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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

07
Out19

Profissões em extinção

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes, na editora, vi que estava um papel no chão, dobradinho em quatro, e apanhei-o, tentando perceber se era alguma coisa importante e a quem pertencia. Dizia, numa das faces, «Encadernador» em letra manuscrita, seguido de um número, que parecia de um telefone. Do outro lado, facilmente se percebia que era um bocado de um velho e-mail, ou seja, tratava-se e alguém que «reciclava» papel para escrevinhar notas, exactamente como eu faço. Fui então às letrinhas impressas, das pequeninas, e por sorte era ainda legível o nome do meu colega da Caminho, Zeferino Coelho, a quem me apressei a devolver aquele apontamento. Agradeceu-me como se fosse uma nota de 500 Euros, explicando-me que andava à procura daquele papel há que temos e que era uma alegria ter de novo o contacto do encadernador. Mas ainda há quem encaderne livros?, perguntarão os meus amigos Extraordinários. Ah, pois há; e, além de Zeferino Coelho, que é um bibliófilo e colecciona biografias, deve haver muitos mais, pois a Papiê organiza uma oficina de encadernação em Belém, em três dias diferentes deste mês: 12, 19 e 26! Inscreva-se e conhecerá um mundo novo e fascinante, que um dia lhe poderá ser útil.

Horário: 10:30 às 13:00
Local: From Hand - Home Concept Store
Rua da Junqueira, 362, Belém
, Lisboa

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03
Out19

Ler poemas

Maria do Rosário Pedreira

Nunca tive jeito para a música, acho que só na adolescendência me atrevi a cantar ao pé de outras pessoas; nem  sou desafinada, mas, tendo noção das minhas limitações, depressa se tornou claro que escutar-me a mim mesma não tinha grande graça (canto mais dentro da cabeça). No entanto, gosto de dizer poemas (e em várias línguas) e as pessoas que percebem disso até me dizem que tenho jeito. Mas mais jeito tem o grupo de dizedores que hoje à tarde estarão no foyer do Teatro do Campo Alegre na sessão do Café Literário «Poesia, a Suprema Ficção». Evocando o grande poeta norte-americano Lawrence Ferlinghetti (que concluiu recentemente 100 anos e de quem é o mote entre aspas), Cristiana Sabino, Jorge Pereira, António Domingos, Idalinda Fitas, Manuela Gomes e Armando Pereira apresentam as suas escolhas poéticas. Se estiver pelo Porto, não perca.

02
Out19

Preguiçar

Maria do Rosário Pedreira

Hoje estou com um dia infernal e portanto abusarei da vossa paciência preguiçando na escrita de um post. Tenho três irmãos e, quando publiquei a minha Poesia Reunida, um deles escreveu-me um poema tão lindo sobre nós que ainda hoje, quando o releio (na verdade, basta que me lembre dele), faz com que me venham lágrimas aos olhos. Já escrevi sobre como é lindo ter irmãos (dediquei a isso, aliás, uma das minhas crónicas) e, talvez por isso, quero partilhar convosco o discurso de um dos irmãos de António Lobo Antunes, Nuno Lobo Antunes (o 5º de seis), na homenagem que foi feita ao escritor no sábado 28 de Setembro. Que lindo. No link, creio que é também possível ouvir o discurso em vídeo (eu apenas li). Desfrutem.

https://www.sabado.pt/vida/detalhe/meu-bebe-amo-te-muito--o-discurso-de-nuno-lobo-antunes-ao-irmao-antonio

 

01
Out19

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Leio a obra vencedora do Man Booker Prize em 2018 – Milkman, de Anna Burns, nascida em Belfast, onde, de resto, decorre toda a trama do romance que, em certas coisas, me remeteu para Pátria, de Aramburu, talvez por ambos os enredos se desenvolverem no período anterior ao cessar-fogo pelos grupos terroristas (no País Basco e na Irlanda do Norte). A obra de Anna Burns tem como narradora uma rapariga que vive num bairro assinalado como sendo absolutamente anti-governo e onde todos os moradores (mesmo os que não pertencem às «milícias») são vigiados, fotografados, investigados, apanhados, levados para se tornarem informadores dos «do lado de lá»; onde todas as famílias (incluindo a dela) têm medo (até de ir ao hospital) e perderam pessoas que puseram bombas, ou estavam no sítio errado à hora errada, ou andam fugidas, ou foram mandadas embora; onde os heróis podem usar o nome «Milkman» e isso fazer com que o desgraçado do leiteiro a sério (personagem fascinante, aliás) vá parar ao hospital; onde ter dezoito anos e «um namorado mais ou menos» não salva a protagonista de ser coagida a ter sexo numa casa de banho por «um dos seus»; e onde o facto de um dos cabecilhas do bairro a abordar um dia na rua leva toda a gente a dizer que ela perdeu a cabeça e não a livra de sofrer as consequências disso (e são muitas!). A linguagem divertida e inventiva da narradora (que adora ler enquanto caminha) e as travessuras das irmãs mais novas compensam a dureza do ambiente, de uma violência latente, que não nos deixa espaço nem para respirar. Uma história passada nos anos 1970, com a Irlanda do Norte ao rubro. A tradução – e boa – é de Miguel Romeira. O livro é da Porto Editora.

30
Set19

Forum Fantástico

Maria do Rosário Pedreira

Decorre na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Lisboa, no bairro de Telheiras, de 11 a 13 de Outubro, o Fórum Fantástico 2019, orientado pelo jornalista e animador João Morales. O programa, de que abaixo deixo o link, inclui lançamentos de livros, mesas-redondas, sessões de autógrafos, projecção de filmes, worskshops vários, jogos literários e outros, exposições e muito mais. Sublinho a conferência O Futuro da Ficção pelo cineasta António-Pedro Vasconcelos, no sábado 12, às 15h45, certamente baseada num livro homónimo de que gosto muito e foi dado à estampa pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. A entrada é livre.

https://forumfantastico.wordpress.com/programa-do-forum-fantastico-2019/

Este já histórico encontro é realizado anualmente pela Epica – Associação Portuguesa do fantástico nas Artes com o apoio da Junta de Freguesia do Lumiar e da BLX – Rede de Bibliotecas de Lisboa e congrega diversas actividades e convidados, em torno do Fantástico, da Fantasia, da Ficção Científica e do Horror.

27
Set19

Crónica e celebração

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de crónica. Ela aqui vai:

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/14-set-2019/interior/os-deuses-das-moscas-11298602.html

Amanhã, na Fundação Calouste Gulbenkian, celebram-se os 40 anos de vida literária de António Lobo Antunes. Um dia inteirinho dedicado ao escritor pela voz de várias personalidades. Fica o convite para passar um sábado diferente. Se estiver longe, pode acompanhar por aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=IVOl-KKIWgo

 

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26
Set19

Fingir

Maria do Rosário Pedreira

«Ficção» vem de «fingir», mas, curiosamente, no livro de que hoje vos falo, é sobretudo na pintura que se finge muito. Este romance, Hotel Melancólico, que é a segunda obra da argentina María Gainza e menos fragmentária do que O Nervo Óptico, está quase a pousar nas mesas das livrarias (sábado já deve estar à mostra em alguns sítios) e fala de falsários e falsificações, o que não é estranho se pensarmos que a autora é crítica de arte. A história reza assim: o tio da narradora, farto de a ver sem fazer nada, arranja-lhe emprego num banco para trabalhar com uma avaliadora de obras de arte. E, contra todas as expectativas, o ofício torna-se fascinante, não só pelas incríveis descobertas sobre falsificações, mas sobretudo pelas histórias secretas que a chefe acaba por lhe contar, uma das quais é a do Hotel Melancólico, onde viviam artistas que copiavam quadros para ganharem a vida e por onde passou a misteriosa Negra, que se especializara em falsificar a obra de uma pintora famosa que fazia retratos da alta-sociedade de Buenos Aires. Um belo dia, porém, a chefe estranhamente não aparece para trabalhar e o mais certo é que lhe tenha acontecido algo de grave; mas, se assim for, como continuar a viver sem saber o fim de todas aquelas histórias que ficaram a meio? É uma delícia este livro, onde o que é real parece inventado e vice-versa.

 

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25
Set19

Avant la lettre?

Maria do Rosário Pedreira

Hoje em dia estamos sempre a falar do politicamente correcto, até porque em nome dele se tem chegado a extremos de uma idiotice gritante. Mas lembro-me de que, ainda nos anos 1980, li um livro de crónicas de um historiador americano que apelava já para os perigos da doutrina do politicamente correcto, falando de um grupo feminista que queria mudar o vocábulo «woman» para «womin» só para não ter a partícula «man» lá dentro. Também o grande Julian Barnes, de quem li nestas férias O Papagaio de Flaubert (como é que ainda não o tinha lido é um mistério), escreve nesta obra vencedora de muitos prémios (curiosamente, tanto de ficção como de ensaio, porque se trata de um híbrido literário) muitas passagens que falam do politicamente correcto, entre elas a que cito abaixo:

 

«Hoje evita-se usar a palavra louco. Que disparate. Os poucos psiquiatras por quem tenho respeito falam sempre da loucura das pessoas. Usam as palavras curtas, simples, autênticas. Não digo […] desordem de personalidade […] Digo doida, é isso que digo. Doida tem o som certo, é uma palavra vulgar, uma palavra que nos diz como a loucura pode vir bater-nos à porta como uma camioneta de entrega de encomendas. As coisas horríveis também são vulgares.»

 

Um dia destes volto a este livro notável aqui no blog. Hoje foi só para sublinhar as tolices que por aí andam.

24
Set19

Testamento

Maria do Rosário Pedreira

Agora, que me vou poder passar a queixar de ser sexagenária (oh, como detesto a palavra), não posso deixar de falar de um livro que foi recentemente reeditado pela Quetzal de um grandíssimo poeta português que acabava de cumprir esses mesmos 60 anos quando o escreveu. Falo de Vasco Graça Moura e do seu testamento – Testamento de VGM, para ser mais precisa – que se republica no quinto aniversário da sua morte e é, como o próprio autor disse oportunamente, «um divertimento muito sério». Citando a editora, trata-se de «um poema autobiográfico» em que Graça Moura, com a elegância e o talento de sempre, «canta os amores, trabalhos, filhos, amigos, inimigos, a cidade natal, o ofício literário, a paixão pela pintura e a sua natureza mais íntima.» Fica aqui um exemplo do que vos espera e a recomendação: leiam-no (ao poema e ao livro).

 

deixo a meus filhos versos cultos

e também prosas às centenas

(os meus dois filhos são adultos

e as minhas filhas são pequenas)

e muito amor: não deixo apenas,

tudo somado, alguns direitos,

e fui bom pai, nunca fiz cenas

e fi-los sãos e escorreitos.