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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

12
Abr11

Subsídios outra vez

Maria do Rosário Pedreira

Prometi voltar à polémica que surgiu depois de ter escrito um post no qual referi que os escritores poderiam beneficiar dos mesmos apoios que têm os cineastas, as exposições de pintura e os concertos. Não queria, porém, dizer que esses apoios se deviam traduzir no pagamento de um ordenado fixo, suportado – como alguém disse – pelos contribuintes. Não me parece, mesmo assim, que um escritor seja menos artista do que um músico – e a verdade é que sempre que um músico é convidado lhe pagam um cachet, mas o escritor, quando muito, tem direito a gasolina e alimentação. Alguém avançou também que os escritores são frequentemente culpados da sua situação, porque, em lugar de se aproximarem dos leitores, afastam-se deles escrevendo coisas difíceis. A questão é muito relativa, porque nem todos os leitores têm, perante as obras, a mesma dificuldade e, por outro lado, porque há literatura de grande qualidade que não é nada difícil e não deixa de ser literatura por causa disso (estou convencida de que qualquer pessoa leria com prazer e sem esforço A Tia Júlia e o Escrevedor, de Mario Vargas Llosa – e o autor ganhou o Nobel da Literatura). Por outro lado, se quisermos agarrar-nos a essa coisa da dificuldade, teremos de deixar de subsidiar a ópera, algumas companhias de teatro e a dança contemporânea, só porque o seu público é minoritário, e patrocinar, no seu lugar, as telenovelas, o cinema de massas e os espectáculos de música pimba? Não me parece. Acho que todos devemos contribuir para que as populações possam de facto ascender culturalmente, e não para que fiquem eternamente emparvecidas ao ponto de um dia meia dúzia de iluminados as dominarem como, aliás, já aconteceu noutros tempos em Portugal. E, se os bancos, por exemplo, patrocinam tanta coisa, não poderiam uma vez por outra distinguir um autor com uma bolsa que lhe permitisse escrever durante dois ou três meses sem ter de pensar como vai pôr o jantar na mesa? Em muitos outros países, ditos civilizados, é isto que acontece – e nós, leitores, agradecemos. O autor do livro As Horas, por exemplo, pôde beneficiar de um destes programas e vive num país onde certamente o número de livros que vende daria para muito mais do que para sobreviver.

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