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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

06
Abr18

Fado literário

Maria do Rosário Pedreira

A minha amiga fadista Aldina Duarte tem uma velha relação com os livros e a literatura, pois, segundo ela conta frequentemente em entrevistas, a mãe a deixava em pequena numa biblioteca conhecida quando acabava a escola e só vinha buscá-la umas horas depois. A Aldina é de facto uma leitora compulsiva (sempre com um livrinho dentro da mala) e ecléctica – lê desde ensaio sobre o corpo ou a arte aos clássicos mais empedernidos e à literatura mais vanguardista. Os seus álbuns estão também, de certo modo, ligados à escrita; um deles chama-se Contos de Fados (e tem que ver com narrativas), outro Romance(s) (não é preciso dizer mais nada) e o mais recente tem por título Quando se ama loucamente – o que apontaria talvez para uma ligação a Florbela Espanca, mas não: efectivamente, tem que ver com a obra da escritora de culto Maria Gabriela Llansol. Pois bem, hoje à noite Aldina vai cantar este seu álbum literário no CCB – e eu vou lá estar. Se gosta de um fado assim profundo, não perca o concerto. De contrário, leia os belos poemas da Aldina Duarte, uma grande escritora de letras, além de leitora.

05
Abr18

Livros caros e porquê

Maria do Rosário Pedreira

Quase toda a gente se queixa de que os livros são caros (mesmo os editores-leitores), e a Planeta Tangerina (PT) – a quem faço vénia – publicou no seu blogue um muito interessante e esclarecedor post sobre, no fundo, porque isso acontece em Portugal e a percentagem que cada parte envolvida na feitura de um livro arrecada para si. O link vai no fim deste meu post, até porque as professoras podem falar deste assunto aos seus alunos e aos pais que usam a desculpa do dinheiro para não comprarem livros aos filhos. Os Extraordinários, se lerem com atenção o artigo da PT, verão que um país pequeno está sempre mais sujeito a um preço mais alto do livro em virtude de as tiragens serem menores. Contudo, talvez fosse possível alterar um pouco as coisas. O Manel contou-me que uma vez, numa feira internacional, uma editora já não sei de que país (nórdico, provavelmente), achando diminuta a tiragem que ele lhe indicava como habitual em Portugal para um livro de venda média, lhe perguntou quantos exemplares de cada título as bibliotecas portuguesas lhe compravam (isto porque, no seu país, cerca de 3000 exemplares de todos os títulos publicados eram comprados pelas bibliotecas, não sei se pelo Governo, se pelas Câmaras Municipais). Ele respondeu que nenhum e que, por vezes, as bibliotecas ainda escreviam cartas a pedir livros às editoras… Bem, as coisas já não são exactamente assim, claro, mas, se as bibliotecas se abastecessem um pouco mais, mesmo seleccionando os títulos a comprar (evitando o lixo e adequando as compras ao público frequentador), isso não tornaria o livro mais barato?

 

http://planeta-tangerina.blogspot.pt/2018/03/para-onde-vai-o-dinheiro-quando.html?m=1

 

04
Abr18

Regressar

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui disse – tenho a certeza – que, com todos os livros que ainda não li (e com tantos outros que tenho de ler profissionalmente no dia-a-dia), é mesmo raro eu regressar a um romance lido noutra época da vida (com a poesia, bem entendido, isso não acontece). Há tempos, como aqui contei, não resisti, porém, a Italo Calvino e ao seu brilhante Se numa noite de Inverno Um Viajante – e ainda bem! Mas a experiência do reconhecimento imediato e da satisfação plena que obtive com Calvino nem sempre se repete – e a reacção pode até tornar-se bastante decepcionante: porque já não temos aquela idade, porque a nossa cultura é outra e mais ampla, porque mudamos de gostos ao longo da vida… O que não muda, de facto, são os grandes autores; e, por razões que Vossas Excelências em breve saberão, precisei de regressar a um livro muito amado, pelo que, numa noite da semana passada, fui à estante buscar um velhinho romance de Marguerite Duras do qual guardava a mais poderosa das memórias. Trata-se de Uma Barragem contra o Pacífico, texto que conta muita verdade da vida da própria autora e da sua família na Indochina, para onde foram atrás da promessa de uma vida melhor. E tudo, mas tudo, o que lembrava ainda lá está intacto, exactamente como da primeira vez: e a primeira vez foi mesmo há muito tempo… Milagres que, por serem milagres, quase nunca acontecem. Leiam, se o encontrarem.

03
Abr18

Vergonha?

Maria do Rosário Pedreira

Apesar de se ler cada vez menos (falo de literatura, e não de SMS ou murais de redes sociais) – e de algumas pessoas fazerem arrogantemente alarde da sua ignorância –, a verdade é que ainda há muito quem se envergonhe de não ter estudos (por isso mentem tantos políticos a propósito dos seus currículos) e de não ter lido as obras que certos académicos consideram obrigatórias ou fundamentais (o Proust, claro). Muita gente do meio intelectual tem mais dificuldade em confessar, junto de confrades ou publicamente, as suas lacunas quanto à leitura de uns quantos títulos – alguns ficam calados no meio de uma conversa entusiasmada (e isso nota-se); outros, mais afoitos, metem a colherada na conversa com generalidades que denunciam em três tempos a sua falta de conhecimento. Mas… com tanto livro, como ler tudo? Eu, que vivo à procura do novo e publico o contemporâneo, como vou alguma vez ter tempo para ler tudo o que está para trás e falhei por qualquer razão (o Ulisses de Joyce, por exemplo)? Devo ter vergonha dessas minhas lacunas? Claro, mas que fazer? Hanif Kureishi, num interessante questionário que o The Guardian propõe de vez em quando a escritores, confessa que nunca leu uma  linha de Jane Austen, confissão que, vinda de quem vem, considero um acto de coragem extraordinário. A seguir diz: «My shame is big.» Mesmo assim, a verdade a acima de tudo.

02
Abr18

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Volto a falar de um livro que já aqui mencionei aquando da atribuição do Man Booker Prize do ano passado, mas ainda não tinha lido: Lincoln no Bardo, de George Saunders, o escritor norte-americano celebrizado pelas suas short-stories que se atreveu ao romance e arrecadou logo na estreia um prémio de peso. Com razão. Lincoln no Bardo (o título estranha-se mas depois entranha-se) é uma peça literária excepcional, um exercício que apela ao teatro e seus coros (quase tudo são, afinal, falas, exactamente como num texto dramático para ser dito em palco) e, simultaneamente, à citação (prática tão querida aos anglo-saxónicos, que têm dicionários de quotations a propósito de tudo), mas que aqui se refere a livros de testemunho e crónica social (inventados, diria eu, apesar da versomilhança dos títulos e autores) que servem, juntamente com as referidas falas, para nos contar a história central: a de que o presidente Lincoln, na mesma noite em que dava uma festa de arromba, perdeu um filho pequeno que amava profundamente. Por não estarem na terra natal, é emprestado provisoriamente ao presidente lugar num jazigo para o túmulo da criança; e é aí que vamos encontrar Abraham Lincoln visitando o seu menino, tirando-o do caixão, abraçando-o, falando-lhe em silêncio e chorando amargamente. E é aí também que os habitantes desse cemitério, uns espíritos melhores do que outros (mas três principalmente - e um deles, o reverendo Everly Thomas, talvez nem espírito seja...) irão tentar de tudo para que o pequeno Willie saia daquele lugar que, enfim, não é um bom lugar para uma criança. Para isso, porém, é preciso que o pai volte e o leve com ele, mesmo sem o saber que o leva quando partir. Belíssimo, estranho, musical - com um coro de vozes que captam imediatamente a nossa simpatia-empatia, recomendo vivamente e quase me penalizo por ter esperado tanto tempo para o começar.

29
Mar18

Leituras atrasadas

Maria do Rosário Pedreira

Compro todos os dias o jornal e passo os olhos pelas gordas quando chego à editora; mas só leio o que me interessa mais tarde – por vezes, muitíssimo mais tarde. O artigo que hoje trago para aqui, por exemplo, é de 5 de Março e foi escrito na edição do 28.º aniversário do Público por Isabel Lucas – mas, por “faltíssima” de tempo, só o li com a devida atenção na sexta-feira passada. Diz-nos como a literatura escreveu o presente nos últimos 28 anos – e a verdade é que, sempre que se tratou do trágico e do horrível, ela sentiu antes de tudo necessidade de calar – e só depois, feito o presente passado, começaram a sair os livros sobre as coisas tremendas, magoadas, inesquecíveis. Houve excepções, mas poucas, e houve também estranhas coincidências, como a de livros que pareciam prenunciar um mal que nem se sabia que aí vinha. O artigo refere, claro, o 11 de Setembro, o Katrina, a guerra do Iraque, o ataque com gás sarin no metro de Tóquio... Fala, por isso, de Don DeLillo, Jonathan Safran Foer, Laurent Gaudé, Murakami e muitos mais. Mas o melhor é lerem, pois vale mesmo a pena esta maneira de olhar para trás e ao mesmo tempo adivinhar o que por aí virá... em literatura. Obrigada, Isabel.

28
Mar18

Não é só cá

Maria do Rosário Pedreira

Não, não é só cá... Aqui há tempos, li já não sei em que jornal que, pela primeira vez em décadas, o Reino Unido, que sempre tinha tido altos índices de leitura, perdera muitíssimos leitores de ficção literária – e perdera-os para os smartphones... Aqui a coisa não anda melhor, não só pelas rendas impossíveis de pagar pelos livreiros (o lado negro do turismo) que fazem fechar muitas livrarias, mesmo as históricas, mas também por um tempo veloz que afasta as pessoas de uma leitura mais lenta e as atira para os seus telefones, onde se sucedem mensagens curtinhas que não obrigam a grande discernimento. (Leio no Público de sexta-feira passada : "Só 0,8% não tem telemóvel; enviam, em média, 93 SMS e fazem 27 minutos de chamadas por dia. Estes são os números sobre a utilização do telemóvel reportados por jovens entre os 15 e os 22 anos, inquiridos no âmbito do projecto Faqtos. Já o acesso à Internet e às redes sociais no telemóvel quadruplicou em seis anos.") Será talvez pela diminuição do número de leitores de livros que no Reino Unido, segundo leio no The Guardian, o condado de Northampton quer fechar 21 das suas 36 bibliotecas? Chi, e ainda pretende reduzir o horário das que ficam abertas? O governo diz que vai provavelmente interferir (haja alguém), até porque a média europeia é de uma biblioteca para 16.000 leitores e em Northampton ficaria uma biblioteca para 60.000. Mas, com ajuda do Estado ou não, a médio prazo haverá mesmo leitores suficientes a frequentá-las?

27
Mar18

No jardim de infância

Maria do Rosário Pedreira

Não vou dizer nada que não se saiba já, mas não custa insistir numa coisa com que todos os que lêem este blogue (bem, quase todos) se preocupam: o insucesso escolar relacionado com a falta de hábitos de leitura. O Instituto Politécnico do Porto desenvolve, desde 2015, um projeto com cerca de mil crianças de quatro agrupamentos escolares, tendo verificado que as atividades de leitura no jardim de infância diminuem em 50% o risco de dificuldades de aprendizagem no primeiro ano de escolaridade (a antiga primeira classe). O projecto foi criado para prevenir “percursos de insucesso precoce” e algumas das variantes avaliadas nas crianças, concluído o jardim de infância, são a linguagem e a consciência cronológica. As que são então sinalizadas como “em risco” podem beneficiar de uma intervenção ao longo de mais um ano com vista à diminuição das dificuldades na leitura e na escrita, que as penalizariam logo no início do seu percurso escolar. As que não apresentam riscos no final do Jardim de Infância são, habitualmente, as que têm competências a que o artigo chama “pré-leitoras adequadas a um percurso de sucesso escolar”, ou seja, as que leram livros ou ouviram histórias apropriadas e trabalharam a cronologia numa história. Razão de sobra para promover a leitura entre os mais pequeninos.

 

26
Mar18

Mestiçagem

Maria do Rosário Pedreira

Acho que os portugueses sempre gostaram de misturas em termos musicais – existe, de resto, uma teoria, assente em argumentos de peso, de que o nosso fado vem de uma modinha brasileira tocada ao piano que a Corte (que partira com D. João VI) terá trazido com ela ao regressar ao Reino – e depois se transformou noutra coisa. Pois bem, seja ou não assim, a verdade é que se fazem muito boas músicas em Portugal cruzando fado e música brasileira (no caso, bossa nova); e, embora o tema do blogue não tenha a ver com música, a verdade é que fui convidada para fazer uma letra para o álbum Moça Morena, do colectivo RioLisboa (Bruno Fonseca é o compositor dessa música e o principal impulsionador do projecto), no qual participam vozes mais fadistais e mais brasileiras (todas de mulheres: Sandra Correia, Luanda Cozetti, Rute Soares, Teté Alhinho, Ana Margarida e Mili Vizcaíno). Na quarta-feira passada, havia um espectáculo de lançamento do álbum no B.Leza às 22h00 e eu estava mortinha por ir. Infelizmente, atacou-me a meio do dia um desses vírus que nos fazem perder uns quilos numa noite (uso este eufemismo para não ser muito gráfica) e restou-me ouvir o CD quando melhorei. Ainda o ouço. Ouçam também, que vale muito a pena. Obrigada, Bruno, pelo convite.

23
Mar18

Outro sítio no mesmo sítio

Maria do Rosário Pedreira

Os Portugueses, ao que leio e ouço, gostam de entupir as urgências dos hospitais com casos que poderiam, na grande maioria das vezes, ser resolvidos por telefone (há um número para isso e, segundo sei, até é bastante eficaz) ou, quando muito, nos respectivos Centros de Saúde. Mas este não é assunto para um blogue de livros e apenas me lembrei dele a propósito de um e-mail que recebi recentemente da Casa Fernando Pessoa. Sim, recebo uma newsletter da casa do poeta regularmente, com a programação semanal ou mensal e as várias actividades, mas desta vez tratava-se tão-só de me avisarem que o site da Casa (ou sítio, se preferirem), apesar de continuar na morada de sempre, era já outro. Fui espiolhar e aconselho quem se interesse a fazer a mesmíssima coisa, mas não são as mudanças (algumas de pormenor) que aqui me trazem hoje. É que, nesse anúncio sobre o novo look, dizia-se ainda: «Visite-nos antes de nos visitar.» Será que, com esta onda de turismo lisboeta, aparecem chusmas de visitantes de todas as partes do mundo que é preciso travar, como acontece nas urgências dos hospitais?...