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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

04
Jan11

Perversões

Maria do Rosário Pedreira

Ouvi um dia Francisco Balsemão (FB) dizer numa entrevista, depois de confrontado com a mediania (para não dizer pior) da programação televisiva, que a sua televisão (a SIC) dava às pessoas o que elas queriam. Achei a afirmação bastante perversa. Em primeiro lugar, porque é de um grande pretensiosismo alguém (FB no caso) arrogar-se o direito de conhecer os desejos alheios. Em segundo lugar, porque tenho a certeza de que FB não vê quase nenhum programa da SIC (basta estar minimamente informado do seu percurso para o deduzir – e, logo, para deduzir que não se inclui no grupo de pessoas de quem fala). Em terceiro lugar, porque me parece mais acertado pensar que as pessoas vêem não o que querem, mas o que lhes dão – embora isso possa tornar-se, a curto ou médio prazo, aquilo que realmente querem ver; e digo isto porque, nos tempos em que a televisão era outra coisa, a minha mãe tinha a trabalhar lá em casa uma rapariga praticamente analfabeta que, ainda assim, não perdia às terças-feiras uma única Noite de Teatro. Não eram, evidentemente, peças de Brecht ou Shakespeare, mas não deixavam por isso de ter por base textos bem escritos e enredos ricos e estruturados com rigor. Ora, hoje seria impensável passar na televisão em horário nobre uma peça de teatro (embora não fosse má ideia usar os actores de telenovela mais apreciados para dar a conhecer às tais pessoas em que FB não se inclui alguns textos e dramaturgos importantes). E com os livros passa-se um pouco a mesma coisa: publicam-se livros muito maus alegando que as pessoas os querem ler, quando afinal talvez as pessoas os leiam apenas porque eles são publicados. Acredito que, também neste caso, quem os publica não faz deles livros de cabeceira. Mesmo que possa estar a exagerar e a atitude de quem decide tenha sobretudo como objectivo o negócio, não estarão os decisores a criar populações estáticas e sem capacidade de reacção para, no caso de ser preciso, um dia as poderem dominar?

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