A chama está a salvo
Publiquei com felicidade o romance vencedor do Prémio LeYa em 2018: Torto Arado, de Itamar Vieira Junior. Desde que o prémio foi anunciado, esse livro só me deu alegrias, pois não só já vendeu no Brasil cerca de meio milhão de exemplares, mas também está vendido em 24 países e terá (ou já teve) adaptações cinematográficas e teatrais. O autor, que antes tinha apenas um livro de contos, poderia ter ficado bloqueado com o sucesso, mas, além de ser uma pessoa extraordinária e não ter ganho qualquer arrogância com a proeza, escreveu a seguir um romance que publicamos esta semana, Salvar o Fogo, que é outra obra-prima e resumo assim: depois de ter ficado órfão de mãe, Moisés vive com o pai e a sua irmã Luzia num povoado cujo domínio das terras pertence à Igreja que ali detém um mosteiro desde o século XVII. Os irmãos partiram todos em busca de uma vida melhor, mas Luzia foi obrigada a ficar para cuidar do pai e do menino; estigmatizada pelos seus supostos poderes sobrenaturais (como acender o fogo), leva no entanto uma vida de profundo sentido religioso, trabalhando como lavadeira do mosteiro e educando Moisés rigidamente com o objetivo de o inscrever na escola dos padres e conseguir para ele a educação que nenhum deles pôde ter. Porém, a experiência dessa formação marcará o rapaz de tal modo que ele acabará por deixar intempestivamente a casa. Será só vários anos mais tarde, depois de um grave acontecimento que é o pretexto para a família toda se reunir, que Moisés reencontrará uma Luzia arrependida dos silêncios e magoada pelas mentiras, mas simultaneamente combativa, lutando como nunca pela posse da terra dos seus antepassados. Épico e lírico, Salvar o Fogo é um romance que mostra que muitas vezes os fantasmas de uma família não se distinguem dos fantasmas de um país. A ferida aberta por Itamar Vieira Junior só o leitor poderá fechar.


