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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

12
Jan16

A morte das bibliotecas privadas

Maria do Rosário Pedreira

Pacheco Pereira é um grande leitor e escreveu um artigo notável sobre a forma como hoje se lê (como se lê menos, mesmo que haja mais gente a ler) e a anunciada morte das bibliotecas privadas. Há quarenta anos, quem gostava de ler acumulava livros nas estantes, muitos livros a que voltava vezes sem conta – e as gerações actuais não sabem o que fazer com as bibliotecas de seus pais e avós quando estes morrem. Não há espaço para elas nos novos apartamentos, quase sempre mais pequenos; mas, segundo o articulista, mesmo que houvesse, elas não deixariam de ser, em muitos casos, bibliotecas mortas, porque, para estar viva, uma biblioteca tem de ser alimentada regularmente com livros novos, e esta regularidade nem sempre acontece com os leitores mais jovens. O facto de as suas casas não terem muitos livros nas estantes (ou não terem estantes sequer) não pode, porém, como diz Pacheco Pereira, ser explicado apenas por uma troca de suportes – do papel para o digital – mesmo que hoje se leia quase tudo de borla na Internet e haja muita gente a ler livros em tablets. A verdade é que, ainda que, em virtude da democratização do ensino, haja mais gente a ler, isso não significa que leia com o mesmo «grau qualitativo», nem com a mesma necessidade quotidiana que tinham os leitores antigos, que podiam gastar duas horas por dia a ler, sentados na sala, autores como Faulkner ou Balzac, enquanto os actuais, nessas duas horas de leitura, estarão simultaneamente a ver os e-mails que recebem, a ouvir música, a consultar o YouTube, a mandar mensagens (e por isso não estarão a ler com a mesma atenção dos pais e avós, ou seja, não estarão a reter do livro o que aqueles retiveram). Uma excelente análise de um homem que gosta das novas tecnologias, mas não se deixa deslumbrar por elas.

5 comentários

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    Cristina Torrão 12.01.2016

    E não devemos esquecer que as redes sociais aproximaram os ditos intelectuais do dito povo comum, o que implica que os intelectuais se apercebam melhor do que o povo comum gosta e faz. Antigamente, os dois grupos estavam a léguas um do outro, moviam-se apenas no seu meio, ou seja, só conheciam uma parte da realidade. Hoje, vão-se apercebendo da realidade inteira. E deitam as mãos à cabeça! E ficam com a ilusão que antigamente todos eram mais cultos e educados. Apenas uma ilusão!

    Permitam-me citar Rentes de Carvalho ("Portugal - a Flor e a Foice"), referindo-se aos escritores que julgavam conhecer o povo, mas que não faziam ideia do que era o povo:

    «Para eles o povo era folclórico, estúpido, pobre por culpa da sua própria ignorância. Quando se lêem os romances em que, supostamente, o povo está presente, constata-se na generalidade este fenómeno curioso: aquele povo não existe, é a imagem deformada obtida pelos escritores que vão à província ver os camponeses como os curiosos vão a um jardim zoológico ver os animais. A prova: na maioria, na grande maioria dos romances portugueses, os personagens populares são postos a falar com empolamento académico, ou então com a ênfase pesada dos maus dramas de teatro. Mais: aquela linguagem não é a sua, autêntica e rude. Nada disso. É uma linguagem que o escritor inventa, pedante, a mentir nos sentimentos e na sintaxe».
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    ASeverino 13.01.2016

    Mas o Povo não será algo, sei lá...algo virtual? mas o Povo não seremos todos nós? são perguntas à séria (como talvez dissesse o Povo), perguntas que não são, sinceramente, irónicas.
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    Cristina Torrão 13.01.2016

    Tem razão: o Povo somos todos nós. Mas há muitas diferenças entre nós e há (sempre houve) uma parte (grande) do Povo que as pessoas ligadas à cultura não conhece, não faz ideia de como é e de como reage, embora essas pessoas achem que sim, que conhecem muito bem todo o Povo e até gostam muito dele! Isto só na teoria. Porque, quando, na prática, tomam contacto com esse Povo, ficam boquiabertos e fartam de lhe cascar em cima.

    Não estou a defender a ignorância e a boçalidade. Só me surpreende a visão redutora de certas pessoas.

    Se há gente que não sabe o que fazer às bibliotecas dos pais e avós, também há gente, nos nossos dias, que vai criando uma enorme biblioteca, sem ter herdado nada, ou seja, sem que os pais e os avós o tivessem feito.

    Acho a visão de Pacheco Pereira redutora, pronto!
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    ASeverino 13.01.2016

    Peço desculpa Cristina, mas estou um pouco confuso: mas as pessoas ligadas à cultura não fazem parte do Povo? É que eu saiba, o tempo do Clero, Nobreza e Povo, já lá vai à longos decénios (agora, porque tudo e todos se regem pelo dinheiro,quanto muito há é ricos, remediados e pobres)...e o que as pessoas ligadas à cultura -que afinal são pessoas, como as outras, iguais a essas às a que chama Povo- cascam é precisamente na ignorância, na boçalidade, na estupidez, característica que se encontra em qualquer meio, seja no "Clero" na "Nobreza" ou no "Povo", basta ver esses reality /concursos diários (com títulos estrangeirados) que todas as noites educam as gentes portuguesas...
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