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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

16
Dez11

Pais autoritários

Maria do Rosário Pedreira

A Feira do Livro de Guadalajara, embora com três dias reservados a negócios, um país convidado (neste ano, a Alemanha), os stands das editoras, o Centro de Agentes e uma área internacional, não se assemelha muito à Feira de Frankfurt; é, acima de tudo, um festival literário – e neste ano tinha cerca de 150 escritores em actividade permanente, encontrando-se com os leitores, os alunos das escolas, apresentando livros, fazendo sessões de autógrafos e conferências. Com as salas sempre cheias, lembrou-me – embora a dimensão fosse outra – as nossas queridas Correntes d’Escritas, nas quais é preciso chegar cedo para não se ficar sentado nos degraus duros ou mesmo fora da sala. Em Guadalajara, uma das sessões mais aguardadas (e com o auditório a abarrotar) era uma conversa com dois Prémios Nobel da Literatura – Herta Müller e Vargas Llosa – conduzida por Juan Cruz. Quando este perguntou ao escritor peruano se se lembrava quando e porque começara a escrever, este foi categórico. Os pais haviam-se separado logo a seguir ao seu nascimento e tivera uma infância felicíssima junto da mãe e dos avós maternos. Inesperadamente, o pai e a mãe reconciliaram-se quando tinha onze anos e isso veio perturbar dramaticamente o seu equilíbrio emocional, até porque – frisou – o pai era um homem muito autoritário. Para fugir a esse jugo, Vargas Llosa começou a ler furiosamente, vivendo vidas diferentes da sua – e isso levou-o naturalmente à escrita. Quase me apetece dizer: Bendito pai autoritário...

 

5 comentários

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    António Luiz Pacheco 16.12.2011

    Caro Víctor Hugo... concordo consigo, mas permita-me fazer uma observação:
    "O Sonho do Celta" (de que eu gosto muito!) é uma biografia (para ser sucinto), não é bem um romance puro, ou seja é escrito com qualidade de esperar sendo quem o faz, mas... não tem concerteza a genialidade do romancista! Não sei se me faço compreender?
    Por isso creio que não podemos juntar todos no mesmo "saco". Mas experimente "A casa verde" e Lituma nos Andes".

    Eu pessoalmente gostei muitíssimo do Celta, e lá está a parte humana e da sensibilidade de cada um, certamente tendo a ver com as nossas vivências pessoais a fazer com que cada um de nós se identifique ou não co o que lemos. Só Llosa ou RFGMárquez poderiam escrever sobre Roger Casement que foi um homem deveras excepcional, por aquilo que ambos têm e é o conhecimento directo das vidas naquelas sociedades, países e regiões.

    Um abraço e bom fim de semana!
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    António Luiz Pacheco 16.12.2011

    Ah... falhou-me dizer que além do conhecimento referido, são livres de preconceitos!
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    Vítor Hugo 19.12.2011

    Caro António,

    seguirei as suas sugestões. O meu problema é que descobri o fenómeno literário tarde - e não me venham com a treta do costume do tal mais vale tarde do que nunca - de maneiras que não sei quando voltarei ao Llosa. E há tanta coisa por ler...

    Quanto ao Sonho do Celta, para mim, só tem um problema: é que, tal como você diz sobre o carácter biográfico, se o Escritor privilegiasse o romance em detrimento do factual O Sonho do Celta teria ganho outra dimensão. Quero com isto dizer que, a páginas tantas, o autor preocupa-se em demasia com os factos que entulha a prosa. Então, à medida que a narrativa se aproxima das últimas páginas é um exagero. Não coloco em causa a qualidade da escrita, isso é inquestionável.
    O Sonho do Celta carece (ou carecia) duma lipoaspiração.

    Tenha uma boa semana.
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    António Luiz Pacheco 19.12.2011

    Meu Caro Víctor Hugo, acima de tudo deixe-me referir o prazer que é trocar impressões com gente esclarecida e educada, que é sem dúvida um dos privilégios extraordinários deste blog!
    É sempre interessante "ouvir" outros pontos de vista e conhecer argumentos que nos ajudem a reforçar os nossos ou até a mudar de opinião, o que é prova de inteligência e não fraqueza!
    Por isso compreendo perfeitamente o que diz sobre o "Celta", com toda a clareza e razão... mas segundo o meu ponto de vista, de leitor de biografias, tenho outra opinião!
    Daí tirar este livro da lista de MVLlosa, como não incluo na obra de Eça a (magnífica) tradução de Rider Haggard - As Minas do rei Salomão, se bem que tenha o livro na colecção dos clássicos portugueses, e não junto ao seu autor original... mas só por uma questão de arrumação estética.

    Llosa quis prestar homenagem a Casement, e percebe-se porquê, sendo este um humanista e aquele um escritor da alma Sul Americana mas globalizado. Por isso entendeu fazê-lo através da sua biografia não romanceada, com o que eu (?) concordo! Foi um caso demasiado escandaloso e uma vergonha para se romancear, o que tiraria impacto à conspiração de que foi vítima.
    Compreende? Isto sou eu, leitor, a reflectir, note bem. Claro que tem depois o contra de poder ser maçador por causa daquilo que refere, mas que interessa a quem como eu está a ler a biografia e o caso, não o romance.
    Tal como acabei recentemente de ler Henrique Galvão, cuja vida daria para vários romances. O o que me interessou foi conhecer exactamente os passos, pensamento, os factos, compreende?
    Claro que é um livro só para alguns (dito sem elitismos!) pois pertence a um género que nem por isso é popular.

    O que de facto interessa, julgo eu e me perdoe a presunção, é fazer a separação dos géneros!
    Não ler um título pela assinatura do autor e sim pelo género! Compreende o que quero dizer? Quem ler "O sonho do Celta" não pode dizer que leu ou conhece MVLlosa ... penso eu.
    E há escritores que fazem incursões por diversos géneros literários, nem sempre bem-sucedidas, e há que saber fazer a diferença e escolher!

    Um abraço e votos de uma boa semana!

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