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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

13
Abr11

Falta de fé

Maria do Rosário Pedreira

Um dos leitores deste blogue acusou-me um dia destes de falta de fé no estado actual da educação portuguesa. Fez-me ver que, sendo mais velho do que eu, acreditava, pelo contrário, que as novas gerações estavam francamente mais preparadas cultural e intelectualmente. Não posso negar que, ao longo destes vinte e tal anos que trabalhei, fui tendo colaboradores jovens que, a cada ano, chegavam menos cultos e interessados – e daí, quiçá, a minha falta de fé. Mas, como em tudo, há excepções e já aqui elogiei algumas pessoas que trabalham ou trabalharam comigo e que contrariam a minha desconfiança – e não as considero sequer aberrações. Pelo facto de me dedicar acima de tudo à publicação de jovens autores, sinto, aliás, que bem podiam dispensar-me da acusação de falta de crédito nas novas gerações. Entre os editores activos, sou dos poucos que se dão ao trabalho de ler cem originais para, como agulha em palheiro, encontrar aquele que faz a diferença (e podem, mais uma vez, atirar-me com a questão do gosto, que nem me importo muito, pois quem premeia em Portugal e quer traduzir noutros países tem um gosto, pelos vistos, semelhante ao meu). Sei, obviamente, que há muito mais jovens brilhantes hoje do que noutros tempos, mas também sei que muitos deles estudaram lá fora ou foram trabalhar para o estrangeiro assim que terminaram os cursos. Respeito muito os bons professores, entre os quais talvez se encontre esse meu leitor, mas ainda vão ser precisos muitos anos para me convencer de que foi apenas a escola – e sobretudo a portuguesa – que preparou os melhores.

2 comentários

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    papu 13.04.2011

    Gostei muito do comentário da Ana, e apesar de quase nunca comentar neste espaço, hoje não queria perder a oportunidade. Gostei do comentário da Ana em primeiro lugar pela sua honestidade e também por ver como alguém com 17 anos consegue expor tão bem as suas ideias por escrito. Eu também já fui estudante (há alguns anos) e julgo entender do que fala a Ana. Também eu sempre senti uma falta de formação e motivação enorme nos meus professores, com algumas excepções, note-se; posso dizer que também conheci alguns bons professores. Neste momento vivo no Reino Unido e a diferença é abismal: cada vez que vou à escola dos meus filhos, seja porque vou à reunião de avaliação, seja por outro motivo qualquer, como assistir a algum evento ou ver exposições, venho de lá encantada. Encantada não só com a qualidade dos trabalhos dos miúdos mas também com a qualidade do próprio ensino e dos professores - e qualidade a nível humano, também. A forma como falam dos meus filhos evidencia um acompanhamento integral do seu desenvolvimento e do seu trabalho enquanto estudantes e também enquanto indivíduos (a avaliação não se refere apenas à aquisição de conhecimentos mas também a aptidões de socialização e integração social - se tem amigos, como se dá com os amigos, se parece ou não sentir-se bem e feliz na escola, etc.)

    Bem, mas basta de dar graxa ao ensino inglês (estou a brincar). O que gostaria de dizer à Ana é que, muitas vezes, o que diz é verdade: os professores podem ser também um modelo daquilo que nós não queremos ser. E quem diz professores diz qualquer adulto. E isto é uma coisa importante no desenvolvimento de uma pessoa, porque é um indicador de que a Ana tem a noção daquilo que quer ser, tem uma identidade estruturada que lhe permite identificar-se ou, neste caso, contra-identificar-se, com os adultos com quem se vai cruzando pelo caminho. Isto no fundo é tirar partido de uma situação problematica que à partida poderia ser encarada apenas como negativa. É saber tirar algo de positivo de uma situação negativa. Nós não temos de gostar de toda a gente nem temos de nos identificar com todos; mas mesmo aqueles com quem achamos que não temos nada a ver nos podem dar alguma coisa, nem que seja saber que não queremos ser assim!

    É claro que muitas vezes os defeitos sobressaem mais que as qualidades. Imagino que se a Ana pensar um bocado num desses seus professores e tentar fazer uma lista dos seus defeitos e das suas qualidades, se calhar conseguirá encontrar também qualidades, ainda que os defeitos sejam em muito maior número (ou não). Não quero com isto dizer que a sua avaliação seja exagerada. Às vezes tendemos (as pessoas mais velhas) a achar que os jovens são demasiado críticos, ou que criticam com muita facilidade, ou que não estão aptos a ver as pessoas como um todo e apenas atentam aos aspectos negativos. Eu, pessoalmente, não concordo (ainda que haja pessoas assim, claro); penso que os jovens têm um espírito crítico bastante desenvolvido, sim, mas encaro-o como algo saudável e positivo. Se todos os adultos conservassem, já nem digo toda, mas alguma dessa intransigência e severidade na forma como criticam o mundo à sua volta (e quando digo crítica refiro-me àquela construtiva, que procura transformar, e não à destrutiva, que apenas procura derrotar) se calhar o mundo estaria cheio de pessoas mais emprendedoras, felizes e activas.

    Por último, não acho o seu comentário nada amargurado, se de facto retrata uma realidade. O que não pode acontecer é a Ana deixar-se amargurar pela situação! Utilize a garra que tem para a encarar, no sentido de aprender com ela e transformar-se a si mesma. As situações às vezes não valem por si, mas pelo que fazemos com elas. Felicidades!

    E desculpe a intrusão em diálogo paralelo, Maria do Rosário.
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