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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

10
Set15

Angola minha

Maria do Rosário Pedreira

São muitíssimos os Portugueses que viveram em Angola no século passado e regressaram na ponte aérea de 1975. Este livro de que hoje falo é também para eles, mas não só. Escreveu-o um autor que viveu essa viagem de perto e pertence a uma família que passou uma parte importante da sua vida em Angola. O País Fantasma, assim se chama o novo romance de Vasco Luís Curado, conta a história de duas famílias portuguesas, a de um militar e a de um civil. Ambos, Capelo e Mateus, partiram para Angola em 1961 – ano dos massacres de brancos em fazendas no Norte do país, aqui descritos de forma avassaladora – e regressaram em 1975, como tantas personagens reais que voltaram a um Portugal onde, às vezes, nem família já tinham. Um deles fez duas comissões na Guerra Colonial, o outro foi chefe de posto num lugar isolado. Um era de esquerda e muito crítico; o outro enriqueceu e nunca compreendeu porque teve de abandonar as suas plantações de café e voltar com uma mão à frente e outra atrás. Os dois lados da questão e as atrocidades cometidas ora por um, ora por outro, são aqui relatados de forma imparcial e sem paninhos quentes, mostrando que, afinal, ninguém teve razão numa Angola que ainda hoje é, segundo a epígrafe escolhida pelo autor, uma grande loba que tudo devora. O País Fantasma é, também por isso, talvez o livro mais esclarecedor sobre a história de Angola e o fim do império colonial editado em Portugal nas últimas décadas.

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3 comentários

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    Anónimo 10.09.2015

    Caríssimo

    Nasci em Angola. Vivi o antes, o durante e o depois. O agora deixo para quem ainda não se cansou desse assunto, deveras enfadonho. Foi tudo muito bom, ainda que se passasse fome e guerra. Falo por mim. Passar-se-ão mais 50 anos e o assunto ainda será "atual". Ora poupem-me!

    Não li o livro em tela e falta-me vontade para tal.

    Mas tenho uma certa curiosidade em saber se o tal chefe de posto traz à baila as atrocidades praticadas por quase todos os seus iguais. E pelo andar já percebi que é uma narrativa sobre os "Tinhas". Só não tiveram coragem de permanecer na terra que diziam "ser sua". Enfim ...

    Este assunto tornou-se cansativo, repetitivo e nem mesmo sei porque me dei ao trabalho de digitar este comentário.

    A página está virada, o que foi, foi e já acabou. A História, ainda que se escrevam n livros, não poderá ser mudada.

    Saudações aqui do meu Exílio.
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    Beatriz Santos 10.09.2015

    Não concordo. Até porque presente e futuro vão beber ao passado. E é diferente o saudosismo bacoco acerca de uma época - tem razão, nada volta - e o imaginário que sobre ela se forma. É parte da nossa história, moldou-nos a personalidade - convenço-me de que seríamos outros se a guerra colonial não tem existido; ignorá-la não podemos, como reconhece o poema de Sophia. Não sei avaliar se terá muitos ou poucos leitores, é tema que não me interessa por aí além. Mas não posso deixar de lhe reconhecer uma influência decisiva na vida portuguesa. Portador de carga dramática suficiente para grandes romances. Dulce Maria Cardoso é um bom exemplo, julgo que o seu livro "O Retorno" teve prémio.
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