Carta no baralho
Quando há muitos anos, ainda na Temas e Debates, publiquei aquele que era o segundo romance de Michel Houellebecq, intitulado As Partículas Elementares, houve muita gente que achou que eu perdera a cabeça. O livro era bastante polémico, evidentemente, e o autor tinha fama de ser uma carta fora do baralho, politicamente incorrecto, racista e bêbado. O seu romance seguinte – que já não publiquei, embora por razões que nada têm que ver com o facto de me terem chamado a atenção –, chegou a ser considerado ofensivo e até reaccionário. Previa-se, assim, que o escritor fosse perder a glória aos poucos, mas o que sucedeu foi justamente o contrário e ele acabou por conseguir que a crítica o aplaudisse e a Academia o premiasse nada mais nada menos do que com o famoso Goncourt. O romance galardoado saiu recentemente em Portugal e tem por título O Mapa e o Território. Desde logo, merece ser lido por contar com a tradução do poeta Pedro Tamen, mas é um retrato muito lúcido da sociedade contemporânea através da história de um homem que curiosamente também pintava retratos – entre eles, um do próprio autor – e da forma como ajudou um comissário da Polícia a esclarecer um crime terrível. Parece que Houellebecq entrou finalmente no baralho.

