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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

19
Abr18

Em Cabo Verde

Maria do Rosário Pedreira

Não é só em Portugal que os escritores de língua portuguesa se reúnem para discutir literatura (e outras coisas interessantes). A UCCLA e a Câmara Municipal da Praia promovem a partir de hoje e até domingo mais um Encontro de Escritores de Língua Portuguesa na capital de Cabo Verde. É já a 8ª edição deste festival que tem contribuído para que escritores lusófonos de vários continentes troquem ideias e se conheçam. Nem sempre acontece na mesma cidade, pois já se realizou também nas cidades de Natal e Luanda. Na presente edição, o tema é Cidade e Literatura e haverá três subtemas: Literatura e Cidadania, Literatura e Criatividade, Literatura e Juventude. Estarão presentes autores de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Timor. O certame, no total de edições, já recebeu mais de 100 autores lusófonos, incluindo 5 prémios Camões: Arménio Vieira, Eduardo Lourenço, João Ubaldo Ribeiro, Pepetela e Mia Couto.

18
Abr18

Portabilidade

Maria do Rosário Pedreira

Dizem-se manuais as coisas feitas à mão, mas, aqui para nós, os actuais manuais escolares são tudo menos manuais. Temos a mania de achar que no nosso tempo é que as coisas eram boas, mas os manuais de hoje (e o material escolar em geral) são muito sofisticados e infinitamente mais atraentes do que os do meu tempo, de cadernos com capa monocromática, normalmente preta ou a atirar para o rosa-velho, e borrachas malcheirosas. Estes manuais de agora têm capas muito manuseáveis, formato grande e mais arejado, ilustrações, cores garridas, esquemas, gráficos, enfim, é uma festa. E, mais do que isso, fazem a papinha toda aos alunos, o que, por acaso, não sei se é assim tão bom, porque talvez fosse mais salutar fazê-los ir em busca de textos complementares sobre as matérias estudadas, uma vez que, ao contrário de mim, até têm acesso a uma coisa miraculosa chamada Internet. Mas, no meu tempo (deixem-me puxar a brasa à minha sardinha), os manuais, embora tristonhos, cabiam todos numa simples pasta (mochila era coisa que ainda não se usava nessa altura senão para ir acampar) e não me lembro de trazer as costas curvadas ou precisar de mala com rodízios para transportar os livros até à escola. Um dia destes, estive a consultar alguns manuais de Português de 12º ano e já não podia com aquele peso todo nas pernas! O que faria se tivesse de andar com ele às costas… Não poderia existir um meio-termo, senhores?

17
Abr18

Génios

Maria do Rosário Pedreira

Existem por aí muitos livros sobre o génio (não falo do mau génio, bem entendido, que também grassa em todas as partes). De repente, lembro-me de três muito diferentes: Génio, de Harold Bloom, o autor do famoso O Cânone Ocidental; Os Criadores, de Daniel Boorstin – um livro provavelmente já fora de mercado, mas extremamente legível sobre os pioneiros geniais em todas as áreas (da religião à fotografia); e, para não citar demasiados títulos, Gödel, Escher, Bach, de Douglas Hofstadter, obra que ganhou o Pulitzer nos anos 1970 e entrelaça as mentes brilhantes de um músico, um pintor e um matemático, mas fala de muitas outras coisas, como lógica, criatividade, formigas e até budismo. Ainda assim, as três pessoas citadas no título desta última obra eram verdadeiramente geniais. Sobre Bach, não há palavras que cheguem para elogiar as suas composições; Kurt Gödel, supostamente a figura menos conhecida dos Extraordinários, que são mais dados às letras do que aos números, nasceu na Áustria no início do século XX e foi autor de importantíssimos teoremas matemáticos (entre os quais, os teoremas da incompletude e da completude). Mas, no fundo, é do génio de Escher que vinha falar-vos hoje, porque está em Lisboa uma importantíssima exposição da sua obra para ver no Museu de Arte Popular que termina a 27 de Maio; e, apesar de os bilhetes não serem propriamente baratos e de não estarem lá algumas das obras mais conhecidas do artista (a mão que desenha a própria mão, por exemplo), a mostra é fascinante e imperdível: para quem já conhecia e pode encher o olho (e os primeiros desenhos do holandês, menos divulgados, têm já muito que se lhe diga); e para quem ainda não conhece, mas tem de conhecer.

 

Maurits-Cornelius-Escher-escadas-relativity-ilusao

 

16
Abr18

Mentir melhor

Maria do Rosário Pedreira

Já não tenho a certeza, mas julgo que foi o escritor brasileiro Inácio de Loyola Brandão, delicioso octogenário, que nas últimas Correntes d’Escritas contou uma história que tem a sua piada. Dois amigos, um pianista e o outro escritor, estavam a beber uma cervejinha e a ouvir um disco de música clássica (para simplificar, vamos imaginar que Pedro e o Lobo, de Prokofiev, peça na qual os instrumentos imitam os sons da natureza na perfeição). Impressionado com o que escutava, o escritor disse ao seu amigo que os músicos tinham uma capacidade de mentir absolutamente fantástica e que tinha pena de não ter essa mesma possibilidade no seu ofício. O amigo músico encaixou a frase, processou-a no tempo devido e devolveu que o escritor estava completamente enganado, que um escritor tinha, efectivamente, capacidade de ser muito mais mentiroso do que um compositor. O interlocutor quis então saber em que argumento se baseava o pianista para fazer tal declaração, ao que este explicou: «Bem, é que eu só tenho 7 notas, enquanto você tem 23 letras!»

13
Abr18

Histórias a arder

Maria do Rosário Pedreira

O escritor Nuno Camarneiro decide viajar até uma zona de guerra no Médio-Oriente para melhor entender as razões do conflito e de quem nele participa. Mas o que começa por ser uma visita de estudo transforma-se rapidamente num pesadelo, quando o escritor e os seus companheiros de viagem são sequestrados por um grupo de fundamentalistas islâmicos. Ao longo de várias semanas terão de encontrar estratégias de sobrevivência que protejam o corpo, a mente e algumas crenças fundamentais. Os prisioneiros contam histórias, revisitam memórias, inventam jogos e vidas inteiras, tornam-se guerrilheiros da ficção. Numa guerra entre homens, ideias, deuses e civilizações não há partes neutras, e é difícil distinguir as vítimas dos agressores. A verdade escreve-se em muitas línguas, como as histórias e os sonhos de cada um. Este é apenas um resumo possível de O Fogo Será a Tua Casa, o novo romance de Nuno Camarneiro, disponível a partir da próxima semana. O livro é muito mais do que isto, evidentemente.

O Fogo K 3D (2).jpg

 

12
Abr18

O autor e as suas personagens

Maria do Rosário Pedreira

Disse um dia a inteligente e criativa Rosa Montero, falando do seu próprio caso, que, sempre que estava a escrever um romance, ficava um tanto ou quanto obcecada e raramente conseguia desviar dele a atenção. Mesmo quando não estava à secretária a escrever, estava quase sempre a pensar no livro e nas personagens, a rever mentalmente o que já escrevera ou a conceber frases e cenas para passar em breve ao papel. Contou mesmo que lavava os dentes com as suas personagens no espelho da casa de banho, se levantava da cama com elas e, ao fim da noite, ainda se deitava com uma ou duas. Pois bem, já não me lembro quem disse isto (alguém o contou num encontro de escritores e a minha memória guardou a frase, mas não o seu autor – ele/ela que me perdoe): que, no que toca à escrita de romances, os autores andam primeiro atrás das personagens; passado um tempo, caminham com elas, a seu lado; por fim, estão dentro delas. Atrás delas, com elas, nelas. Gostei da ideia.

11
Abr18

Fronteira

Maria do Rosário Pedreira

Os festivais literários continuam por esse Portugal fora – e desta feita está na hora de desfrutar da sexta edição do Fronteira, festa em torno da literatura que decorre em Castelo Branco a partir de hoje e até ao próximo dia 14. A receita não difere do que é habitual em outros certames do género no País: mesas-redondas para discutir vários assuntos (entre eles, o que mudou na literatura portuguesa desde a atribuição do Prémio Nobel a Saramago, há vinte anos certinhos); idas dos autores às escolas para conversas com alunos; entrevistas ao vivo (desta vez com Mário Augusto, um jornalista que adora cinema); oficinas de ilustração. Os autores e outros participantes (moderadores, inclusive) é que vão mudando, mesmo que se diga que muitos deles estão em todas. Em Castelo Branco, vai ser possível ouvir, por ordem alfabética do primeiro nome, Ana Margarida de Carvalho, António Mota, Filipa Melo, João Ricardo Pedro, José Carlos Vasconcelos, José Mário Silva, Maria Bouza, Maria João Lopes, Mário Augusto, Pedro Brito, Pedro Mexia e Rachel Caiano. Espero não me ter esquecido de ninguém. Fronteira é a prova de que no Interior também acontecem coisas interessantes.

10
Abr18

(Des)integrar

Maria do Rosário Pedreira

Integrar é palavra de ordem na escola. Quando, nos idos de 1980, dei aulas de Português em Lisboa & arredores, tinha uma turma de alunos com «dificuldades de aprendizagem» entre alunos cujo aproveitamento era absolutamente normal. Nesse tempo, estas turmas eram, é bom que se diga, reduzidas. Mesmo assim, alguns dos miúdos mais espertos desmotivavam-se, excepto quando eram muito bem formados e queriam eles próprios ajudar os mais necessitados. Depois veio a altura de integrar crianças que vinham de outros países, desde aficanos e brasileiros (aparentemente mais fácil por causa da língua) a ucranianos, moldavos, chineses e muito mais… Penso que a integração correu bem, sobretudo porque as crianças são muito elásticas. Mas agora uma equipa de investigadores descobre que integrar os estrangeiros na escola é bom, mas sem exageros – ou seja, que a mistura é saudável e tem efeitos mais positivos do que a falta de convívio com outras nacionalidades; mas que, se a percentagem de estrangeiros for superior a 20%, os miúdos, regra geral, saem-se pior do que a média. E porquê? Porque, sendo muitos, haverá tendência para se «guetizarem», enquanto, se o número de imigrantes não for tão alto, os nacionais puxam de algum modo por eles e eles pelos nacionais (os imigrantes de segunda geração lêem melhor do que os portugueses!). Em Portugal, os alunos estrangeiros ascendem a 10% do total de alunos, mas 70% estão em apenas 25% das escolas do País e existe uma concentração nas zonas mais desfavorecidas. Este estudo, desenvolvido pelo ex-ministro da educação David Justino e a investigadora Isabel Flores, avalia alunos de 15 anos nas áreas de Leitura, Matemática e Ciências.

09
Abr18

Divulgação científica

Maria do Rosário Pedreira

Comecei no mundo da edição pelos livros de divulgação científica – e, talvez por isso, tenha uma fé inabalável na ciência. Foi nessa primeira editora onde trabalhei que conheci José Mariano Gago, na altura um dos professores e cientistas que aconselhavam obras para tradução e publicação em Portugal; e, embora nunca tivéssemos sido exactamente próximos, lembro com muita simpatia um almoço de trabalho durante o qual estivemos a falar sobretudo das nossas respectivas nespereiras que, naquele ano, por uma razão que não entendíamos, tinham dado nêsperas bastante sensaboronas. Adiante: toda a gente sabe a importância de Mariano Gago no desenvolvimento da ciência em Portugal – tiremos-lhe o chapéu, por favor, porque ainda por cima ele não era nada gabarolas a este respeito – e, por isso, a SociedadePortuguesa de Autores (SPA), numa homenagem mais do que merecida, criou um prémio anual para um livro de divulgação científica a que pôs o seu nome. Temos excelentes divulgadores – desde logo António Damásio, mas também Carlos Fiolhais ou Jorge Buescu – e por isso a escolha há-de ser bem renhida. Como Mariano Gago gostava, claro. Parabéns à SPA.

06
Abr18

Fado literário

Maria do Rosário Pedreira

A minha amiga fadista Aldina Duarte tem uma velha relação com os livros e a literatura, pois, segundo ela conta frequentemente em entrevistas, a mãe a deixava em pequena numa biblioteca conhecida quando acabava a escola e só vinha buscá-la umas horas depois. A Aldina é de facto uma leitora compulsiva (sempre com um livrinho dentro da mala) e ecléctica – lê desde ensaio sobre o corpo ou a arte aos clássicos mais empedernidos e à literatura mais vanguardista. Os seus álbuns estão também, de certo modo, ligados à escrita; um deles chama-se Contos de Fados (e tem que ver com narrativas), outro Romance(s) (não é preciso dizer mais nada) e o mais recente tem por título Quando se ama loucamente – o que apontaria talvez para uma ligação a Florbela Espanca, mas não: efectivamente, tem que ver com a obra da escritora de culto Maria Gabriela Llansol. Pois bem, hoje à noite Aldina vai cantar este seu álbum literário no CCB – e eu vou lá estar. Se gosta de um fado assim profundo, não perca o concerto. De contrário, leia os belos poemas da Aldina Duarte, uma grande escritora de letras, além de leitora.