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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

14
Jan14

O bom carpinteiro

Maria do Rosário Pedreira

Ontem prometi que deixaria hoje no blogue um texto que, ainda não sei porquê, a escrita de Pär Lagerkvist em O Anão acabou por me trazer à memória. Trata-se de um poema (vá lá, não se assustem já os que dizem não gostar de poesia) do poeta e editor espanhol Jesús Munárriz sobre esse outro enorme poeta alemão que foi Hölderlin (a admiração do espanhol vê-se, de resto, no nome que escolheu para a sua editora de poesia, Hyperion, justamente o título de uma das mais celebradas obras do seu confrade germânico). Para os que não sabem, Hölderlin nasceu nas margens do rio Neckar (digo-o para melhor entenderem um verso do poema), apaixonou-se loucamente pela mulher de um banqueiro de quem era professor e enlouqueceu depois da morte desta (embora já tivesse dado sinais de loucura muito antes disso). Sem dinheiro nem família, foi então acolhido pela família de Ernst Zimmer, um bom carpinteiro que apreciava verdadeiramente os seus poemas e tratou dele até à morte. É deste Zimmer, aliás, o monólogo que hoje transcrevo (traduzido pelo Manel aquando da vinda de Munárriz a Portugal para um festival de poesia), esperando converter muitos dos Extraordinários à leitura de poesia.

 

Monólogo de Zimmer

 

– Não é, apesar de tudo, um hóspede incómodo.

Apenas uma criança grande. As crianças, já se sabe,

dão por vezes, como ele, desgostos e maçadas.

Mas se está tranquilo é agradável:

conversa, improvisa versos, torna-se loquaz,

ou desfruta da natureza, sorridente.

 

Quando está bom tempo acompanha-me à horta

ou à vinha e, enquanto trabalho, colhe flores

que logo esquece. O sol fá-lo feliz

e abandona-se ao seu calor, sobre a erva,

e vence esse frio que o aperta por dentro.

 

É um homem tranquilo se o deixarem em paz,

mas os miúdos por vezes aborrecem-no

e volta para casa de mau génio, e ninguém sossega:

passeia pelo quarto como fera enjaulada

ou dá-nos cabo do juízo com o piano,

martelando sempre as mesmas teclas.

 

Acontece-lhe, sobretudo com o mau tempo,

com o frio, a chuva, o céu cinzento,

estar dias e dias sem sair do sótão,

sem cortar unhas nem cabelo, nem a barba,

sem se lavar,

encostado aos vidros com olhos ausentes,

perdidos no Neckar,

batendo os pés no chão horas e horas.

 

Mas para quê insistir neste tipo de coisas:

todos nós temos dias maus.

Regra geral, porta-se bem. E faz-me companhia.

Além disso, é fantástico

a gente que conhece. De outros tempos.

Às vezes visitam-no – não muito, é verdade –

e passam por minha casa uns cavalheiros, ou escritores famosos,

ou interessantíssimas senhoras

que o contemplam com respeito

e lhe pedem poemas dedicados.

 

Eu ofereço-lhes vinho, ou água fresca,

ou fruta, quando é Verão,

e eles falam-me dele, de quão importante

podia ter sido, do seu talento

estranhamente desperdiçado, da sua beleza

e da dos seus versos.

Eu conto-lhes as diabruras que me faz

e alegram-se ou ficam tristes, depende,

e ao despedirem-se deixam algumas moedas

para lhe comprar doces, de que tanto gosta.

 

Quando partem, a sua cara muda

e fica a pensar, ensimesmado,

e está assim vários dias, dando-lhe voltas,

ruminando, e é então

que o observo sem que dê conta

e penso de novo: não está louco,

apenas faz o que quer,

livre, em paz.

 

De repente, uma coisa qualquer,

um pardal, um melro, uma insignificância,

levam-no de volta ao seu olhar de criança grande,

e sorri de novo, quem sabe a que fantasmas,

e a mim desconcerta-me, porque o vejo perdido

e sinto-me como ele.

 

Dela nunca fala. Se a nomeiam

na sua presença ou lhe perguntam

por aquela senhora,

finge não se recordar, ou responde-lhes

que lhe deu nove filhos,

todos de altos destinos: papa, rei...

Depois, sozinho, quando ninguém o vê,

sobe à sua torre e chora. Já o ouvi

através da porta. E partiu-se-me a alma.

 

Enfim, senhores, parece-me que agora

já falei demasiado

e estou a cansar-vos.

Como lhes disse, não é um hóspede incómodo

e sinto-me orgulhoso de o ter nesta casa

de humilde carpinteiro.

Voltem pois quando quiserem,

ele foi correctíssimo convosco

e não se aborreceu com a visita.

Tive muito prazer em conhecê-los.

Adeus, senhores.

                            Zimmer.

                                        Um vosso criado.

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