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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

08
Nov18

A pontuação de um Nobel

Maria do Rosário Pedreira

No mês passado, a propósito das longas e variadas comemorações dos vinte anos da entrega do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago, contaram-me uma história deliciosa. Tendo-se Saramago tornado muito mais conhecido em todo o mundo depois de receber o galardão, o que é natural, acordou, pelos vistos, o desejo de ser lido por muitos emigrantes portugueses em vários países, subitamente orgulhosos de verem um seu conterrâneo assim distinguido. Um desses emigrantes, vindo de férias a Portugal, lá comprou antes de regressar ao país de adopção um exemplar de um dos romances do escritor. Porém, pouco depois de iniciar a leitura, sentiu-se defraudado e, pondo o pé em terra, enviou imediatamente à editora uma reclamação. Dizia que o exemplar que lhe coubera em sorte era ilegível porque a pontuação estava toda errada e era frequentemente omissa; e que de certeza muitos outros leitores já tinham dado pela calamidade, pelo que por certo a editora tinha maneira de substituir os exemplares defeituosos por outros que tivessem as vírgulas no sítio. Afinal, o leitor não tinha culpa nenhuma do sucedido e, não tencionando voltar a Portugal antes do mês de Agosto do ano seguinte, era mais do que justo que lhe enviassem por correio, sem custos, um exemplar «legível»…

6 comentários

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    Anónimo 08.11.2018

    Claro que nos primeiros romances e nos Diários de Lanzarote esse "problema da pontuação" nem sequer se põe.
    🌨🌩🌧
    Maria
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    Pedro Sande 08.11.2018

    Maria: quem leu toda a obra de Saramago apercebe-se da evolução da sua obra;
    e, percebe que a libertação de algumas convenções só é permitida pelo exercício e aperfeiçoamento da "mão" que (já) domina inteiramente a arte da escrita.
    Ana Margarida de Carvalho analisou muito bem na Fundação Saramago, um dos primeiros livros do autor, o "Deste mundo e do outro". Um livro que tanto pode ser visto como de crónicas, como de contos, como um livro poético.
    A pontuação - para um escritor que domina a palavra - pode ser um sinal de proibição incómodo, em lugares onde a vastidão e o pensamento permitem uma real liberdade de criar.
  • Sem imagem de perfil

    António Luiz Pacheco 08.11.2018

    Uma pergunta Pedro: motivada pelo interesse naquilo que diz, em que medida é que a pontuação limita a verve ao escritor? Talvez o faça, mas, não é ela necessária para o leitor?
    Pergunto isto numa óptica de quem pensa que não se deve escrever para si próprio mas sim para os outros.
    Sem questionar Saramago, obviamente, cuja genialidade e maestria são até para mim evidentes.
    Porém se desatarmos todos a escrever "à Saramago" , se calhar então é que ninguém nos lê, eheheheh! A Cristina Torrão quando reveu o meu texto bem me deu na cabeça… e com razão, é claro.

    Abraço.
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    Cristina Torrão 08.11.2018

    A sua pontuação "desajustada" é mais malandrice do que outra coisa, diga lá
    O Pacheco não se aplica, é trapalhão...
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    António Luiz Pacheco 09.11.2018

    Mas completamente… eheheheh!
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