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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

06
Set21

O francês americano

Maria do Rosário Pedreira

Não costumo ser maria-vai-com-as-outras, mas respeito a opinião literária de uma dúzia de pessoas e vi que algumas delas se entusiasmaram muito com a leitura de um romance francês, o que, nos tempos que correm, é coisa rara. Está certo que o livro tinha ganho (não me apanham a escrever «ganhado», lamento) o Prémio Goncourt, o mais importante galardão gaulês, em 2020, mas assim mesmo havia ali uma unanimidade no elogio que me suscitou curiosidade. Fui, pois, comprar Anomalia, de Hervé Le Tellier, para degustar nas férias. E é talvez o menos francês e o mais americano de todos os romances de autores franceses que li na vida, pois tem efectivamente um ritmo trepidante e a meio se transforma num thriller que é simultaneamente científico, paranormal, psciológico, social, mas muito literário também. Gostei mais da parte até à surpresa desconcertante (sem querer abrir muito o jogo, esta está ligada a uma hipótese de sermos meras «simulações»), em que nos são apresentados em capítulos autónomos muitos dos passageiros que iam em determinado voo intercontinental e apanharam o susto da vida deles com uma tempestade de granizo que rachou até o pára-brisas do avião. Mas na segunda concordo que o autor tem raro talento para nos agarrar e arrastar pelas suas páginas, é muito informado (matemático, jornalista, linguista, editor...) e escreve um romance a pensar em todo o mundo. Actualíssimo, distrai bastante. Traduziu-o Tânia Ganho e saiu na Presença.

03
Set21

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

«Alguns minutos depois, Gudmund desceu à sala envergando o seu trajo de núpcias. Estava pálido, ardiam-lhe os olhos num brilho ansioso, mas nunca ninguém o vira tão belo. Os traços do rosto estavam como iluminados por uma luz interior, parecendo a quem o via um ser feito de alma e de vontade, e não de carne e de sangue.

Na sala tudo tomara um ar solene. A mãe vestira-se de preto e trazia nos ombros- o seu belo xaile de seda, embora não fosse assistir ao casamento. Todos os criados tinham também envergado os seus mais vistosos trajos. Folhas frescas de bétula guarneciam a chaminé e pratos variados e suculentos cobriam a mesa, revestida de uma alva toalha.

Terminado o almoço, a mãe Ingeborg leu um salmo e alguns versículos da Bíblia. Depois, dirgindo-se a Gudmund, agradeceu-lhe o ter sido sempre bom filho, desejou-lhe felicidades para o futuro e deu-lhe a bênção. Sabia falar bem e Gudmund comoveu-se. Os olhos velaram-se-lhe mais de uma vez, mas conseguiu vencer a vontade de chorar. O pai pronunciou também algumas palavras.

– Bastante duro vai ser para nós perder-te – disse ele.»

 

Selma Lagerlöf, «A rapariga do Brejo Grande», in O Livro das Lendas,

tradução de Pepita de Leão, Livros do Brasil

02
Set21

O cego iluminado

Maria do Rosário Pedreira

Num domingo à tarde do mês passado, fui para casa da minha mãe, como acontece com frequência, fazer-lhe companhia durante a tarde. Mas, apesar de ela ser uma grande conversadora, o calor amoleceu-a nesse dia e passou grande parte da minha visita a dormir a sesta. Como eu não ia preparada para isso, acabei por ir à estante da sala à procura de algo que ler em poucas horas e saiu-me ao caminho o excelente Cândido, de Voltaire, que provoca sempre umas boas risadas e nos faz reflectir sobre o mundo, sobretudo o de hoje. Cândido, como o nome indica, é mesmo um ingénuo que cai nas esparrelas iluminadas do falso filósofo Pangloss, por quem é educado na casa de um barão junto com a filha deste, a menina Cunegundes, que ele ama loucamente. Expulso do palácio com um pontapé no traseiro pelo pai da rapariga quando sabe dos contactos físicos (inocentes ainda), iniciará então um caminho de aventuras e desventuras – com viagens a toda a parte (incluindo Portugal, onde assiste aos efeitos do terramoto de 1755) –, durante o qual assistirá ou saberá dos horrores acontecidos (ou talvez não) a Pangloss, ao barão, à menina Cunegundes e a muitos amigos que vai fazendo ao longo do tempo e que o vão orientando para o pior e para o melhor. No fim, nesta deliciosa sátira contra a intolerância e o fanatismo, Cândido concluirá, sem grandes filosofias, que «quem não trabuca não manduca», coisa que continua a ser verdade nos nossos dias (os clássicos são intemporais), excepto para os grandes ladrões que por aí há. Viva o génio de François-Marie Arouet, aka Voltaire, e da tradutora belíssima, Maria Archer. Foi uma tarde muito bem passada.

01
Set21

De volta (e o que ando a ler)

Maria do Rosário Pedreira

Caríssimos Extraordinários, espero que tenham tido umas férias repousantes e, sobretudo, com muitas e compensadoras leituras. Eu desforrei-me até poder, embora, com o calor, a idade e a descompressão, também tenha começado a cabecear depois de almoço e a cair numa espécie de torpor impeditivo de ler. Mas a vida é assim, não se pode ter tudo. Neste momento, em que (não se esqueçam) decorrem já as Feiras do Livro de Lisboa e do Porto, locais muitíssimo interessantes para os amigos deste blogue, tenho em mãos um «calhamaço» de um escritor holandês radicado em Itália, Iljia Leonard Pfeijffer, que é simultaneamente a história de um amor (o do narrador, que tem o mesmo nome do escritor, com a jovem aristocrata italiana Clio) e uma reflexão sobre o  turismo de massas, o passado glorioso da Europa e o seu declínio no século XXI. Indo para um hotel decadente (o Grand Hotel Europa) escrever o seu livro (este livro, presumo) com o objectivo de lamber as feridas e fazer o luto da sua relação, o texto vai alternando uma parte mais romanesca com outra mais política e densa e ainda com a vida no hotel (o bagageiro jovem é um migrante chegado num barco de refugiados) e a busca do último quadro de Caravaggio por Clio, que é historiadora de arte. Na Holanda, Grand Hotel Europa vendeu loucuras. A tradução é de Maria Leonor Raven e trata-se de uma edição da Livros do Brasil.

30
Jul21

Até já

Maria do Rosário Pedreira

No último post deste mês de Julho, já a preparar as férias (pois em Agosto o blogue fecha para repouso), deixo-vos uma história lida por aí e guardada para uma ocasião como a de hoje. O Buda tinha passado vários dias a explicar aos seus discípulos a importância do despojamento para uma vida feliz e uma boa meditação. Um dia, porém, dirigindo-se com um discípulo ao templo para rezar, passou por eles uma mulher e o Buda não só parou para a cumprimentar como ficou inclusivamente a conversar com ela bastante tempo, atrasando a chegada ao templo, o que intrigou sobremaneira o discípulo. Quando o Buda voltou para junto dele, encontrou-o estranho e taciturno, mas não fez perguntas e lá seguiram até ao templo; e, na altura em que, lá chegados, o mestre se preparava para ir rezar, o discípulo reteve-o à entrada, perguntando-lhe porque parara ele a conversar com aquela mulher se, afinal, pregara o desapego de tudo, pessoas e coisas. Foi então que o Buda sorriu e lhe respondeu simplesmente: «Olha, mas eu deixei a mulher lá atrás, foste tu que a trouxeste até aqui.» Fazendo como o Buda, vou deixar o blogue para trás este mês de Agosto, tentando despojar-me de tudo para umas férias descansadas. Em Setembro estarei, espero, de volta. Boas férias a quem vai e bom trabalho para quem fica. E sem vírus! Até já.

 

 

29
Jul21

Outros Lugares

Maria do Rosário Pedreira

Não é comum juntarem-se dois autores de editoras diferentes num evento em que cada um fala do livro do outro. Mas acontece: aqui há uns anos, quando ainda se podia mostrar a cara toda em todo o lado e a toda a hora, participei num lançamento simultâneo de dois livros, um de Miguel Real (que eu própria editara) e outro de André Barata. Dispensávamos assim mais apresentadores, ocupando-se os autores dessa função. Pois bem: hoje vai passar-se o mesmo na Livraria Ler por aí, da Casa Independente, pelas 18h30. Raquel Ochoa e Paulo Moura estarão juntos para falar dos livros Pés na Terra e Cidades do Sol, embora desejavelmente separados por metro e meio ou o que for que a DGS aconselha. Pés na Terra fala de viagens intercontinentais e oferece belíssimas descrições de lugares naturais por esse mundo fora, ao mesmo tempo dando boas dicas a pessoas (mulheres, sobretudo) que viajem sozinhas. Cidades do Sol fala especialmente de grandes metrópoles da Ásia, para onde o autor parte em busca de utopias, como reza o subtítulo. A sessão, que terá vagas presenciais muito limitadas, pode ser vista e ouvida no Instagram das editoras (Oficina do Livro e Penguin Random House) às 18h30. Não perca uma boa conversa sobre viagens.

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28
Jul21

Gramáticas

Maria do Rosário Pedreira

O querido agente literário Ilídio de Matos (que já cá não está e de quem tenho saudades porque era um homem bom como há poucos) gostava muito de usar a expressão «estas gramáticas» com um significado todo dele. «Já sabe como são estas gramáticas, não sabe?», exclamava ele quando um editor fazia uma oferta milionária para tirar um autor a um colega. E de outra vez, quando lhe dirigiam perguntas estúpidas, queixava-se: «Estes parvalhões não percebem nada destas gramáticas.» E, se era melhor tratar de um contrato com urgência, podíamos ouvi-lo: «Vamos lá tratar destas gramáticas antes que alguém se chegue à frente.» Eu achava-lhe graça, e não era só eu. E agora lembrei-me dele porque estimo muito a gramática e (deixem-me brincar um pouco com isto) acho-a até bastante plural. Mas o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo mandou dizer que, depois do horroroso incêndio, vai abrir de novo as portas a todas, todos e «todes». E eu quase ouvi na minha cabeça o Ilídio a dizer baixinho que já nem o Museu da Língua conhece a gramática. Ele diria de certeza que todos cabem na palavra «todos» e que usar «todes» é sublinhar a diferença dos que querem ser iguais. Bem, o que é um facto é que a coisa deu brado no Facebook, com uns do lado de uma gramática e outros do lado da outra gramática. E uma escritora com bastante sentido de humor até comentou ao ver a palavra não dicionarizada: «A sério? A séria? A série?» Estou com ela. Sou mulher e sinto-me incluída no «todas», e no «todos» também.

27
Jul21

Querido tempo

Maria do Rosário Pedreira

Disse um dia destes num daqueles questionários que todos os jornais publicam no Verão que gostaria de ter mais tempo para ler e escrever. Na verdade, vivo mergulhada o ano inteiro nos livros ainda não publicados de muita gente, e isso retira-me tempo (às vezes puramente mental) para, chegada a casa, ir escrever ou ler outras coisas. E muitas vezes pasmo como alguns escritores com empregos a tempo inteiro conseguem escrever livros quase todos os anos. Um dia, perguntei à mulher de um desses escritores se ele era dos que não dormiam, mas ela respondeu-me que ele dormia lindamente, só que não via televisão, não ia ao cinema, não saía praticamente ao fim-de-semana e, além disso, era capaz de escrever em qualquer lado, mesmo dentro do carro, enquanto ela fazia compras no supermercado. Será um caso atípico? Não sei. Ainda na sequência do post do Livrologia que ontem aqui referi, como é que um autor que trabalhou sempre tanto (e, ainda por cima, teve tantos filhos, que são outros trabalhos) como Jorge de Sena conseguiu produzir uma obra tão variada, vasta e consistente? Como é que Vergílio Ferreira, a dar aulas e a corrigir testes, nunca faltou com romances? Como é que médicos como Namora ou Torga têm obras vastíssimas? Cá para mim, é tudo uma questão de organização e de capacidade de não se dispersar (mas, claro, eles não tinham Internet e o mundo era então muito mais calmo). Querido tempo.

26
Jul21

Com e sem plano

Maria do Rosário Pedreira

A Sapo, que alberga o meu blogue desde 2010, destacava um dia destes na página de abertura um post de «Miss X» sobre Jorge de Sena no blogue Livrologia. Era interessante (voltarei, aliás, ao assunto ali tratado) mas incluía uma questão associada aos processos criativos que é o que hoje me traz a estas parcas linhas. Imagino que quem ministre cursos de Escrita Criativa (não na universidade, mas a pessoas que gostariam de organizar melhor as ideias que têm para contos ou romances) fale aos formandos da importância de ter, antes de começar, um plano bem traçado. Eu, quando escrevia livros juvenis, tinha sempre um plano detalhado, capítulo a capítulo, que seguia para não me perder, embora, claro, a história muitas vezes me fugisse da mão e fosse parar a outros lugares. Mas, quando ouço em entrevistas ao vivo, nomeadamente em festivais literários, os autores falarem dos seus processos criativos, ainda que alguns se refiram a uma ideia enraizada e a um plano do desenvolvimento, outros há que afirmam não ter sequer qualquer esboço da história quando começam um livro e que este, por assim dizer, se vai escrevendo a si mesmo. Ora, no blogue que referi no princípio, há uma deliciosa frase de Jorge de Sena, profícuo autor, que diz assim: «Nunca concebi nada antes de começar a escrever. Nada escrevi que de uma vez não escrevesse e não considerasse escrito de uma vez para sempre.» Maravilhoso, não é? Só a beleza e a força desta frase mostra que os planos podem realmente não fazer falta nenhuma à literatura.

23
Jul21

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

O mar do Algarve é feito de cartão como nos cenários de teatro e os ingleses não percebem: estendem conscienciosamente as toalhas na serradura da areia, protegem-se com óculos escuros do sol de papel, passeiam encantados no palco de Albufeira em que funcionários públicos, disfarçados de hippies de carnaval, lhes impingem, acocorados no chão, colares marroquinos fabricados em segredo pela junta de turismo, e acabam por ancorar ao fim da tarde em esplanadas postiças, onde servem bebidas inventadas em copos que não existem, as quais deixam na boca o sabor sem gosto dos uísques fornecidos aos figurantes durante os dramas de televisão. Depois do Alentejo, evaporado na paisagem horizontal como manteiga numa fatia queimada, as chaminés que se diriam construídas de cola e paus de fósforo por asilados habilidosos, e as ondas que se diluem sem ruído na praia no crochet manso da espuma, faziam-no sempre sentir-se como os bonecos de açúcar nos bolos de noiva, habitante espantado de um mundo de trouxas de ovos e de croquetes espetados em palitos, a imitar casas e ruas [...]

 

António Lobo Antunes, O Conhecimento do Inferno (1980), Publicações Dom Quixote

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