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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

18
Out11

Línguas estranhas

Maria do Rosário Pedreira

É lícito que um autor português – como, de resto, um autor de qualquer nacionalidade – aspire a ser traduzido e publicado noutros países. Em Portugal, lemos provavelmente tantos livros traduzidos como livros escritos originalmente em português, mas, por exemplo, nos países de língua inglesa, a produção nacional é tão extensa que quase não há espaço para a publicação de autores estrangeiros. Quando entrei na edição, para além dos escritores portugueses consagrados, quase só estavam traduzidos os que, por razões de credo político, haviam conseguido entretecer-se nas redes clandestinas que os faziam sair nos países da Europa de Leste (e, provavelmente, nem ali eram muito lidos). Nos anos 90 – em parte por causa da atribuição do Nobel a Saramago, que abriu muitas portas – a situação melhorou bastante, mas continua a ser ainda hoje muito difícil colocar os nossos escritores no mercado internacional – sobretudo o de língua inglesa; mesmo que o português seja falado por milhares de pessoas em vários continentes, ele é para o grosso dos países estrangeiros uma língua estranha que praticamente ninguém aprende ou estuda, pelo que, em geral, as editoras não têm, entre os seus quadros, ninguém que possa ler e avaliar uma obra portuguesa com vista à publicação. Mas também em Portugal acontece algo do género, pois a produção editorial de livros estrangeiros não vai muito além dos autores ingleses, americanos, franceses, italianos e espanhóis, traduzindo-se meia dúzia de russos e alemães de comprovado gabarito (mas poucos contemporâneos) e um ou outro nome mais sonante dessa Europa que fala línguas minoritárias (como o sueco, o húngaro ou o neerlandês). Por isso mesmo, muitos de nós desconhecíamos o mais recente Prémio Nobel da Literatura, o poeta Tomas Tranströmer, como desconhecemos certamente uma enormidade de autores que se calhar fariam as nossas delícias, mas que, infelizmente, não há quem possa ler e traduzir.

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