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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

11
Nov13

Apanhados

Maria do Rosário Pedreira

Uma das coisas que aprendi pouco depois de ter chegado ao mundo da edição é que muita gente ligada aos livros tem vergonha de dizer que não leu determinadas obras, como se fosse um crime indesculpável, preferindo mentir a assumir a «ignorância». Contaram-me um dia destes uma história deliciosa a respeito destes bluffs, que é mesmo digna de um programa de «Apanhados». Augusto Monterroso, o renomado escritor guatemalteco que ganhou, entre outros, o Prémio Príncipe das Astúrias e o Prémio Juan Rulfo, escreveu aquele que se diz ser o mais curto conto da história da literatura, «El dinosaurio», composto apenas de uma frase: «Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí.» O conto foi muito falado e estudado em universidades por todo o mundo, e importa dizê-lo para explicar que Monterroso ficou também conhecido em certos círculos como o autor daquele conto mínimo. Ora, uma vez, tendo o escritor participado de um encontro literário, aproximou-se dele uma senhora dizendo que gostava muito do que ele escrevia. Ao perguntar-lhe o que lera ela da sua obra, estranhou Monterroso que a senhora lhe respondesse imediatamente, e sem hesitações, «El dinosaurio». O guatemalteco não se deixou, porém, abalar e resolveu insistir: «E o que achou?» Aí, ao que parece, a senhora terá respondido: «Sabe? Ainda vou a meio.» Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo…

5 comentários

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    Cristina Torrão 11.11.2013

    Bem, é certo que há mentiras necessárias. E mentiras inofensivas. A da "leitora" de Monterroso parece-me inofensiva. No meu comentário acima referia-me mais a mentiras graves, cínicas, das que causam danos, que prejudicam terceiros.

    E não será o escritor um mentiroso? Lembrei-me agora de Manuel Jorge Marmelo, com a sua Mentira Mil Vezes Repetida.

    Já dizia Camões que o poeta é um fingidor...
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    Anónimo 11.11.2013

    Cristina, então não era o Pessoa?
    ;-)
    Antonieta
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    Joaquim Jordão 11.11.2013

    O que Cristina queria dizer era que o Pessoa estava a referir-se a Camões.
    A esta dor que Camões deveras sente:


    Tanto de meu estado me acho incerto

    Tanto de meu estado me acho incerto,
    Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
    Sem causa, juntamente choro e rio;
    O mundo todo abarco e nada aperto.

    É tudo quanto sinto um desconcerto;
    Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
    Agora espero, agora desconfio,
    Agora desvario, agora acerto.

    Estando em terra, chego ao Céu voando;
    Nu~a hora acho mil anos, e é de jeito
    Que em mil anos não posso achar u~a hora.

    Se me pergunta alguém porque assim ando,
    Respondo que não sei; porém suspeito
    Que só porque vos vi, minha Senhora.
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    Beatriz Santos 11.11.2013

    Oh! não vejo assim uma relação tão chegada entre os dois poetas, mas os versos que aqui colocou de Camões são bem bonitos. Dados os sintomas, há-de ser amor ou qualquer coisa que se lhe pareça. Semelhante, quero dizer. Que ele outra loucura de mente não consta que tivesse:))

    Obrigada pelo poema
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