Foi o grande poeta John Milton, o autor de Paraíso Perdido (cuja tradução portuguesa é do poeta Daniel Jonas), quem disse que a palavra tem a capacidade de curar uma mente perturbada e é um bálsamo para as feridas. Pois bem: uma sua leitora do século XXI, Deborah Alma, poetisa também, decidiu abrir a primeira farmácia de poesia, como nos conta o sempre gratificante The Guardian. Aí, a poeta de urgência vai receitar, em vez de analgésicos, comprimidos para dormir e antidepressivos, poemas de Blake, Eliot, Shakespeare, Elizabeth Bishop, Robert Browning e muitos mais, à semelhança do que tem andado a fazer na última década numa ambulância que é também uma biblioteca itinerante de poesia, mas agora num espaço fixo de um antigo convento. Diz que está a ficar velha para andar por aí a conduzir e que se apaixonou pelo lugar, com estantes, prateleiras e armários antigos que fazem aquela farmácia de poesia parecer mesmo uma antiga farmácia. Em dois anos conseguiu pagar a hipoteca e agora está mesmo apostada em ajudar quem precisa por meio da poesia, que é o género literário que, segundo Deborah, mais fala à alma das pessoas, mais dialoga com os leitores e os ajuda, por exemplo, a perceber que não são os únicos a sofrer de determinado desgosto, ou perda, ou depressão. No espaço aberto ao público vai haver também uma secção infantil, um gabinete de consultas, um café e um auditório para leituras, performances, oficinas e até refúgios para quem quiser escrever. Por cá, ouço dizer que mais de 40% dos portugueses sofrem de uma ou mais doenças crónicas. E se se pusessem a ler poesia, hã?
Começa hoje em Lisboa (e vai até segunda) a primeira edição do Abecedário – Festival da Palavra, um evento literário que visa «promover as livrarias de rua e o livro enquanto veículo cultural». A palavra homenageada este ano é «fronteira», que será explorada no programa por escritores, pensadores, encenadores, realizadores, artistas plásticos, gestores culturais e músicos lusófonos, através da realização de tertúlias, cafés literários, declamações e concertos. A iniciativa foi de Carlos Moura-Carvalho e tem o apoio, entre outros, da Câmara Municipal de Lisboa, da DGLAB e da APEL. Informações sobre temas, participantes, locais e horários nos links abaixo.
Parece que é hoje que estreia o novo filme de Patrícia Sequeira (a também realizadora da longa-metragem Jogo de Damas, com um grupo de grandes atrizes, que tive oportunidade de ver há uns dois anos). Trata-se desta feita de uma obra que parte da história verdadeira de Snu Abecassis, a dinamarquesa nascida Ebba Merete Seidenfade, que se casou com o português Vasco Abecassis e por isso veio parar a Portugal, onde teve três filhos, fundou as Publicações Dom Quixote e conheceu Francisco Sá Carneiro, com quem acabaria por viver (e morrer, na controversa queda de uma avioneta em Camarate, no final de uma campanha para a Presidência da República, em 4 de Dezembro de 1980). Sobre este assunto, escreveu Miguel Real há alguns anos um pequeno livro intitulado O Último Minuto na Vida de S., que recria o que terá sido pensado pela editora dinamarquesa durante o último minuto da sua vida ao lado daquele que era então primeiro-ministro de Portugal, e que já teve adaptação teatral. E escreveu a jornalista Cândida Pinto o livro Snu e a Vida Privada com Sá Carneiro, que vai em quarta edição. Uma boa razão para voltarmos a eles nesta altura em que se vai certamente continuar a falar de Snu (recentemente, ela foi uma das personagens visadas numa série intitulada Três Mulheres, que está nomeada para vários prémios).
Estou quase certa de que falei aqui há tempos numa exposição do grande Escher, um dos génios maiores do Desenho e da Pintura da sua Holanda natal e do mundo. Creio que a exposição da sua obra em Lisboa deveria ter findado em Setembro de 2018, mais coisa menos coisa; mas devido à grande afluência de visitantes (sobretudo de escolas), estendeu-se por mais uns meses e só agora está a chegar ao Porto, onde ficará, pelo menos, até 28 de Julho (aproveite!). Ora, falo de Escher outra vez aqui no blogue porque ele parece ter inspirado uma grande livraria chinesa absolutamente irreal (mas real). E não só por se parecer com um desenho do referido mestre, mas por ter 80.000 livros à venda (é obra)! Desenhada por Li Xiang, jovem artista, a livraria é composta por uma série de escadas escherianas que, segundo o que leio, copiam as montanhas da cidade, e tectos de vidro que permitem entrar a luz. Anda tudo doido com a livraria, e eu espero sinceramente que isso queira dizer que muitos dos que lá vão querem, mais do que tudo, comprar um livro para ler. Deixo-vos imagens:
Mas também é dia de dizer o que ando a ler, pois o mês de Março começa hoje; e ando a ler um interessante livro que me ofereceu Itamar Vieira Júnior, o mais recente vencedor do Prémio LeYa, sabendo como gosto de poesia. O projecto é, de resto, muito interessante, porquanto configura uma correspondência entre duas pessoas (dois poetas conterrâneos e contemporâneos de Itamar chamados Ana Martins Marques e Eduardo Jorge), correspondência essa que diz respeito a um período muito específico em que a poetisa morou na casa do poeta (mas não com ele, entenda-se). Quando alugamos um apartamento (como, aliás, refere o texto de contracapa), não alugamos só a casa, mas vizinhos, porteiros e muito mais. Estou a deliciar-me com este Como Se Fosse a Casa (Uma Correspondência).
P. S. Vou fazer ponte carnavalesca e só volto na quarta. Descansem e leiam.
Antes, mandar alguém para o manicómio podia ser deveras insultuoso, mas deparei recentemente com um artigo de jornal em que um artista se dizia muito contente por ir trabalhar para o Manicómio. Bem, tenho de explicar porquê: é que este Manicómio é um espaço de trabalho conjunto (de coworking, como agora se diz) no Beato, em Lisboa, para artistas e escritores com doença mental; na companhia uns dos outros, seja qual for a área (desenho, escultura, escrita), podem ali criar com dignidade e sem preconceito (e até pedir opiniões ou inspirar-se no trabalho alheio). O projecto foi criado por Sandro Resende e José Azevedo, que trabalharam durante vários anos no Hospital Júlio de Matos com pessoas com «experiência de doença mental», cruzando às vezes os seus trabalhos com os de artistas plásticos de renome (Pedro Cabrita Reis, Jorge Molder...) e artistas internacionais (Kusturica, por exemplo). Segundo eles, a ideia é tirar as pessoas dos hospitais psiquiátricos e integrá-las em espaços de criatividade, recebendo elas além disso um salário pelo seu trabalho. Com este artigo, descobri que a poetisa Cláudia R. Sampaio está neste espaço a desenhar (além de escrever) e que é sua a frase sobre a felicidade de ir para o Manicómio (diz que este é mesmo um bom nome para um grupo de artistas com uma sensibilidade muito apurada). Os seus desenhos são, aliás, bem bonitos (há um vídeo em que a vemos pintar) e estão à venda como qualquer outro objecto artístico, sem preços de favor. Existe ainda a ideia de abrir um restaurante chamado Manicómio neste espaço. O nome é tão bom (ou melhor) do que qualquer outro.
Todos os anos a Sociedade Portuguesa de Autores atribui um prémio de jornalismo cultural àqueles que se dedicam especialmente a divulgar a cultura nos nossos meios de comunicação; e deve estar a fazer mais ou menos um ano que falei aqui de Nuno Pacheco, jornalista do Público que se tem dedicado, entre outras coisas, à divulgação da música portuguesa (e a bater no Acordo Ortográfico, o que também é importante) e foi o vencedor em 2018. Anunciado há dias, o prémio de 2019 irá ser entregue, no próximo dia 7 de Março, ao jornalista Luís Caetano, que é uma voz inconfundível da Antena 2 da RDP. Depois de ter apresentado, com Inês Fonseca Santos, o programa diário Câmara Clara na RTP 2, Luís Caetano é responsável por apresentar na rádio, entre outros, os programas A Força das Coisas, A Ronda da Noite e A Vida Breve. E, além disso, sabe conduzir mesas-redondas e ler poesia, o que não é para todos. Parabéns!
Karl Lagerfeld, o estilista de alta-costura que foi responsável por marcas tão conhecidas como a Fendi ou a Chanel, morreu há mais ou menos uma semana e foi chorado por muitos, incluindo a princesa Carolina do Mónaco, que era sua amiga. Rui Zink, na sua prestação nas Correntes d’Escritas uns dias depois do acontecimento, disse, com o humor de sempre, que a partir de agora já não vai saber como se vestir; mas curiosamente não é a sua roupa (a desenhada por Lagerfeld, entenda-se) que aqui me traz hoje, mas a sua biblioteca. Antes de tudo, é gigantesca, já que compreende centenas de catálogos de colecções; e, formada sobretudo por álbuns (de pintura, arquitectura e design), foi uma exigência do costureiro alemão a colocação dos volumes nas estantes horizontalmente, para a fácil e rápida identificação dos títulos. Com o pé-direito altíssimo, a sala onde foi instalada é quase totalmente preenchida por livros, exceptuando uns sofás confortáveis em que os leitores podem sentar-se a ler e umas escadas para chegar ao topo das estantes. Noutras salas de casa do estilista, também há livros, colocados sempre na horizontal com a lombada para fora. Não sei o que será agora desta colecção de livros de Lagerfeld – e espero que não venham a ser vendidos a peso, como tantas vezes sucede quando as gerações seguintes não ligam aos livros nem têm onde os pôr. E, enquanto não desfazem a biblioteca, deixo-vos algumas imagens para se extasiarem.
Keiko foi sempre estranha – e os pais perguntam-se onde encaixará ela no mundo real. Por isso, quando a rapariga vai trabalhar para uma loja de conveniência, a notícia é recebida com entusiasmo, até porque na loja ela encontra um mundo bastante previsível, que domina com a ajuda de um manual e copiando os colegas até na forma de falar. Mas aos 36 anos é ainda na mesma loja de conveniência que trabalha, e além disso nunca teve um namorado, frustrando as expectativas da sociedade… Embora Keiko não se importe com isso, sabe que a família e os amigos estão mais ou menos desesperados. Um dia, porém, é contratado para a loja um rapaz com o qual Keiko tem algumas afinidades. Não será então aconselhável para ambos um relacionamento? Este é o ponto de partida de Uma Questão de Conveniência, de Sayaka Murata, uma das vozes mais originais e talentosas da ficção contemporânea japonesa. O romance, que foi traduzido em mais de vinte países e vendeu 650 000 exemplares no Japão, é o retrato de uma heroína deliciosa que promete ser tão memorável como Amélie Poulain. Espero que gostem.
Hoje é dia de partilhar a crónica, e desta vez tem que ver com acasos (ou não) que, bem vistas as coisas, se podem tornar desagradáveis. Aqui fica o link:
E, para que não se esqueçam, deixo também o convite para segunda-feira. Trata-se de uma conversa à roda do romance vencedor do Prémio LeYa, Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior, na qual participam, além do autor, Ana Sousa Dias e Mirna Queiroz. Apareçam!