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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

26
Mai10

Um episódio

Maria do Rosário Pedreira

Numa livraria do meu bairro, em vésperas de início de mais um ano lectivo, um adolescente perguntou ao «livreiro» se tinha, por acaso, um livro de Filosofia chamado Siddharta. Eu sorri para logo me arrepender: o livreiro disse-lhe que não havia nenhum livro de Filosofia com aquele nome e que o rapaz devia ter copiado mal a lista de livros escolares a comprar… Bem sei que hoje também há muitos leitores que nem sabem o autor do livro que andam a ler, mas, se os professores de Filosofia da Escola Secundária aconselham a leitura deste livrinho de Hermann Hesse, não deveriam sabê-lo os que vendem livros, até para se apetrecharem e poderem facturar? Ajudei o aluno, mas o livro não estava disponível. Em todo o caso, esta história serve-me para duas coisas: a primeira para confessar que, apesar da tradução estranha (onde se encontram palavras como «amorável» e outras esquisitices), prefiro claramente Narciso e Goldmundo a Siddharta – um livro que também é sobre a amizade (e que serviria aos professores de Filosofia para ensinar muita coisa, garanto); a segunda é que tenho saudades dos livreiros cultos. Agora existem poucos assim – e dizem-me que um deles está na Pó dos Livros (parece que é especialista em Camilo, ainda por cima). Vão lá e aproveitem para conversar – e, se nunca leram Narciso e Goldmundo, aproveitem também para o ler.

2 comentários

  • Faz muito bem em colocar a questão, até porque nada garantiria que um catedrático a trabalhar numa livraria encontrasse ou soubesse de todos os livros pedidos pelos clientes. Mas talvez pudesse haver nos grandes espaços uma espécie de «livreiro à antiga» que acompanhasse a saída dos livros, os programas de ensino, tivesse lido bastante (livros ou sobre livros) e pudesse prestar esclarecimentos aos clientes se um jovem vendedor não soubesse responder.
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