Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

04
Set20

Feira do Livro

Maria do Rosário Pedreira

As Feiras do Livro estão de volta em Lisboa e no Porto e, desta vez (coisa rara e nunca vista), acontecem ao mesmo tempo! Em virtude da pandemia, as regras são apertadas (uso de máscara para todos e desinfecção obrigatória das mãos, entrada e saída dos pavilhões por lados diferentes e número de visitantes limitado); mas o primeiro fim-de-semana foi uma festa para os leitores que, como se estivessem sedentos de ver livros num espaço ao ar livre, não quiseram faltar. As sessões de autógrafos em Lisboa foram muito concorridas e, no Porto, houve sessões de debate, uma das quais com David Machado e Patrícia Reis, autores aqui da casa. É também no âmbito da programação da Feira do Livro do Porto que vão regressar as Quintas de Leitura, desta vez com a participação da Garota Não e do autor de A Criada Malcriada, Hugo van der Ding, e com leituras de Cristiana Sabino, Filipa Leal, Francisca Camelo e Paula Cortes, imagem de Mariana, a Miserável e muito mais. Se gosta de livros, vá às feiras. Tem até 13 de Setembro para as visitar.

03
Set20

Livrarias e cinema

Maria do Rosário Pedreira

Declarada a supremacia da imagem relativamente ao texto, os livros estão mesmo a ficar para trás e a ficção a ganhar terreno na forma de séries televisivas. (Uma tristeza, claro, para quem, como nós, adora o cheiro dos livros e gosta de pensar e ver dentro da cabeça enquanto lê.) Isso tem levado a que um número bastante grande de livrarias e editoras tenha tido de fechar portas nos últimos  anos ; e, se as crises económicas não ajudaram, a pandemia foi outro drama para quem deixou de vender ao longo de meses (ainda há dias se anunciou o fecho da Cotovia). Mas dessas situações mais dramáticas é também possível fazer arte; e, no âmbito do festival Indie, hoje pode ver-se no Cinema Ideal, em Lisboa, às 19h30, um documentário que promete ser interessante. Chama-se The Booksellers, assina-o D. W. Young, e nele se fala das livrarias (e dos livreiros) de Nova Iorque desde os anos 1950, em que o número de estabelecimentos quase chegava às quatro centenas, e os nossos dias, em que, infelizmente, já não chegam a cem. Lojas antigas e belas, como a que mostrei aqui há tempos desenhada por Frank Lloyd Wright, e lojas modernas e sofisticadas respondendo a exigências tecnológicas, haverá para todos os gostos neste documentário onde também serão ouvidos os livreiros. Se puder ir, não falte: o cinema também precisa de leitores. (O documentário repete no mesmo local no próximo sábado, às 21h45.)

02
Set20

Os nossos pais

Maria do Rosário Pedreira

Os meus pais foram bastante liberais para a época e nunca chatos nem bota-de-elástico, embora nem sempre tenha sido fácil ser filha deles (tinham o seu feitio, enfim). Muitas vezes me têm pedido que escreva sobre esse duo, principalmente depois de tê-lo feito num texto que li nas Correntes d’Escritas há uns anos e de o fazer de passagem nas minhas crónicas. Mas sempre senti que teria de encontrar o tom certo para isso, tal como o encontrou Richard Ford ao escrever Entre Eles: Recordando os Meus Pais, um livro que reúne dois relatos escritos com quase trinta anos de intervalo: o primeiro pouco depois da morte da mãe (que chegou a ter uma publicação independente em vários países) e o segundo bastante mais recentemente, cujo protagonista é o pai, que morreu à frente do escritor tinha ele dezasseis anos. Este texto sobre o pai é, ainda assim, um texto sobre o casal, a forma como se conheceram, a sua paixão, a sua vida a dois pelas estradas da América profunda (o Ford pai era caixeiro-viajante) e a forma como o filho, que veio ao mundo quando já ninguém estava à espera, revolucionou a vida desse par, obrigando-o a regras que nunca tivera e até à decisão de ter um lar algures, coisa com a qual Edna e Parker nunca tinham estado muito preocupados. Um livro belíssimo sobre os laços familiares de um tipo que não me importava de escrever sobre os meus pais. Recomendo-o sem reservas a todos os leitores. A tradução é de Tânia Ganho.

 

01
Set20

O que ando a ler (e sejam bem-vindos)

Maria do Rosário Pedreira

Ora sejam bem-vindos de novo a este blog, findo que está o período de férias. As minhas foram boas e espero que as vossas também. O tempo deu para ler e reler muita coisa e nos próximos tempos falarei de tudo isso, mas hoje, como é de regra, aproveito para falar do livro que ando a ler e esse tem tudo que ver com a epidemia que actualmente assola o mundo, embora tenha sido escrito muitos anos antes de termos ouvido falar dela. Trata-se de A Peste, de Albert Camus, e em certas passagens parece que é um romance dos nossos dias, embora nele a doença esteja confinada a uma cidade cujas «portas» foram cerradas para a conter, não podendo dela entrar nem sair ninguém. E conheceremos, entre muitas outras personagens curiosas, um homem que cospe da sua varanda para cima dos gatos; o médico que deixou a mulher doente partir uns dias antes de eclodir a peste para se tratar na montanha e que agora só sabe dela por telegrama, nunca tendo a certeza se que o que lê é verdade; um homem que se enforca e pendura um aviso na porta para o salvarem; ou o jornalista que foi àquela cidade para fazer entrevistas para uma reportagem e ficou obrigado a permanecer num lugar que não é o seu e de que tem de sair a todo o custo, sob o risco de perder a namorada que arranjou recentemente. Quem narra a história é um mistério (suspeito de que terei de chegar ao fim para descobrir), mas, claro, os clássicos são o que há de mais seguro em termos de leitura e, portanto, estou a navegar em páginas pestilentas mas incrivelmente vivas. Espero que as vossas leituras também estejam a ser compensadoras. Bom regresso.

31
Jul20

Boas férias

Maria do Rosário Pedreira

Chegou ao fim o mês de Julho e, como já acontece de há vários anos para cá, em Agosto descanso do blogue e atiro-me às leituras. Não que esteja sem trabalhar o mês inteiro, mas tiro esta preocupação da cabeça durante um mês, a de ter todo o santo dia pronto um pequeno texto para oferecer a quem visita este espaço; essa ausência até me permitirá tomar nota de assuntos e ideias das quais falar no regresso. Aos que escrevem ou são artistas de qualquer outra área, aconselho que com o calor do Verão bebam uns drinks, mas não com a ministra, claro, porque provavelmente ela só quer que se embebebem e nada mais lhe peçam. Eu cá vou tentar continuar atenta e sóbria, vou ler tanto quanto puder livros que já estão ali  num monte à minha espera e conto voltar refeita e com energia para o que aí vem, pois a Covid-19 ameaça regressar em força no Outono e temos de estar preparados. Terei saudades dos vossos comentários (bem, de alguns), mas um mês passa num instante, pelo menos na minha idade. Como as viagens para o estrangeiro estão desaconselhadas, recomendo-vos outra forma de viajar: Pela Estrada Fora, de Jack Kerouac, um clássico que não deve deixar de ler. (Sim, também há filme, mas não é a mesma coisa.) Boas férias, bom descanso e, acima de tudo, muita saúde! Até Setembro.

30
Jul20

Cronista exemplar

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes, alguém aqui no blogue, a propósito da crónica de Pérez-Reverte em que se criticava o afastamento das línguas clássicas do curriculum da Escola Secundária no país vizinho, queixava-se, no fundo, de que aqui em Portugal os intelectuais já pouco se pronunciavam sobre questões deste tipo (que mereceriam deles protesto, crítica e reflexão), preferindo quiçá viver burguesmente na sua torre de marfim e pouco querendo saber do que não os afecta directamente. É verdade, pelo menos em parte, que não vemos muitos escritores ou artistas andarem por aí içando bandeiras ou pondo o dedo na ferida; mas, quando os jornais reduzem o seu espaço de opinião ou deixam de querer ouvir as opiniões de quem pode pôr em causa os seus donos e amigos, claro que também não estão as coisas facilitadas... Em todo o caso, há uma excepção que salta à vista,  a de Lídia Jorge, que é talvez no nosso país a escritora que melhor tem reflectido sobre o mundo presente e mais eloquentemente tem dado o peito às balas em entrevistas e crónicas radiofónicas. Há, de resto, um livro que reúne essas crónicas lidas na Antena 2 que vale muito a pena intitulado Em Todos os Sentidos, livro que traduz o seu pensamento muito crítico (e às vezes quase furioso) sobre certos aspectos da actualidade. Se nunca ouviu, leia. É a minha recomendação para hoje.

29
Jul20

A importância do prémio literário

Maria do Rosário Pedreira

A maioria das vezes em que alguém concorre a um prémio para inéditos o objectivo é ser publicado – a menos que o valor seja alto e concorram também escritores conhecidos para se garantirem durante uns meses (ou uns anos, no caso do Prémio Planeta, por exemplo, que é uma batelada de dinheiro). Aos prémios para livros já publicados concorrem, pelo contrário, quase todos os autores com livros elegíveis (ou as editoras que os publicam), seja pelo dinheiro, seja pelo prestígio, seja pelas bastas referências jornalísticas à vitória, que sempre ajudam a divulgar o livro em causa e a vender mais uns quantos exemplares. Em todos os países há prémios que fazem muito pela carreira internacional dos vencedores (o Booker Prize é um deles), mas também há certos prémios que praticamente já só contam no país que os atribui (o Goncourt, a partir dos anos 1990, deixou de ter eco nos outros países, embora ainda fique bem no curriculum de um escritor). Esta semana, o The Guardian anunciou a long list de 162 romances que vão ser espremidos em apenas 5 finalistas do Man Booker Prize no dia 15 de Setembro, e Hilary Mantel é de novo nomeada, ela que já ganhou o prémio duas vezes. É uma das escritoras que falam do que mudou na sua vida depois do galardão, ao lado do querido Barnes, de Howard Jacobson (que perdeu amigos quando ganhou o Booker) e de Margaret Atwood, entre outros, num artigo que, sendo já de 2018, vale muito a pena ler e continua actual. O link vai aí abaixo.

https://www.theguardian.com/books/2018/jun/30/win-man-booker-past-winners-2018-prize-longlist-novelists

Hoje recomendo um vencedor do Booker: O Mar, de John Banville. Livro bom para o Verão, pois é de um Verão em especial que fala.

28
Jul20

Até a estupidez tem limites

Maria do Rosário Pedreira

Tenho lido muito sobre o que se passa no país vizinho em matéria de tomada de decisões ligadas à cultura e à educação e vejo o sistema em constante desmoronamento. Uns quantos seres supostamente pensantes e com poder têm, efectivamente, aplicado ideias inenarráveis, algumas mesmo estúpidas, mas esta última, de que tomei conhecimento por uma das fantásticas crónicas de Arturo Pérez-Reverte, passou dos limites: deixa de ser possível aprender latim e grego no Ensino Secundário. Como? Mas terei lido bem? Será que a luminária que decretou esta mudança se esqueceu de que o castelhano vem do latim e que tem, como o português, milhares de palavras oriundas do grego? Será que não sabe que a literatura ocidental começou na Grécia, que é também o berço da democracia, entre outras coisas? Estará a querer impedir os jovens de mais tarde frequentarem cursos de Estudos Clássicos? Acha-os demasiado imaturos, ou insuficientemente vivos, para estudarem línguas mortas? Não consigo encontrar uma explicação, a não ser a estupidez pura e dura. Para Pérez-Reverte é o «extermínio» do «código que permite interpretar o mundo em que vivemos». Mas leiam o artigo, que vale a pena. «Menos latim e mais imbecis».

https://www.xlsemanal.com/firmas/20200712/perez-reverte-mas-latin-menos-imbeciles.html

 

27
Jul20

Filho de peixes

Maria do Rosário Pedreira

Seguramente se lembram, pelo menos os que têm mais de quarenta, do grande jornalista desportivo Rui Tovar. Como filho de peixe sabe nadar, o seu filho Rui Miguel Tovar seguiu-lhe as pisadas, e é talvez um dos jornalistas desportivos portugueses que mais jogos internacionais viram na vida, deslocando-se a lugares bastante remotos e impensáveis para ver jogar equipas nacionais ou a selecção portuguesa. Mas não se ficou pelas notícias e reportagens a respeito dos jogos. Como é filho de peixe, é também filho de uma ex-editora que é há muito a tradutora do senhor Murakami, entre outros, já premiada mais de uma vez pelo seu trabalho e, portanto, ligada aos livros. E, assim sendo, Rui Miguel Tovar resolveu escrever sobre essas suas viagens futebolísticas para a nova colecção de Literatura de Viagens da Quetzal, a Terra Incognita, de que já aqui falei noutra oportunidade. Pela sua pena, saiu então recentemente um livro que cruza viagens inesperadas e o mundo do futebol. Chama-se Viagens sem Bola e fala de sítios como o Qatar, as Maldivas ou o Vietname, mas também a Sicília ou do Paraguai, reflectindo sobre as gentes, os lugares, a gastronomia e muito mais, como, claro, o futebol. Um livro bastante original para ler enquanto não podemos viajar de outra maneira.

Viagens sem Bola.jpg

Hoje sugiro Areias Brancas, de Geoff Dyer, um livro bilhante de «ensaios» sobre viagens a lugares onde a arte é frequentemente o objectivo primeiro e, de caminho, sobre a relação do escritor com a própria mulher.

24
Jul20

Uma livraria no céu

Maria do Rosário Pedreira

Dizem-em que hoje as pessoas pouco entram nas livrarias, e ficar por lá a ver ainda menos. Compram de máscara aquilo de que vão à procura, pagam, passam gel alcóolico nas mãos e vão à sua vida. É preciso cuidado, bem entendido, mas há outras razões para não se entrar em livrarias... Em 1907, uma livraria abriu em Chicago num... sétimo andar. Bem sei que era no edifício das Belas-Artes, que era a sede da intelectualidade e dos movimentos artísticos da cidade, mas não seria de esperar que, tão longe da rua, a livraria «The Air» fosse muito visitada. E, contudo, esteve milagrosamente aberta cinco anos e era frequentada por gente muito lida, além de estudantes de música e actores que actuavam ou estudavam em outros andares do edifício. O segredo? Bem... não só o facto de estar muito bem fornecida de livros e revistas, não só a circunstância de ali se tomar chá enquanto se lia, mas sobretudo o ser, segundo a directora da The Little Review, «a mais bela livraria de todo o mundo». Pudera, o seu design interior, inlcuindo janelas e estantes, era da autoria de Frank Lloyd Wright! Conhecia-a? Eu não. Graças a Deus, tomei conhecimento dela por um amigo que dirigiu a Biblioteca de Arte da Gulbenkian, José Afonso Furtado, no Facebook. Deixo-vos aqui um cheirinho, mas procurem-na na Internet.

flw2-1.png

Frank Lloyd Wright, ficcionista de espaços, é um dos génios citados em Os Criadores, de Daniel Boorstin. Um livro para ler e consultar que hoje vos recomendo.

A autora

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D