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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

05
Jul19

Crónica e regresso

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de partihar a crónica e o link aqui vai:

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/22-jun-2019/interior/os-iletrados-11026539.html

 

É também o dia do lançamento do mais recente romance de José Luís Peixoto, que não publicava ficção desde Em Teu Ventre. Chama-se Autobiografia e conta a história de um jovem escritor incumbido de escrever a biografia de Saramago. Diz a editora na sua nota de imprensa: «A ousadia de transformar José Saramago em personagem e de chamar Autobiografia a um romance é apenas o começo de uma surpreendente proposta narrativa. José Luís Peixoto explora novos temas e cenários e, ao mesmo tempo, aprofunda obsessões, numa obra marcante, uma referência futura.» Vou ler.

04
Jul19

Para jovens e adultos

Maria do Rosário Pedreira

Parece que esta semana apostei sobretudo no tema da literatura infanto-juvenil com os posts dos últimos dias sobre autores consagrados que escreveram para crianças e as ofertas de livros infantis do (pato) Donald Trump; e hoje reincido, mas juro que isto não constitui qualquer espécie de programa, foi simplesmente um acaso (e, aqui para nós, dos bons). A verdade é que recebi a notícia de que sairá para as livrarias muito e breve uma adaptação de A Ilídia, de Homero, para os leitores jovens, levada a efeito pelo seu grande tradutor, Frederico Lourenço, e com os desenhos originais de Richard de Luchi. Já tinha saído A Odisseia aqui há tempos, mas A Ilíada é que é o primeiro texto da literatura europeia, «um canto de sangue e lágrimas, o mais belo épico da tradição ocidental». É realmente um texto bastante mais violento do que o que se lhe segue, até porque a guerra e o sofrimento estão sempre presentes, e esta ideia de a «abreviar» pode realmente servir também para adultos mais preguiçosos, pois acredito que não se deva deixar este mundo sem tomar o pulso a estas duas obras seminais.

03
Jul19

Recusar livros

Maria do Rosário Pedreira

Tenho dificuldade em recusar livros, mesmo quando sei que os não vou ler; e também de dizer logo que não quando me estendem aqueles sacos pesadíssimos nas Câmaras Municipais e nas bibliotecas, mesmo que à partida sejam coisas que não me vão interessar. Mas há quem não pense assim e faça até desse «não» uma afirmação de carácter político. Quiçá para se reconciliar com os professores, no Dia Nacional da Leitura Trump resolveu oferecer em nome da mulher às bibliotecas de escolas primárias que tinham atingido o padrão de excelência (uma em cada Estado) uma colecção de dez livros ilustrados pelo Dr. Seuss (bastante conservadores e cheios de lugares-comuns, mas também não seria de esperar outra coisa). E «mandou» também a sua Melania, que tem um rosto bem bonito, a algumas dessas escolas ler as histórias às crianças. Porém, a bibliotecária do Massachusetts cuja escola foi visada recusou o presente, dizendo que havia escolas de comunidades muitíssimo mais carenciadas que não tinham tido direito à oferta e que era a essas que deveriam ter sido dadas as colecções de livros. E que, além disso, os títulos daquela colecção eram demasiado caricaturais, com estereótipos antiquados, e um deles incluía mesmo comportamentos racistas. Antes de assinar, aconselhava dez títulos alternativos. Chama-se Liz Soeiro. Deve ser cá das «nossas».

02
Jul19

Grandes autores para pequenos leitores

Maria do Rosário Pedreira

A literatura infantil é pouco valorizada – tendo, sobretudo, em conta que é por ela que se começa a ler (e, se algo falhar então, é provável que os miúdos nem se tornem leitores). Apesar de algumas excepções, os autores de livros infanto-juvenis não são tratados com o mesmo respeito dedicado aos outros escritores e, por outro lado, também não se dá grande importância aos livros infantis escritos por escritores consagrados de literatura adulta. Li um artigo sobre os livros infantis desconhecidos de nomes maiores da literatura universal e cheguei à conclusão de que não tinha conhecimento de grande parte deles. Por isso, escrevo hoje este post para chamar a atenção para isso e dizer que Faulkner e Joyce, por exemplo, escreveram livros para crianças (The Wishing Tree e The Cat and the Devil, respectivamente); Carson McCullers escreveu um colectânea de poesia para os mais pequeninos; James Baldwin, Gertrude Stein, Sylvia Plath, Umberto Eco, Patricia Highsmith – todos eles são autores de pelo menos um livro para os mais novos, muitos dos quais com ilustrações de sonho (a que mostro abaixo é de Yoran Cazac, do livro Little Man, Little Man, de Baldwin), tal como os pouco prováveis escritores de literatura infantil T.S. Eliot, Salman Rushdie, Saramago, Ian Fleming ou Toni Morrison.

 

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01
Jul19

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

A tradição de publicar em fascículos independentes, ou às pinguinhas em jornais e revistas, morreu, até porque os jornais e as revistas também já não são o que eram e ninguém hoje lê e encaderna fascículos (e muita gente já nem lê jornais). Mas houve um tempo em que era bastante comum (Dickens começou assim a carreira, por exemplo) e o hábito durou quase até à era do digital (sim, ainda comprei um atlas em cadernos que depois mandei coser dentro de uma capa que também ofereciam). O que agora ando a ler também começou a ser publicado em capítulos, e curiosamente na revista Playboy. Trata-se um romance de Yukio Mishima (o grande Mishima que amava as tradições e se matou desencantado com a modernidade) que, graças a Deus, a Livros do Brasil acaba de publicar em livro. Chama-se Vida à Venda e conta como um jovem publicitário de 29 anos, na sequência de um suicídio fracassado, resolve despedir-se e pôr um anúncio dizendo que vende a sua vida. Claro que esta estratégia de acabar com ela vai criar peripécias que terão frequentemente o efeito contrário, ao ponto de o fazer talvez reequacionar o valor da vida. Veremos, claro.

28
Jun19

Crónica e Cesariny

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de crónica. O link aqui vai:

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/15-jun-2019/interior/caes-como-nos-11009502.html

As biografias estão na moda, como o prova uma colecção da Contraponto, para a qual foram convidados jovens autores de nomeada como Bruno Vieira Amaral, Filipa Martins ou Isabel Rio Novo. Além desses trabalhos, uns concluídos, outros em progresso, espero com curiosidade uma biografia de Cesariny pela mão de António Cândido Franco, na Quetzal, intitulada O Triângulo Mágico.

27
Jun19

Definições

Maria do Rosário Pedreira

Lembro-me de um dos autores que publiquei há alguns anos contar que, num encontro literário já não sei bem onde, era tradição, depois do jantar e terminados os trabalhos, os participantes jogarem ao jogo do dicionário. Pedia-se aos escritores presentes que redigissem definições de certas palavras escritas num papelinho: definições bastante sintéticas e enigmáticas ou mais complexas, que de certa forma poderiam constar de um dicionário. Depois, eram lidas alto e os outros tinham de adivinhar de que palavra se tratava. É um exercício interessante pensar numa definição assim e, a seguir, compará-la com a de um dicionário já publicado. Porém, além de sugerir que joguem este jogo em família (sem complicar demasiado a vida aos adolescentes, que têm um vocabulário em geral tão pobrezinho), quero dizer que me lembrei disto por ter lido algures que numa universidade australiana todos os anos pedem aos estudantes que apresentem definições para palavras, termos ou expressões contemporâneos. Este ano, para "politicamente correcto", um aluno (sábio, diria eu) avançou a ideia de que se tratava de "uma doutrina, defendida por uma minoria iludida, que sustenta a ideia de que é inteiramente possível pegar num pedaço de merda pelo lado limpo". Eu não diria melhor.

 

26
Jun19

Na América

Maria do Rosário Pedreira

Um dos mais conhecidos escritores negros norte-americanos, James Baldwin, que lutou pelos direitos civis dos negros e, perseguido, acabou por se exilar em França, é o autor de uma pequena maravilha que em português dá pelo título de Se Esta Rua Falasse (no original, a rua tem nome, mas cá fica melhor assim), publicado pela Alfaguara. Não se afastando das questões que sempre precuparam o autor (o racismo e os bodes-expiatórios que foram tantos negros nos Estados Unidos, acusados de crimes que não cometeram e condenados a anos de cadeia onde perderam o melhor da vida), o romance é escrito na primeira pessoa por uma jovem grávida, a querida Tish, incrivelmente apaixonada por Fonny, o seu amigo de infância e namorado de sempre, que se encontra na prisão apenas porque o polícia Bell nunca suportou que um negro tivesse uma namorada tão gira, que fosse um artista (escultor, na verdade) e que andasse à procura de umas águas-furtadas fora do Harlem. A voz é surpreendentemente convincente, e as personagens femininas neste romance (Sharon, Ernestine e o trio da família Hunt) são, realmente, incríveis, apesar de Fonny e o pai não lhes ficarem atrás. O livro foi escrito em Saint-Paul de Vence (creio que era por aí que morava Eduardo Lourenço quando vivia em França) e publicado originalmente nos anos 1970; e não tem nada de panfletário apesar de trazer à tona o racismo e a violência praticada com os negros nos bairros de Nova Iorque. Uma cinta refere que existe (ou existirá) um filme realizado por Barry Jenkins (que realizou o premiado Moonlight), mas desse (ainda) não posso falar.

25
Jun19

Ler os mestres

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui falei de um livro muito curioso de Adolfo García Ortega, O Comprador de Aniversários, que parte de uma cena de um ou dois parágrafos descrita em A Trégua, de Primo Levi, para inventar a vida e o passado de uma personagem e dos seus ascendentes na Hungria. Ora, vale a pena lembrar aqui o próprio A Trégua, que se assume como uma espécie de continuação da obra-prima Se Isto É Um Homem, do mesmo escritor italiano; porém, em lugar de descrever o terror do campo de concentração, A Trégua é dedicada ao que se passa a partir do momento em que os alemães, sabendo que os russos estão a caminho, fogem do campo de Buna, abandonando na enfermaria todos os convalescentes e doentes graves, entre os quais, de resto, se encontrava o próprio Levi, delirando de febre. Depois, a viagem até casa, em muitíssimas etapas, acompanhada de figuras verdadeiramente incríveis que se vão cruzando com Levi, alguns companheiros de desgraça e outros polacos postos ao serviço do exército russo, é uma espécie de odisseia cheia de momentos terríveis mas também muito especiais, de cumplicidade, medo, alegria, trauma. A libertação às vezes custa muito. Mas vale sempre a pena. A Trégua também.