Pois é, aí estão as Correntes d'Escritas mais uma vez e, antes de falar do que se vai passar por lá, um aviso: parto para a Póvoa de Varzim hoje à tarde e só voltarei ao blog no dia 2 ou 3, por isso não estranhem o silêncio (no regresso contarei certamente alguma coisa do encontro). Terei lá cinco autores (Afonso Reis Cabral, Sara Duarte Brandão, Itamar Vieira Junior, a espanhola Rosario Villajos e o jornalista José Carlos de Vasconcelos); mas são mais de cem os convidados, e desta feita o homenageado será José Carlos de Vasconcelos, de quem acabo de publicar um livro de poesia chamado Os Sete Sentidos e Outros Lugares, que terá o seu lançamento dia 27, às 12h00, no Teatro Garrett. Além das mesas, que acontecem todos os dias de manhã e à tarde, poderemos ver as exposições, uma delas da cantora Márcia, e assistir à antestreia do filme De Lugar Nenhum sobre o escritor Valter Hugo Mãe, de Miguel Gonçalves Mendes (os dois estarão no palco a seguir ao filme para uma conversa). Haverá também uma homenagem a Francisco Guedes (um dos fundadores do festival Correntes d'Escritas), teatro e até entrevistas ao vivo a Dulce Maria Cardoso, Alfredo Cunha e muitos outros. As Correntes não param.
Já me recomendaram o autor há bastante tempo, mas ainda não tinha conseguido chegar aos seus livros. Um dia destes, estava numa livraria a comprar presentes para oferecer a dois amigos que fazem anos com apenas três dias de intervalo, e os meus olhos pousaram numa capa que dizia Quem Matou o Meu Pai, de um livro de Édouard Louis. Comprei-o também (os outros, para quem esteja curioso, eram de Svetlana Alexievich e John Banville). É um livrinho para uma noite, uma coisa mesmo pequena; e, quando o comecei a ler, pensei que afinal já o tinha lido, de tal modo me era completamente familiar; mas percebi essa sensação umas páginas mais adiante, quando o autor menciona Didier Eribon e diz que teria sido impossível escrever sem antes ter lido Didier. Claro! Quem Matou o Meu Pai lembrou-me (demasiado) Regresso a Reims, no qual também é mencionada essa relação difícil entre um pai bastante bruto e o seu filho homossexual, que começa por ser silenciosa (e até por isso violenta, de dentes a ranger) e, quando o filho se torna um autor conhecido, o pai orgulhoso já só quer falar dele aos amigos. Talvez devesse ter começado por outro livro de Édouard Louis, porque este tem a mesma temática de Regresso a Reims mas não é tão bom, já que o livro de Édouard Louis não foge à política, mas aborda-a de forma mais vingativa, pelo que os políticos fizeram e não fizeram ao pai, enquanto Eribon parte da família para desenvolver toda uma teoria sobre como o seu pai, que fora sempre comunista, se voltou para a Extrema-Direita. Tenho de ler agora outro dos livrinhos de Édouard Louis, esperando que não me lembre mais ninguém.
O Porto é uma cidade que está sempre a gerar boa música e boa poesia. Basta pensarmos que Rui Veloso e Rui Reininho são do Porto ou que Sophia e Eugénio também são (embora Sophia se tenha mudado para Lisboa a dada altura da sua vida). Mas é inegável que, ainda hoje, brotam como cogumelos no Porto músicos de sucesso como Miguel Araújo (um dos "ujos" que fizeram 27 Coliseus, o outro era alentejano); e poetas extremamente dotados como Daniel Jonas, Andreia C. Faria ou Rui Lage. É deste último autor, nascido em 1975, um romance que ganhou o Prémio Agustina Bessa-Luís intitulado O Invisível, e variados livros de poesia que foram no seu conjunto contemplados com o Prémio da Fundação Inês de Castro. Rui Lage escreve semanalmente uma crónica no Jornal de Notícias, é autor de ensaios, foi professor universitário e deputado, sendo actualmente assessor no Parlamento Europeu. Ora, deste multifacetado escritor apresentará hoje à tarde Pedro Mexia o livro de poesia Física Espiritual, na Livraria da Travessa, às 18h30. Vale de certeza a pena lá ir.
Sabemos que os livros inspiram filmes e peças de teatro, mas que tenham também estado na base da composição de conhecidas canções já não é tão óbvio. E, porém, Alexis Petridis escreve sobre o assunto um interessante artigo no The Guardian que eu, apesar de perceber muito pouco de música, gostei de ler. Selecciona vinte canções e a literatura que as "provocou" mais ou menos directamente; e começa por referir que uma das músicas que ouvi muito ao longo da vida, Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones, resulta de um conselho dado por Marianne Faithfull a Mick Jagger para que lesse Margarida e o Mestre, de Mikhail Bulgakov. Já outra pérola da minha juventude, a canção Both Sides Now, de Joni Mitchell, foi inspirada por uma passagem sobre nuvens do romance Henderson, o Rei da Chuva, de Saul Bellow, que a cantora leu durante uma viagem de avião. Parece que The Sensual World, de Kate Bush, é uma fantasia a partir de Molly Bloom de Joyce. David Bowie quis escrever um musical baseado em 1984, de Orwell, mas, como os herdeiros se opuseram, casou 1984 com sua a própria visão do Apocalipse na canção Diamong Dogs. O Perfume, de Patrick Süskind, é a obra de que partiu a canção Scentless Apprentice, dos Nirvana. Já os The Cure se inspiraram em O Estrangeiro, de Camus, para escrever Killing an Arab. A canção Firework, de Katy Perry, tem por base Pela Estrada Fora, de Jack Kerouac; e até a menina Taylor Swift se identificou com uma personagem dos romances de Nancy Mitford para a sua canção The Bolter. Enfim, músicos que lêem...
Na última sexta, pus aqui um excerto do livro Furor Botânico, e houve quem achasse chocho, houve quem tivesse comprado e adorasse. Claro que num excerto não se vê tudo, mas este livro é mesmo muito bonito, qualquer coisa entre memórias e autobiografia e entre um caderno de campo e uma narrativa gráfica. Resumindo: cansada da vida stressante da cidade, a autora, Laura Agustí, decide mudar-se com o seu companheiro para uma pequena aldeia nos Pirenéus. A ideia é passar três meses antes de se atrever a dar o grande salto, mas não demorará a reencontrar-se com um ecossistema familiar que quase esquecera: o da sua infância rodeada de flores, árvores e plantas, bem como de uma estirpe de mulheres comprometidas com o amor e o conhecimento da natureza que lhe instilam o «furor botânico». A sua bisavó Pilar, que curava os desânimos com açafrão-das-índias e hipericão; a sua avó Carmen, com quem Laura apanhava a azeitona; a sua mãe, que ainda hoje lhe manda álcoois para massagens, e a sua irmã Marina, que acalma as birras da filha com óleos essenciais. Entre recordações entrelaçadas com esplêndidas ilustrações, passeios pelos caminhos dos bosques para apanhar cogumelos, projetos para a sua nova casa e conselhos para ajardinar as nossas vidas, Laura revela-nos a exuberância do universo das plantas. E, pronto, para quem gostar de botânica, é tudo menos chocho.
Scauri, no mar Tirreno, entre Nápoles e Roma, é o destino habitual de mais de cem mil veraneantes; mas no inverno é uma aldeia pacata, nem bonita nem feia, onde vive com o marido e os filhos a jovem advogada Lea Russo que, apesar de tudo, talvez preferisse morar num lugar mais sofisticado. Mesmo assim, a chegada de Vittoria, uma mulher citadina de meia-idade que vem acompanhada de Mara – uma rapariga que não se sabe se é sua filha adotiva, protegida ou amante –, acaba por animar as hostes, sobretudo porque Vittoria é muitíssimo interessante e comunicativa (embora nunca deixe saber mais de si própria do que realmente quer) e promete ficar por ali, dado que comprou casa em Scauri. Lea torna-se, com os anos, amiga de Vittoria. Depois de um fim-de-semana fora em casa de amigos, a notícia que Lea e o marido recebem no regresso é terrível: Vittoria foi vítima de um estúpido acidente na banheira e morreu. Lea fica incrédula e, quando fala com Mara sobre o assunto, não se convence do que esta lhe conta; e menos convencida fica de que se tratou de um mero acidente quando aparece na aldeia para tratar de testamentos e heranças o distinto marido de Vittoria... Este é o enredo do romance romance Quem Diz e Quem Cala, de Chiara Valerio, escritora e editora, uma obra entre o policial, a história do meio pequeno e a narrativa psicológica, em que cada página é uma surpresa e tudo pode sempre mudar. Finalista do Prémio Strega em Itália. A tradução é de Nuno Camarneiro.
Escolho as roupas que vou usar na montanha, e levamos tudo o que é necessário para poder trabalhar, evitando assim – na medida do possível – complicações. As plantas ficam. Já há algum tempo que, se uma morre, não tento substituí-la. Continuo a cuidar delas como sempre, claro, mas tenho consciência de que talvez haja alguma perda na minha ausência. […]
Há vários verões que nos organizamos assim, como se tivéssemos estabelecido um pacto sagrado desde o dia em que despertámos para este furor botânico: esta necessidade de cuidar e de nos rodearmos de vida e beleza.
Porque, quando este furor ataca, não há volta a dar. De repente, as plantas deixam de ser apenas decoração e tornam-se parte essencial da vida quotidiana. Transformam-se em algo que precisamos de compreender e de cuidar de um modo quase compulsivo. E, praticamente sem nos darmos conta, começamos a procurar mais informação, a ler sobre os seus ciclos e as suas necessidades. Cada nova planta abre uma porta para mais interesse, e essa curiosidade é insaciável. Nunca é suficiente. Queremos aprender a reconhecê-las, a intuir as suas necessidades só de olhá-las, a mantê-las não apenas vivas mas também no seu esplendor máximo.
Este afã de entesourar plantas e cuidar delas transforma-se numa busca constante. Estamos sempre a pensar em qual será a próxima aquisição, que recanto da casa se vai transformar num pequeno santuário verde. De modo instintivo, esse furor cresce, ramifica-se e invade todos os espaços disponíveis.
Laura Agustí, Furor Botânico, tradução de Ana Saragoça
Na sessão em que a Wook galardoou a escritora Sara Duarte Brandão com o Prémio Novos Autores para o seu romance Quem Tem Medo dos Santos da Casa, ofereceram aos convidados um saquinho que tinha, entre outras coisas, a revista da Wook (wookacontece) que, creio, se publica duas vezes por ano. Neste seu n.º 15, Vera Dantas entrevista o escritor Valter Hugo Mãe depois da publicação do seu livro Educação da Tristeza e pergunta-lhe até que ponto ele se sente um observador e recriador do mundo através das palavras. Na resposta, o escritor que nasceu em África mas estava em Lisboa no dia em que os tanques entraram pela cidade e já não voltou para Angola, diz que os escritores têm o privilégio de ser ao mesmo tempo criadores e criaturas e que o facto de buscarem permanentemente um sentido para a vida leva a que nunca sejam criaturas passivas. E acrescenta que, como escritor, está «sempre na posição de alguém que se sente obrigado a trazer alguma coisa que não existia, a construir algo que não foi construído antes, ou, sobretudo, que ninguém teria obrigação de construir» para ele. Importante esta declaração, na medida em que encontro tantas vezes autores de livros que foram recusados por serem iguais a tudo, por não trazerem nadinha de novo, que se ofendem por lhes dizermos que não acrescentam nada à literatura. Criaturas que não são criadoras.
Há uns tempos, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, fez sucesso com um discurso escrito pelo próprio sobre o período histórico que vivemos actualmente e que anuncia claramente o fim de um tempo de que teremos saudades. (Deixo-vos o link com a tradução publicada no Expresso, caso vos interesse lê-lo na íntegra, no fim do post). Mark Carney era até recentemente um político a que se calhar não se prestava grande atenção, e passou a prestar-se por causa das palavras. Ora, em termos literários, também ninguém anda especialmente à caça de escritores canadianos, provavemente não sabendo que muitos escritores premiados e bem-sucedidos não nasceram nos EUA, como pensam, mas no Canadá. Começaria logo pela autora de História de Uma Serva, a famosa Margaret Atwood, que ganhou o Booker Prize com o romance O Assassino Cego (o primeiro que li dela e me foi oferecido pelo José Luís Peixoto); mas posso falar-vos também de Alice Munro, que ganhou o Prémio Nobel da Literatura, e dos seus contos sublimes, às vezes mínimos; ou da enorme poetisa Anne Carson (que muitos dizem que deveria ter ganho o Nobel que foi dado a Louise Glück), ou do premiado com o Booker Prize Yann Martel (lembram-se do miúdo com o tigre dentro de um barco no romance chamado A Vida de Pi, de que se fez também um filme)? O autor de um dos meus romances de eleição, O Paciente Inglês, é também canadiano: Michael Ondaatje; e, no Canadá francês, temos o grande divulgador científico Hubert Reeves, com quem fiz a mais bela visita ao Jardim Botânico de Lisboa e subi ao Padrão dos Descobrimentos, a seu pedido. Além destes, claro, nunca esqueceremos o maravilhoso poeta das canções, Leonard Cohen. E há mais, entretenham-se a pesquisá-los, e a lê-los.
Às vezes, a responsável pela comunicação da editora que publica os meus livros de poesia, a querida Vânia, manda-me uns presentes antes mesmo de eu os cravar. E claro que no mês passado me brindou com o Partida, de Julian Barnes (que já aqui referi mas a que voltarei qualquer dia), sabendo como eu adoro o autor; mas com esse vinha a entrevista completa que o jornalista Jonathan Cott fez a Susan Sontag ao longo de meses de conversas no ano de 1978 e que agora foi publicada em livro sob o título A Entrevista Completa da Rolling Stone. Não abri logo o livro, porque estava mergulhada noutra coisa, mas estou ansiosa por fazê-lo, mal acabe o que tenho em mãos, porque o grande compositor António Pinho Vargas publicou um excerto belíssimo na sua página de Facebook, no qual Cott diz à filósofa e escritora norte-americana que ouviu dizer que ela lê um livro por dia, e ela comenta que, efectivamente, lê muitíssimo, de um modo impensado, como outros vêem televisão, e até cair de sono. Que ler a cura até da depressão. E depois lembra a maravilhosa poetisa Emily Dickinson e cita-a: «Flores e livros, as consolações da tristeza.» E acrescenta que, também para ela, ler é a sua consolação, o seu «pequeno suicídio». Maravilha de frases que pedem a leitura do livro todinho. Não admira que o jornalista a visitasse e revisitasse para continuar a conversa.