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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

16
Nov20

Os herdeiros

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é o aniversário de nascimento de José Saramago, o único escritor português que foi Prémio Nobel da Literatura. E não há forma melhor de o celebrar (além de ler os seus romances e diários, bem entendido) do que começar já esta noite a assistir ao programa Herdeiros de Saramago, que vai estrear-se em versão dupla na RTP 1 em horário nobre. Cada episódio se debruça sobre a vida de um dos escritores galardoados com o Prémio Literário José Saramago, desde Paulo José Miranda (o primeiro autor português a ganhá-lo) até Afonso Reis Cabral (o mais recente contemplado e o mais novo). Mas não pensem em nada de óbvio, porque o autor do programa, Carlos Vaz Marques, e a realizadora, Graça Castanheira, fizeram um trabalho profundamente original e inesperado (eu vi quatro programas em ante-estreia, integrados no festival de cinema Indie, em Setembro, e fiquei mesmo fã). A imagem é, por isso, uma parte muito especial destes episódios, e os tópicos desenvolvidos sobre cada um destes escritores de língua portuguesa (também há três brasileiros e um africano, além dos portugueses) não estão necessariamente ligados ao patrono do prémio ou à escrita romanesca, mas a factos da sua vida por vezes aparentemente desligados da actividade que os tornou herdeiros de Saramago. Hoje vamos conhecer melhor Paulo José Miranda e José Luís Peixoto e saber o que andam ou andaram a tramar. Para a semana há mais.

13
Nov20

Frestas de luz

Maria do Rosário Pedreira

Há tempos disse aqui que não via nada de positivo nesta pandemia e no confinamento que gerou, mas fui precipitada, porque houve quem tenha sabido aproveitar a má onda com excelentes resultados. Madalena Alfaia, amiga dos livros (trabalhou muitos anos na editora Tinta-da-China e é tambem tradutora e autora), aproveitou uma aberta, seguindo, como ela própria disse, uma afirmação de Electra: «Chegou a hora em que já não se trata de pensar ou hesitar, mas de agir e olhar em frente.» E criou um projecto de escrita, interpretação e vídeo intitulado Aproveitando Uma Aberta: Quatro Monólogos para Quatro Autores em Quatro Divisões da Casa, que representa quatro versões do «encerramento» a que fomos forçados em Março. O trabalho de escrita dos autores visava actores específicos (Matilde Campilho/Vítor D’Andrade; Valério Romão/Carla Bolito; Madalena Alfaia/David Pereira Bastos; Jacinto Lucas Pires/Rita Durão) e um cenário particular: cozinha, casa de banho, quarto e sala. Com música de Filipe Melo e realização de João Gambino, os vídeos foram gravados no Verão e exibidos no Outono, e os textos publicados no suplemento «Ípsilon» do Público, podendo ser lidos nos links abaixo:

«Having a coke with you», Matilde Campilho

«O casaco de Baudelaire», Valério Romão

«Conversa de cama», Madalena Alfaia

«A atriz na sala de estar», Jacinto Lucas Pires

Os quatro filmes estão disponíveis em https://vimeo.com/user123675051

Parabéns à Madalena Alfaia por esta fresta de luz.

12
Nov20

Livros com livros

Maria do Rosário Pedreira

Pensando num livro que quero muito comprar (O Infinito num Junco, de Irene Vallejo), concluí que a melhor receita para a perfeição é um bom livro com livros lá dentro. (Por acaso, ao escrever isto, lembrei-me da recente publicação d'O Cânone, com organização de Miguel Tamen, António Feijó e João R. Figueiredo, e, pensando na polémica que desencadeou, diria que não deve ser perfeito; mas, quando o ler, o que ainda não fiz, poderei ajuizar.) Em todo o caso, um bom romance em que os livros são como personagens geralmente resulta às mil maravilhas, e li recentemente no The Guardian um artigo que enumera uns quantos, embora nem todos cá traduzidos. A mim ocorrem-me de repente Farenheit 451, de Ray Bradbury, A Sombra do Vento, do recentemente falecido Carlos Ruiz Zafón, O Nome da Rosa, de Umberto Eco, A Noite do Oráculo, de Paul Auster, ou Casa de Papel, de Carlos María Dominguez, mas Italo Calvino e Vila-Matas são exímios em introduzir os livros nas suas obras. E, em língua portuguesa, podemos falar de A História do Cerco de Lisboa, entre outros livros de José Saramago, de Os Naufrágios de Camões, de Mário Cláudio, ou mesmo d'Os Loucos da Rua Mazur, do mais jovem João Pinto Coelho, sobre um livro que está, afinal, por escrever e desencadeia toda uma história incrível. E aos Extraordinários, que lhes ocorre no âmbito das ficções com livros dentro?

 

 

 

11
Nov20

Geografia da ausência

Maria do Rosário Pedreira

Ontem ao fim da tarde (desculpem não ter avisado, mas quase de certeza que a sessão foi gravada) houve um lançamento virtual do mais recente livro de Mia Couto, O Mapeador de Ausências, que pôde ser visto nos murais do Facebook de uma série de bibliotecas, teatros e centros culturais por esse País fora. O autor é o mais conceituado escritor moçambicano contemporâneo, detentor, entre outros, dos prémios Vergílio Ferreira, União Latina de Literaturas Românicas, Eduardo Lourenço e Camões, tendo também sido finalista do Man Booker International e o primeiro autor de língua portuguesa a integrar a final deste importante prémio internacional. O romance fala de um prestigiado intelectual moçambicano branco, professor na Universidade de Maputo, que regressa à terra onde nasceu, na Beira, ao fim de muitos anos de ausência, para ser homenageado nas vésperas do ciclone que assolou aquela região em 2019; e a história oscila entre as suas recordações de infância (quando Moçambique era ainda uma colónia), os episódios que se seguiram à independência (como, por exemplo, o facto de um criado da casa se ter transformado num dirigente da FRELIMO) e uma história de amor na actualidade. São 416 páginas de deleite para os muitos fãs de Mia Couto desfrutarem nestes dias em que têm de ficar em casa. Não há desculpas com a falta de tempo, hã?

 

10
Nov20

Quem cala consente

Maria do Rosário Pedreira

O título deste post é um provérbio português, quanto a mim bastante acertado. O olhar para o lado, fingir que não se vê, passar indiferente no meio do que corre mal, tudo isso são modos de consentimento. Num artigo de uma médica portuguesa que trabalha em Lesbos que li recentemente, tomei conhecimento de que está a agudizar-se a tragédia no  campo de refugiados que ardeu e deixou muita gente a dormir na rua, porque não se faz nada, e o mesmo é dizer que todos estamos a consentir que isso aconteça. Consentimento é também o título de um livro de Vanessa Springora, que saiu recentemente pela Alfaguara. Interessa-me muito lê-lo (ainda não o fiz) porque conheço a história de Gabriel Matzneff, o escritor francês (hoje octogenário) que, ao longo de anos, andou a publicar nas melhores editoras francesas (que não viram nisso nada de estanho) livros em que elogiava o sexo com menores (um deles intitulado até Os Menores de Dezasseis). Vanessa Springora foi uma dessas adolescentes que, com catorze anos, passava as tardes na cama com Matzneff, enquanto os iluminados do Maio de 68 (Sartre e tudo) sabiam mas assobiavam para o lado ou achavam apenas fruto dos tempos modernos e abertos que viviam. Mas, anos depois, a mulher madura resolve olhar para trás e fala da sua experiência de fazer sexo oral em vez de lanchar com as amigas e de quantos consentiram nisso de diversas formas. E não se trata de um livro oportunista como tantos que agora surgem, sobretudo nos EUA (até porque ela própria consentiu na relação com Matzneff, que tinha na altura 50 anos, mais 35 do que ela), mas de um livro sobre o perigo justamente do fechar os olhos, calar... e consentir. A tradução é de Tânia Ganho.

09
Nov20

Up to Down?

Maria do Rosário Pedreira

No século XX, os amigos estrangeiros que viajavam com a TAP Air Portugal eram francamente elogiosos relativamente à companhia de aviação: diziam que se comia melhor do que em qualquer outra companhia aérea, que os produtos servidos eram muito acima da média, que os profissionais (pilotos, hospedeiras, comissários de bordo) eram de grande competência e que a revista Up, com artigos sobre Portugal e a colaboração de escritores e jornalistas, era uma das melhores naquele segmento. Concordo: nas minhas viagens aéreas com a TAP, sobretudo nas mais curtas (pois nas outras aproveito para ler algo mais substancial), li sempre com prazer os textos da Up, dirigida há mais de uma dúzia de anos pela jornalista Paula Ribeiro, e até cheguei a escrever uma pequena crónica sobre as melhores coisas que havia em Portugal, na minha humilde opinião. Li há alguns dias que a pandemia deu também cabo da Up... A revista foi suspensa em Março, naturalmente porque o número de voos não justificava a sua impressão (a publicação chegou a ter mais de um milhão e meio de leitores mensais) e ainda se pensou na sua passagem a digital, mas pelos vistos acabou por ser cancelada, e parece que agora existe um concurso público para a sua substituição. Lamento, porque o que havia era uma boa receita e o que aí vem pode ser um mau cozinhado. E porque era uma revista com qualidade gráfica e bom aspecto que me cheira que vai baixar de nível (Up to Down?) só para custar menos dinheiro. Há uns anos que os meus amigos estrangeiros começaram a ser bastante críticos em relação à TAP (atrasos e cancelamentos de voos, sanduíches de plástico, falta de pessoal ou gente antipática); e agora podem juntar-lhe o desaparecimento da Up. A revista voou.

06
Nov20

Estantes

Maria do Rosário Pedreira

Se não existissem estantes, não sei o que seria de mim; mas sei que todos nós, que gostamos de livros, louvamos a sua invenção e existência. Há quem as tenha sempre arrumadinhas (por ordem alfabética, por país, por género literário, por ordem cronológica...), e quem (como é o meu caso) nunca consiga tal proeza e esteja sempre a pousar os livros em cima dos que lá estão à espera de um dia em que haja tempo para os entalar no lugar correcto. Agora, que tantas actividades passaram a ser virtuais (mesmo assim, não creio que em Portugal a venda de e-books tenha aumentado significativamente), não consigo imaginar um futuro em que as estantes sejam transformadas em pequenos aparelhos que armazenam livros. Quem não vê as lombadas alinhadas, às cores, com os nomes dos autores e os títulos e os vincos marcados pela leitura, não é um verdadeiro bibliófilo. Mas, não há dúvida, será mais ecológico. Para já, porém, teremos estantes para todos os gostos, como esta, engraçada, que encontrei por aí.

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05
Nov20

Os clássicos

Maria do Rosário Pedreira

Costumo dizer que estou à espera da reforma para poder ler os clássicos que me faltam. Porém, na semana passada li no The Guardian que a pandemia, coisa tão deprimente que não lhe consigo encontrar nada de positivo, tem paradoxalmente contribuído para que os ingleses se estejam a pôr em dia com a leitura dos clássicos. Ao que parece, as vendas de calhamaços como Guerra e Paz, de Tolstoi, Crime e Castigo, de Dostoievsky, ou D. Quixote, de Cervantes, subiram bastante, bem como as de volumes de Obras Completas de autores célebres. Não sei se as pessoas querem de repente valores seguros e têm medo de ficar sem possibilidade de comprar livros; mas é sempre uma boa notícia que os leitores regressem aos clássicos, desde que não seja só para decorar as estantes. Eu por acaso releio um clássico, mas mínimo: trata-se de A Metamorfose, de Franz Kakfa, que vou prefaciar em breve para uma edição dedicada aos estudantes do Secundário. Um clássico cada vez mais actual.

04
Nov20

Dobradinha

Maria do Rosário Pedreira

Não, não estou a falar desse prato muito apreciado a norte e conhecido popularmente por "tripas", embora acredite que até não desgoste dele o escritor a quem dedico o post de hoje, uma vez que sempre gostou da cozinha típica portuguesa. "Dobradinha" é um termo que também tem aplicação futebolística, modalidade igualmente do agrado do escritor em causa. Mas hoje a palavra interessa-me sobretudo para dizer que Francisco José Viegas (sim, é ele) conseguiu a proeza de, com A Luz de Pequim, o seu mais recente romance, ganhar a dobrar: não só foi contemplado com o Prémio Literário Fernando Namora, da Sociedade Estoril Sol, como também com o PEN Narrativa 2020. Agora é que se pode mesmo dizer: é obra! Entrevistado pela Renascença, o autor bi-galardoado agradeceu ao inspector Jaime Ramos (o investigador que é há trinta anos protagonista dos seus livros) e confessou-se acima de tudo um contador de histórias. O júri do Prémio Fernando Namora tinha como finalistas, além do romance vencedor, As Crianças Invisíveis, de Patrícia Reis, Quando Servi Gil Vicente, de João Reis, Filho da Mãe, de Hugo Gonçalves, e A Visão das Plantas, de Djaimilia Pereira de Almeida. Estes dois últimos eram também finalistas do PEN Narrativa, juntamente com Tríptico da Salvação,de Mário Cláudio (que venceu o Prémio APE-DGLAB), e O Duplo Fulgor do Tempo, de Maria Graciete Besse. Parabéns a Francisco José Viegas (e Jaime Ramos, evidentemente).

03
Nov20

Conferências Outono-Inverno

Maria do Rosário Pedreira

Tudo leva a crer que a situação viral não vai melhorar nos próximos tempos, e é provável ou aconselhável que passemos agora mais tempo em casa. Mas não é preciso arranjar uma depressão por causa disso, até porque vai haver uma série de conferências praticamente à distância de uns cliques. A EC-ON vai fazer uma espécie de balanço literário e poético da segunda década do século XXI através de videoconferências sobre vários assuntos, tais como a língua portuguesa (por Fernando Venâncio), a tradução literária (por João Paulo Cotrim), a literatura de humor (por Ricardo Araújo Pereira), a literatura da lusofonia (por António Cabrita), a crítica literária (José Mário Silva) e muito mais. Estas palestras digitais realizam-se até Janeiro e serão uma espécie de festival literário à distância. Se quer saber mais, consulte o link abaixo. Aproveite para aprender em casa.

http://escritacriativaonline.net/cursos/icone/i17/

 

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