Uma questão de pronúncia
Um dia destes, falei aqui de uma espécie de abismo que se criou entre o português de Portugal e o português do Brasil numa situação que vivi no Rio de Janeiro. Todos os países lusófonos têm (e ainda bem) particularidades – e uma delas é a pronúncia (o Manel, que esteve dois anos em Angola nos anos 70, diz que distingue perfeitamente um angolano de qualquer outro africano lusófono quando ele abre a boca para dizer seja o que for). Contudo, esta «pronúncia» ou «maneira de falar» pode dar resultados bastante divertidos. Fui em 1995 a São Tomé e Príncipe fazer uma comunicação sobre autobiografias e descobri, nessa semana, coisas belíssimas (a expressão «leve-leve» para «molenga», por exemplo) e outras curiosas (a uma pergunta do tipo «Já arrumou a sua mala?», a resposta é apenas «Ainda» se houver roupa por arrumar, quando nós diríamos «Ainda não»; disseram-me que o «não» se omite porque, no tempo do império, os negros nunca podiam dizer «não» aos patrões brancos – calculem! – e o hábito foi ficando). Mas houve um noticiário a que assisti uma noite no restaurante do hotel quase hilariante. A data era justamente 25 de Abril, e o jornalista, enquanto mostravam imagens de festa em Lisboa – creio que junto à Fonte Luminosa –, relatava que, naquele mesmo dia, em Portugal, se comemorava a revolução dos... escravos. À mesa só havia portugueses e acabámos todos a perguntar-nos se não havia naquela notícia um fundo de razão...

