O senhor das velas
Há muitos anos, acompanhei a uma sessão da Comunidade de Leitores da Biblioteca de Almada (a propósito de Morreste-me) José Luís Peixoto (de quem então era editora) e assisti à conversa. No final, soube que o livro a tratar na sessão seguinte seria As Velas Ardem até ao Fim e dele me falou entusiasticamente na altura o jornalista José Mário Silva, que ali fora também. Como na altura desconhecia a obra, comprei-a e li-a com bastante prazer, mas, sei lá porquê, nunca mais tinha voltado a Sándor Márai até este ano. Ora, caiu-me nas mãos o fabuloso A Herança de Eszter, uma pequena maravilha que gira em torno de Lajos, um canalha irresistível que regressa, viúvo, ao fim de vinte anos, a casa de Eszter, a mulher que o amou de forma definitiva (tendo recusado outros dois homens) e com cuja irmã ele se casou, depois de ter desbastado o que seria a herança de ambas, à excepção de um anel (embora sobre esse anel muito haja a dizer) e da casa onde Eszter ainda mora com uma velha prima que a ajuda na organização doméstica. E, por muito avisados que estejam, todos neste livro conhecem os próprios limites e o sem-limites que é Lajos e o que ele vem ainda buscar. Surpreendente até à última página, como uma vela que arde mesmo até ao fim, esta é uma daquelas pérolas que não se esquecem, escrita por um senhor que descobri ter-se suicidado (estranhamente) aos 89 anos.

