A quem pertence Borges?
Não é novidade para os leitores de Jorge Luis Borges (o enorme escritor argentino a quem, segundo muitas vezes se diz, não deram o Nobel da Literatura apenas por razões políticas) que ele não teve filhos e se casou já no final da vida com Maria Kodama, a mulher que o acompanhava havia anos, fosse como leitora (assim começou, ao que parece, a sua relação, pois Borges cegara bastante cedo), fosse como uma espécie de secretária (era ela que organizava a sua agenda). Acho que Maria Kodama foi também uma intérprete do mundo para Borges, pois li uma vez que viajou com ele ao Japão e lhe ia relatando tudo o que via; depois disso, ele escreveu um maravilhoso texto sobre esse país, como se facto tivesse podido ver o que cheirara, ouvira e sentira. Mas hoje o que eu queria dizer é que Maria Kodama morreu no final de Março e que ninguém encontra o seu testamento. Deste testamento constariam certamente os nomes das pessoas para quem seriam transmitidos os seus bens, nomeadamente os direitos de autor das obras de Jorge Luis Borges. E, se o documento não for encontrado, a propriedade será transferida para o Estado argentino, o que não é obviamente uma boa notícia. Por isso, tomara que a viúva do escritor tenha realmente feito um testamento a favor de alguém que saiba cuidar deste património tão especial e que apenas esteja a demorar a ser encontrado.

