiu ontem no Público, contando os vários projectos ligados às artes que têm vindo a surgir nos estabeecimentos prisionais para pôr a comunidade que se encontra cativa em contacto com a cultura, sendo um deles o Concurso de Escrita Criativa Interprisões, que foi lançado com o apoio da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas e para o qual existe uma média anual de 100 candidatos; são, geralmente, reclusos que gostam de fugir para dentro dos livros (um deles diz ler um livro por dia) e que depois se dedicam à escrita como actividade terapêutica, já que na escrita podem ser completamente livres, além de que o desenvolvimento das competências da leitura e da escrita os ajuda a reinserir-se na sociedade mais facilmente quando saírem da cadeia. Mas o artigo é grande e vale a pena percorrê-lo, pelo que tem de interessante e também comovente. Uma boa semana é o que vos desejo.

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