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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

02
Nov10

Guionismo

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes, tive um brevíssimo encontro com o conhecido dono de uma produtora de cinema e televisão; no meio da conversa, ele avançou que em Portugal não se escrevem bons guiões e que conta muitas vezes com profissionais brasileiros, espanhóis e americanos para conseguir um argumento bem construído e realista. Claro que só começámos a produzir séries e novelas há uns dez anos, pelo que é natural que ainda não tenhamos chegado ao nível dos argumentistas de Hollywood; mesmo assim, haverá certamente alguns bons guionistas em Portugal, quiçá subestimados e mal aproveitados. Em todo o caso, a minha experiência com a leitura de guiões é confrangedora. Depois de me terem proposto fazer a adaptação televisiva de uma série juvenil que escrevi nos anos 90, aceitei com a condição de ler os guiões. Comecei por me escandalizar com o número de erros de ortografia, sobretudo porque os actores eram crianças e iriam ficar certamente cheios de dúvidas (lembro-me de que uma das guionistas não sabia a diferença entre “coro” e “couro”, por exemplo); mas o que mais me chocou foi a completa falta de imaginação (como era preciso haver cenas de suspense – que não estavam nos livros –, em todos os episódios as personagens ficavam fechadas num sítio qualquer, nunca variava) e a incapacidade para perceber que a oralidade e a escrita são coisas completamente diferentes: as frases que as crianças tinham de decorar às vezes pareciam saídas de um compêndio. Como se isso não bastasse, numa história que incluía duas gémeas brasileiras, vi-as transformadas em francesas sem saber porquê. Quando perguntei, explicaram-me que no canal que transmitiria a série havia a regra de ninguém falar com sotaque brasileiro, porque as novelas brasileiras passavam no canal rival... Enfim, depois da duríssima revisão de 26 episódios, percebi que, de facto, é preciso abrir os cordões à bolsa e contratar profissionais em vez de pôr a miudagem a ganhar uns cobres e escrever não importa o quê.

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