Almas sujas
Li recentemente um romance chileno que tão cedo não me sairá da cabeça. Já o tinha visto elogiosamente referido na «Babelia», o suplemento cultural do jornal El País, mas foi já na versão portuguesa da Elsinore, com tradução de Isabel Petterman, que o degustei. Chama-se Limpa, assina-o Alia Trabucco Zerán, e tem como protagonista uma empregada doméstica chamada Estela. Eu, que até não aprecio especialmente quando os narradores se dirigem aos leitores, tenho de confessar que aqui gostei de ser interpelada por Estela, uma mulher de trinta e tal anos que resolve sair da província e ir para a cidade trabalhar durante um tempo com o objectivo de ajudar a mãe, mas que vai ficando na casa que a admitiu em vésperas de a senhora dar à luz Julia e se vai afeiçoando àquela menina que veremos crescer ao longo de sete anos (e que, apesar de menina, sabe que tem poder sobre a criada). De facto, como a sua mãe vaticinara, Estela cairá na armadilha de permanecer com a família de Julia ao longo de demasiado tempo, porque eles, mesmo vivendo ao seu lado, não lhe serão nunca nada (menos até que a cadela vadia que Estela acolhe clandestinamente), e entretanto a mãe envelhecerá irremediavalemente na aldeia. Este é um livro sobre a luta de classes (há, aliás, descrições de manifestações e protestos de rua e de assaltos a condomínios de luxo por gente muito revoltada com a sua vida), maravilhosamente personificada em Estela e nos patrões; mas tem a sabedoria de nunca ser caricatural nem óbvia, de tratar o assunto de forma muitíssimo original. Um livro bem escrito e sobretudo muito bem pensado com ideias e prosa limpas, que fica a ecoar dentro de nós, muito depois de o termos terminado.

