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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

27
Abr11

Vida e obra

Maria do Rosário Pedreira

O ser humano é, por natureza, curioso e acontece frequentemente, numa entrevista a um escritor, inquirir-se sobre a natureza autobiográfica da sua obra. Não interessa muito, na verdade, se o que lemos tem que ver com a vida do autor – e sabermos isso não muda muito o que sentimos com a leitura. No tempo em que eu era estudante universitária, caía-se até no exagero de não permitir uma análise da obra que recorresse à biografia do escritor, valorizando-se as interpretações formais e olhando-se o texto como entidade independente do seu criador. Mesmo assim, tenho a certeza de que, se Melville não tivesse trabalhado a bordo de uma baleeira, não teria escrito Moby Dick; que Primo Levi, não tendo passado o que passou em Auschwitz, nunca teria produzido uma obra como Se Isto É Um Homem; e ainda que o Dom Quixote – que é provavelmente o primeiro romance moderno – nunca seria o que é se Cervantes não tivesse tido a vida aventurosa que teve e que vale a pena conhecer em pormenor. Percebo que a obra não tenha de ser vista apenas como um reflexo da vida, mas, na maioria dos casos, se a vida não tivesse sido fascinante, ou horrível, os livros teriam sido seguramente diferentes.

2 comentários

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    Cristina Torrão 27.04.2011

    Ora, aqui estou. Foi no início de Abril, "As palavras de Lídia", http://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt/59974.html

    Falava-se nas "palavras que todos os seres humanos pensam (mas não dizem)". Lídia Jorge afirmou que "o escritor só se distingue desses seres humanos porque não tem pudor de partilhar essas palavras que não diz" - acho que encaixa bem aqui.
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