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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

13
Abr20

Ainda os diálogos

Maria do Rosário Pedreira

Desta vez foi o Extraordinário Guilherme Henriques que, na quarta-feira passada, me «desafiou» a comentar o facto de os diálogos numa narrativa deverem dispensar explicações do narrador; ou seja, eles devem ser vívidos e realistas o suficiente para o narrador não precisar de acrescentar adjectivos, verbos e advérbios a descrever ou indicar o tom com que a personagem fala. Por outras palavras, se eu sei que a personagem está furiosa, devo incluir a sua fúria no que diz, e não escrever a seguir ao travessão «disse Ana, furiosa» ou «irritou-se John» ou «disse José, espantosamente enervado». Sim, é verdade: um grande escritor será seguramente capaz de integrar nas falas das suas personagens o que elas estão a sentir, embora isso requeira obviamente um talento singular e não seja para toda a gente; mas, atenção, por vezes a achega do narrador não é meramente explicativa, é ela própria literatura (quantas fantásticas metáforas e metonímias há nessas «explicações» do narrador?), por isso já não tenho tanta certeza de que tenha de ser forçosamente como defende Henry Green. Por outro lado, quando eu escrevia livros juvenis, acrescentava deliberadamente informação desse tipo nos diálogos para que os miúdos aprendessem palavras novas; sobretudo verbos (indagar, sussurrar, retorquir, inquirir, comentar, pigarrear, atalhar...) e os tais advérbios ou locuções que Green «condena». Mas, claro, eu não sou uma especialista na matéria, falo como alguém que trabalha lendo, nada mais. Os académicos certamente terão opiniões distintas das dos editores.

Sobre esta matéria, recomendo hoje um livro genial de Philip Roth que se aparenta bastante a uma peça de teatro (desculpem repetir o autor, não era minha intenção, mas vem muito a propósito). Intitula-se Engano (grosso modo, trata das conversas de um escritor adúltero) e é inteiramente construído com diálogos. Mas o melhor é que raras vezes nos dizem quem está a falar e, se estivermos atentos, não temos qualquer dificuldade em saber. O Extraordinário Guilherme Henriques vai gostar. A tradução é do também extraordinário Francisco Agarez.

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