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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

14
Jan19

A importância do contexto

Maria do Rosário Pedreira

Tem-me irritado bastante um certo discurso politicamente correcto a propósito do passado histórico de Portugal e Espanha – conquistadores, escravocratas e colonizadores, ninguém nega –, fazendo tábua rasa do contexto em que tudo se passou e tornando uma empresa que foi realmente épica (sobretudo a nível do desenvolvimento da ciência e da navegação) num acto de violência puro e duro. Não é aqui o lugar para fazer tal discussão, mas serve esta introdução para dizer que até as frases, fora do contexto e da época em que foram escritas, se tornam difíceis de compreender. O exemplo é chamar «milionária» a uma cidade como Havana, calculem, que hoje é tudo menos isso – e até já foi mesmo uma cidade de profunda miséria, nos anos 1990, em que as pessoas pediam aos estrangeiros que andavam na rua coisas tão elementares como sabão, azeite, pensos higiénicos e roupa interior (estive lá nessa altura e assisti a muitas cenas dessas). Mas esqueçamos essa época triste de Havana e voltemos então à sua glória cem anos antes para ver o que Eça de Queirós, diplomata na cidade, dizia dela numa carta a Ramalho Ortigão (sim, fui à exposição sobre Eça num destes domingos de manhã e foi aí que li esta pérola): «Detesto-a a esta cidade esverdeada e milionária, sombria e ruidosa – este depósito de tabaco, este charco de suor, este estúpido paliteiro de palmeiras!» Embora não concorde (conheço outra Havana), vê-se logo o génio do autor.

 

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