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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

13
Out11

Escritor-pessoa

Maria do Rosário Pedreira

Praticamente até ao advento das novas tecnologias, os escritores eram seres distantes que ninguém via, a não ser o editor que lhes publicava os livros. Não iam à televisão, não se faziam sessões em bibliotecas à volta dos seus livros, nem sempre se punham fotografias suas na badana das obras que deles se publicavam. A Internet, entre outras coisas, facilitou uma espécie de humanização do escritor e aproximou-o do público, que hoje pode ver e ouvir o seu autor favorito em qualquer lado aonde vá – e até corresponder-se com ele ou pedir-lhe facilmente um autógrafo ao vivo. Quando eu era adolescente, imaginava os escritores pessoas formais, fechadas em casa a escrever, muito sérias e contidas (excepto quando se tratava de sabidos noctívagos com pendor alcoólico, que também havia estereótipos desses). Foi, pois, com grande alívio que, numa noite de lançamento de um livro há mesmo muito tempo, vi o historiador José Mattoso (que até tinha sido frade) dançar o tango como ninguém e arrecadar o primeiro prémio nos Alunos d’Apolo. Pode parecer uma infantilidade – e não deixa de o ser – mas, alguns anos depois, quando visitei uma escola por causa de uns livros juvenis que então escrevia, ouvi uma menina dizer a outra em surdina: «Viste? Toquei-lhe no cabelo!» Depois, vieram os computadores, veio o futuro, e os escritores perderam a sua aura de pequenos deuses.

3 comentários

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    baudolino 13.10.2011

    mas nós temos de estar de acordo com eventuais posições, princípios, posturas assumidas por um escritor para gostar dos livros dele? já leu Céline?
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    ana b. 13.10.2011

    Há muito que não tenho a ilusão que a arte cursa invariavelmente com bons sentimentos. Celine é apenas um exemplo entre muitos. Embora possa reconhecer a genialidade do escritor, não deixo de lamentar as suas posições pouco edificantes como ser humano. Na minha perspectiva e segundo os meus valores, claro. E isso faz com que ele perca a sua aura de pequeno deus. Apesar do seu talento literário.
    De qualquer maneira não foi isso que eu disse. Fiquei muito desapontada com o escritor que eu referi, por ter idealizado uma pessoa que vim depois a constatar, não corresponder à imagem que eu tinha feito. O que , bem vistas as coisas, me foi indiferente. Mas, se ele não tivesse aquele blogue e eu não tivesse tido oportunidade de conhecer o que me pareceu ser a sua arrogância e intolerância, ainda hoje tinha uma imagem muito idealizada dele. Se referi esse episódio foi porque me pareceu pertinente no contexto do post da MRP . E um bom exemplo do referido. A aura faz-se da imagem que criamos sobre aquele autor, seja ele escritor, cineasta ou pintor. O que for. Ora, como dizia a MRP , a proximidade e maior acessibilidade ao escritor faz com que se esboroe um pouco a imagem idealizada do escritor. E eu concordei parcialmente porque na realidade tenho um exemplo concreto de um escritor que eu muito admirava, que me fez ir a um evento com a intensão de o cumprimentar. Quis o destino que ficássemos amigos . E quanto mais o conheço maior fica a sua aura. É que, para além do seu enorme talento literário, facto que me fez aproximar dele, é uma pessoa com imensas qualidades humanas e de uma grande generosidade e integridade. E essas qualidades são imprescindíveis aos meus pequenos deuses. Não abdico delas, pode crer. Mas claro que outros pensaram de maneira diferente. Os critérios serão outros. Os meus são estes.
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