Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

04
Nov10

Sem palavras

Maria do Rosário Pedreira

A poesia é, quanto a mim, muito mais do que as palavras que contém. Se quisesse ser apressada – e agora dá-me jeito sê-lo – diria que, comparada com a prosa, a poesia diz normalmente mais com menos. Claro que nem toda a poesia é assim e nem toda a prosa é assado, mas há uma cadência e uma musicalidade na poesia que, uma vez por outra, quase nos dispensam de ler ou ouvir as palavras que se deitam nos seus versos. Pode parecer estranho, bem sei, mas refiro-me a uma experiência única que vivi em Liège, num festival de poesia, na companhia do poeta José Tolentino de Mendonça (tenho, por isso, testemunhas). Estávamos já um bocado entediados com tanto discurso (era no tempo da guerra na Bósnia e toda a gente politizara as suas intervenções) e só nos apetecia sair do auditório e ir dar uma vista de olhos às livrarias (o conselheiro cultural, contudo, achou que não devíamos). Eis se não quando sobe ao palco um poeta da Eritreia – alto, magro, bonito, com modos de bailarino e gestos largos – e começa a ler um dos seus longos poemas. Mesmo sem percebermos uma palavra do que estava a dizer, o espectáculo foi tão mágico e electrizante que sentimos que o essencial daquele poema tinha passado para nós e para todos os que o ouviam. O feitiço da poesia na voz de um feiticeiro africano. Nas sessões de lançamento de romances, quando alguém se lembra de ler um capítulo em voz alta, quase sempre o público desliga ao fim de uns minutos. Porque será?

2 comentários

  • Confesso que não fiquei curiosa sobre as palavras, até porque tive medo de que me desiludissem. Mas tem razão, João. A experiência assim é incompleta, daí eu ter dito "quase" em relação ao "dispensar".
  • Comentar:

    Mais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

    A autora

    foto do autor

    Subscrever por e-mail

    A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D